Entrevista:O Estado inteligente

domingo, abril 09, 2006

JANIO DE FREITAS Pesquisa de efeitos

FOLHA
 Nunca uma pesquisa eleitoral criou tantos e tamanhos problemas para os comandos partidários quanto faz o Datafolha de hoje. Se, em lugar da prevista queda acentuada de Lula, por obra de Antonio Palocci, o que surge do eleitorado é o abandono ainda mais acentuado de Geraldo Alckmin, as articulações partidárias, internas e entre as cúpulas, estarão retomadas imediatamente com novos propósitos. PSDB, PFL e PMDB por certo entram em ebulição hoje mesmo. Para a posição de Alckmin no PSDB, acendeu, no mínimo, o sinal amarelo.
O resultado do atual Datafolha fica mais eloqüente se medido em quantidades do que em percentuais. Ao descer de 42% para 40%, por exemplo, em cada mil apoiadores que tinha na pesquisa anterior, Lula foi deixado por 48. Alckmin, ao cair de 23% para 20%, foi abandonado por 130 de cada mil que tinha. Perda quase três vezes maior do que a de Lula, proporcionalmente aos respectivos eleitorados anteriores.
A perda de Geraldo Alckmin é, portanto, muito acentuada. Sobretudo se considerarmos que se deu em apenas três semanas, o que equivale à perda média de 1% por semana (o Datafolha anterior foi em 16/17 de março). O uso político das verbas publicitárias da "Nossa Caixa" e a elegância grátis de Lu Alckmin não parecem suficientes para explicar a perda.
Exceto na Folha, esses assuntos não têm recebido destaque maior, contidos pelo antilulismo subjacente em toda a mídia. Em âmbito nacional então, como é a pesquisa, os dois casos estão muito longe de ter a repercussão que os fizesse mais corrosivos, proporcionalmente, que o desmascaramento de Antonio Palocci. A primeira impressão que a pesquisa sugere, para a queda de Alckmin, é algo quanto às peculiaridades do próprio pré-candidato do PSDB.
O mau resultado de Alckmin diz respeito ao PFL em medida igual à do PSDB. Sem possibilidade de candidato próprio, os pefelistas entregam o seu destino ao candidato peessedebista, seja quem for. Mas não abrem mão de fazer, no círculo do seu condicionamento, o jogo político que lhes pareça conveniente, mesmo que não coincida com o do PSDB.
Observe-se, nessa linha, que o PFL acertou a aliança com o PSDB, mas não indicou o nome para vice. A protelação chegou a encenar, nos últimos dias, a cessão da vice ao PMDB, com isso provocando mais conversações sem nomes. Ou seja, o PFL quer ver o que sucederá à pré-candidatura de Alckmin, não aposta nela a ponto de antecipar o seu envolvimento formal na chapa. O Datafolha reacende as discussões do PFL com o PSDB.
A ebulição no PMDB vai subir ainda mais nas próximas semanas. Por um lado, o salto de Anthony Garotinho lhe dá mais combustível contra os adversários no partido: ao passar de 12% para 15%, Garotinho somou mais 250 a cada mil dos seus apoiadores no Datafolha anterior, com a explicação mais provável de que a campanha de propaganda peemedebista contribuiu muito para a subida, ainda que haja mais fatores.
De outra parte, porém, o Datafolha fortalece os que defendem candidatura própria do PMDB, mas não a de Garotinho. A pesquisa é clara na indicação de que, entre o PT e o PSDB, a via está aberta para uma candidatura em que o eleitorado encontre mais afinidades e mais confiança, além de viabilidade eleitoral. Desde que se tornou hospedaria, o PMDB é caótico, mas nas atuais circunstâncias brasileiras não estão equivocados os que percebem boas oportunidades peemedebistas. A depender do que ocorra no PSDB, em relação a Geraldo Alckmin e José Serra, até a disputa pelo governo de São Paulo pode ser reanalisada, a partir do Datafolha, em razão do PMDB.

Renúncias
Não foi o Conselho de Ética, mas o plenário da Câmara que cometeu a injustificável absolvição do deputado paulista João Paulo Cunha, cujo comprometimento pessoal, financeiro e parlamentar com as transações de Marcos Valério ficou provado. Logo, se acham que é o caso de renúncia em represália à absolvição, os deputados que estão renunciando ao Conselho de Ética deveriam renunciar ao plenário que absolveu, e não ao conselho que condenou.
A represália vai na direção oposta, o que lhe dá um ar entre colegial e demagógico. O PT já articulou três substituições com deputados que negam a existência de mensalão e são contrários à punição por recebimento ilegal de dinheiro, o caixa dois. A renúncia será contra o conselho e a favor do plenário.

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