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O documentário "Falcão - Meninos do Tráfico", mostrado há pouco na televisão, obriga-nos todos a refletir sobre essa questão. Que crianças e adolescentes são usados pelos traficantes, já se sabia; o impacto foi causado pelo testemunho dos próprios meninos, para quem traficar, matar e morrer são coisas naturais na profissão que escolheram. Eles têm consciência de que a droga "acaba com o cara", mas, dizem, quem consome é porque gosta. Não assumem qualquer responsabilidade nisso, são profissionais que ganham a vida como bandidos para ajudar a "coroa" (a mãe), comprar cocaína e, quem sabe um dia, uma motocicleta. Isso é fundamental porque as garotas bonitas só vão com quem tem "motinha"; andar armado também ajuda, mas é insuficiente.
Estão plenamente conscientes das implicações decorrentes da "vida de bandido". Têm acordo com a polícia que, para deixá-los traficar, recebe propina. "Se acabar o tráfico -dizem eles- acaba a polícia, pois ela vive do que a gente paga." Não a consideram amiga nem aliada, pois quem não paga morre. E se o Estado pagasse melhor aos policiais?
Matar ou morrer, para eles, é parte da "profissão". A morte não os assusta: "Se morrer, vou descansar. Vai vir outro que nem eu, ou pior, ou melhor", diz um menino. Sabe-se que o mataram. Dos 17 meninos entrevistados, 16 já morreram.
Quase nenhum deles tem pai. Muitos têm mãe, mas não moram com ela, sentem falta de uma família. "Meu sonho é ser palhaço de circo; quando completar 18 anos, largo esta vida de bandido e me matriculo numa escola de circo." É que os traficantes usam o Estatuto da Criança e do Adolescente como garantia de impunidade até os 18 anos.
Um dos momentos mais chocantes do documentário mostra garotinhos de oito, dez anos, brincando de bandido. Fingem fumar maconha, fumando eucalipto, e cheirar cocaína, cheirando um pó qualquer; usam armas de brinquedo e fingem guerrear entre si. Em dado momento encenam a captura de um X-9.
- X-9 tem que morrer!
E o garoto que faz o papel de alcagüete, depois de "espancado", é "executado" pelos soldadinhos do tráfico.
Uma jovem mãe favelada, que tem um filho de menos de três anos, manifesta seu desespero:
-Ele já sabe que existe o tráfico, já brinca atirando com o dedo. Mas não vou deixar ele seguir esse caminho, vou mostrar a ele, seja como for, que existe outra vida, que o mundo oferece outras coisas.
E um ex-bandido do tráfico, que passou muitos anos na cadeia e hoje vive numa cadeira de rodas, dá seu depoimento:
-O tráfico não traz nada de bom. O menino ganha uma miséria para arriscar a vida todos os dias. Não tem diversão, não namora, não passeia no shopping e morre aos 16 anos ou termina numa cadeira de rodas, como eu. "Malandro" é quem trabalha, não quem vira bandido.
Sim, mas como evitar que os meninos favelados entrem nessa roubada? Resgatar os garotos que já se engajaram no tráfico será muito difícil, quase impossível. A prioridade deve ser, portanto, evitar que a cooptação continue. E isso só se conseguirá com muito empenho, investindo em programas sociais, apoiando as jovens mães e combatendo inteligentemente os traficantes.
Como não sou especialista neste assunto, quero apenas fortalecer os argumentos e a ação dos que já trabalham nesse campo. O primeiro diagnóstico nos induz a crer que basta acabar com a desigualdade para extinguir a criminalidade nas favelas. Mas todos sabem que nada é mais difícil do que acabar com a desigualdade. Não há dúvida de que as condições de vida, numa comunidade pobre, favorecem a criminalidade e, independentemente disso, têm que ser mudadas. Alguma coisa tem sido feita, nesse sentido, aqui mesmo no Rio, mas não o suficiente para impedir que o tráfico continue a cooptar dezenas de crianças e a transformá-las em bandidos. A ausência da autoridade paterna também contribui para que o menino se torne revoltado e sem rumo, mas não explica inteiramente a opção pelo crime.
Todos estes fatores constituem o caldo de cultura que propicia o aliciamento do jovem pelo crime, mas o fator decisivo é o tráfico. Uma coisa é um menino revoltar-se, deixar a escola e passar a roubar, outra muito diferente é haver uma organização criminosa que o alicia e faz dele um bandido profissional. O tráfico disputa com a sociedade organizada a conquista dos menores, oferecendo-lhes uma ocupação remunerada, sem exigir deles qualquer preparo ou formação profissional, e os prestigia. A sociedade, para competir com o tráfico, tem que lhes oferecer o sonho, através da música, da arte e do esporte. Um caminho de vida mais feliz. E tudo o mais, depois.
Mas, ao mesmo tempo, devemos perguntar o que pensam disso os consumidores de drogas, muitos deles bem-postos na vida. Terão consciência de que contribuem decisivamente para a morte dessas crianças? O tráfico de drogas sofreria um golpe mortal se não tivesse a quem vender sua mercadoria.
Entrevista:O Estado inteligente
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