Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, abril 04, 2006

Jânio de Freitas - Azares da sorte

Jânio de Freitas - Azares da sorte


Folha de S. Paulo
4/4/2006

Os petistas estão sendo ingratos com a sorte, os oposicionistas estão abusando dela.
Todo o PT, e sobretudo os parlamentares petistas que desejam derrubar o relatório da CPI dos Correios, deveriam agradecer à sorte que as investigações se encerrem sem chegar à questão mais mortífera dentre as várias que moveram a dinheirama na Câmara. Foi o troca-troca de tantos deputados de um para outro partido, como processo de formação e ampliação do bloco governista.
Muito do que figura como dinheiro de caixa dois serviu, de fato, ao troca-troca. E não há dúvida de que o dinheiro aí movimentado foi em montante muito maior do que o encontrado pela CPI. Os componentes da comissão que procuraram fazer investigações, a despeito da dedicação petista a dificultá-las ou impedi-las, ficaram limitados à fauna que Valério e Delúbio puderam relacionar a um pretenso caixa dois.
O do troca-troca, apontado na denúncia principal de Roberto Jefferson, não teve um só dos seus numerosos integrantes nem sequer citado, quanto mais investigado em suas contas por ocasião da transferência estapafúrdia. Houve troca-troca para o bloco governista até mesmo antes da posse. Movimento cuja investigação levaria direto ao Planalto, em cujos gabinetes era negociada e operada a formação do bloco.
Em vez do agradecimento à sorte que os poupou de uma explosão muito maior, com ameaça muito forte à sobrevivência de Lula, os petistas recusam terminantemente no relatório, por exemplo, a proposta de indiciamento de José Dirceu e Luiz Gushiken. Para começar, indiciamento não é condenação. Além disso, se o próprio Lula estigmatizou esses dois generais do lulismo, destituindo-os do comando do bloco governista e dos fartos cofres da propaganda e outros fins, só o fez movido pelos fatos e indícios que contra eles emergiam na CPI. Não fosse assim, aos parlamentares do PT só restaria acusar Lula de injustiça e cobrar-lhe reparação aos dois coitados.
O motivo maior e mal confessado da rebeldia petista está muito aquém das conseqüências que pode gerar. Se o PT levar a CPI a encerrar-se sem relatório, e relatório compatível com o que exibiu ao país, a grande pizza estará consagrada, mas não será digerida. A opinião pública e seus canais de manifestação vão, com toda a probabilidade, externar a indignação que até agora está reprimida.
A oposição não está em melhores disposições que o petismo. O chamado de dois assessores do Ministério da Justiça por Antonio Palocci foi atendido, obviamente, por então se tratar do ministro da Fazenda. Atribuir a essa obrigação o sentido de "envolvimento" do ministro Márcio Thomaz Bastos na quebra de sigilo de Francenildo Costa, ou mesmo "envolvimento" dos assessores, em bom português é o que se chama de palhaçada. Mas, em termos pessoais e políticos, a atitude do deputado José Carlos Aleluia e outros oposicionistas é uma leviandade e um ato irresponsável.
A fácil disposição com que os oposicionistas avançam falsas verdades e acusações -o que vêm fazendo desde as sessões da CPI- parece não distinguir entre autores. Propala o senador Álvaro Dias, por exemplo, estar "claro que a violação do sigilo do caseiro foi uma decisão política do governo". Só pode estar claro em deduções apressadinhas ou oportunistas. O jogo político e eleitoral não dispensa o respeito, por mínimo que seja, aos fatos e apreciações passados à informação dos eleitores.
A sorte tem dado à oposição o que, sozinhos, os oposicionistas não teriam competência de encontrar. Eles mais se desgastam do que aproveitam o presente.

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