| Diplomacia em tempos de mudança |
| Artigo - Rubens Barbosa |
| O Estado de S. Paulo |
| 11/4/2006 |
Desde a queda do Muro de Berlim, com o fim da guerra fria, uma nova ordem política e econômica mundial vem tomando forma sob nossos olhos e os governos procuram adaptar-se às novas circunstâncias. São tempos de grandes desafios e oportunidades. Novos fatos estão sendo criados a todo instante. A tecnologia encurta as distâncias. Novos países surgem. A ameaça de conflitos está mais dentro dos Estados do que entre eles. Os países ditos emergentes ocupam espaços crescentes e já são responsáveis por mais da metade do PNB mundial. Reconhecendo os novos desafios globais, algumas chancelarias ao redor do mundo começam a se ajustar a essas realidades, procurando defender da melhor forma possível seus interesses. O exemplo e a experiência de outros países para melhorar a eficiência de sua diplomacia são relevantes. Surgem soluções inovadoras, como postos virtuais, aprimora-se a política de pessoal, modernizam-se os métodos de trabalho, ultrapassados pela rapidez das comunicações, sofisticam-se a aplicação das tecnologias de informação e o treinamento adequado às novas demandas e se redefinem os meios oferecidos no exterior a diplomatas. Enquanto isso, no Brasil, o Itamaraty também parece empenhado em reformas administrativas, de pessoal, de carreira e de objetivos, o que seria auspicioso, não fossem a peculiar visão do mundo e as prioridades que fundamentam essas transformações. Os diplomatas no Itamaraty do governo Lula, segundo a política vigente, estão sendo formados e doutrinados para ajudar a transformar o mundo e contribuir para uma nova geografia política, econômica e comercial mundial, para rejeitar a situação atual de um mundo globalizado, o enfraquecimento das organizações multilaterais em decorrência do unilateralismo dos EUA, além do realce às relações com os países em desenvolvimento. A ideologização das decisões e a politização das negociações comerciais são algumas das características que moldam as prioridades da política externa definidas pela atual administração do Itamaraty. Outra diferença é que, enquanto as chancelarias visam mudanças de qualidade, as transformações que estão sendo implementadas no Itamaraty se resumem a incrementos quantitativos, inclusive com perdas qualitativas potenciais: mais embaixadas (16, das quais 9 na África) e mais diplomatas para resolver todos os problemas. Nada ou quase nada é pensado para aperfeiçoar os métodos de trabalho, melhorar a política de pessoal ou modernizar as estruturas. A retirada do inglês como língua eliminatória (reintroduzida diante do clamor de protesto então observado) e a obrigatoriedade de leituras politicamente dirigidas para os diplomatas que voltam para Brasília são exemplos recentes de trapalhadas que arranham a imagem da instituição, mas podem ser consideradas relativamente inofensivas se revertidas a tempo. Agora, porém, segundo as informações disponíveis, estão sendo tomadas medidas que justificam reais preocupações. Antes de abordá-las, lembro que alguns anos atrás, com o propósito de estudar meios e modos de modernizar o Itamaraty, foi ali constituída uma comissão que, integrada por todas as chefias da instituição e presidida pelo então titular da pasta, Fernando Henrique Cardoso, se reuniu por vários meses. Após debates que envolveram consultas aos chefes dos postos no exterior, essa comissão produziu um relatório circunstanciado das disfuncionalidades do Itamaraty, com sugestões de medidas corretivas. Várias dessas medidas foram implementadas, com resultados positivos. Contrariamente àquele democrático precedente, a reforma que agora se anuncia em Brasília foi arquitetada de maneira centralizada e pouco transparente e, a seguir, fatiada em medidas provisórias que foram ou vão ser submetidas ao Congresso Nacional. Seguindo a idéia superada de que problemas organizacionais são resolvidos pela expansão continuada dos meios, foi proposta a criação de 400 cargos de diplomata para serem preenchidos em quatro anos. O bom senso do Senado reduziu esse número a 105, mas, por pressão do Executivo, a Câmara dos Deputados, com pouca divulgação, anulou essa decisão e restabeleceu o número inicial. As etapas seguintes em termos de carreira, isto é, a criação de novas gratificações e a alteração de regras para acelerar as promoções dos funcionários simpáticos à chefia, estão prontas, mas parecem também encontrar resistência no Legislativo, avesso a aumentar despesas pouco justificadas em ano eleitoral. O problema é que, no açodamento de antecipar o uso dos poderes a serem conferidos pela legislação proposta, promoções já foram feitas em dezembro com fundamento legal, no mínimo, discutível, e o Instituto Rio Branco realizou concurso para preencher vagas que poderiam não se ter materializado. Tendo atravessado até mesmo os 20 anos de regime militar como uma instituição do Estado, com formação e organização de quadros independente do pensamento situacionista, é paradoxal que o Itamaraty seja hoje objeto de uma ameaça tão séria a aspectos fundamentais da sua independência institucional. Os equívocos hoje cometidos na área administrativa da chancelaria brasileira têm parentesco com os erros e distorções de prioridades perpetrados também na área da política externa. A gestão que está desestruturando uma instituição até então considerada modelo de boa organização é a mesma que não consegue acertar o passo nas relações com os vizinhos e com seus parceiros tradicionais de peso e que, deixando de lado a defesa dos interesses nacionais permanentes, sai mundo afora a fazer política ideológica na esperança de ressuscitar realidades do passado. Com ou sem a vitória da oposição em outubro, haverá muitos nós a desatar no Itamaraty. Os aqui mencionados, na esfera administrativa, estarão entre os primeiros, pois não existe boa política sem bons instrumentos para executá-la. Rubens Barbosa, consultor, presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp, foi embaixador do Brasil nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha
|
Entrevista:O Estado inteligente
- Índice atual:www.indicedeartigosetc.blogspot.com.br/
- INDICE ANTERIOR a Setembro 28, 2008
terça-feira, abril 11, 2006
Diplomacia em tempos de mudança
Arquivo do blog
-
▼
2006
(6085)
-
▼
abril
(579)
- Vem aí mais imposto ou menos investimento Maílson ...
- Voto nulo, voto branco, reeleição e políticos hone...
- AUGUSTO NUNES SETE DIAS 30 DE ABRIL JB
- CLÓVIS ROSSI Cadê os empregos?
- ELIANE CANTANHÊDE "Igual a mim"
- JANIO DE FREITAS Nos aposentos do príncipe
- LUÍS NASSIF Adolf Berle Jr. e a diplomacia do dólar
- A invasão dos bárbaros RUBENS RICUPERO
- FERREIRA GULLAR O feitiço do Bruxo
- Portas abertas aos ‘companheiros’ no governo
- Culturobrás DANIELPIZA
- Petróleo - a história roubada
- O trabalho na China CELSO MING
- FH coordenará idéias de Alckmin DORA KRAMER
- A esquerda no poder Ives Gandra da Silva Martins
- O avanço do retrocesso Gaudêncio Torquato
- Temos um modelo CRISTOVAM BUARQUE
- Miriam Leitão Sem cerimônia
- Vamos colaborar JOÃO UBALDO RIBEIRO
- Merval Pereira O moralismo de Baudrillard
- Em breve, toda a turma reunida novamente
- The Crony Fairy By Paul Krugman
- Merval Pereira As doenças de Baudrillard
- Miriam Leitão Maioria mexicana
- Zuenir Ventura E se tudo for verdade?
- CLÓVIS ROSSI O difícil e o impossível
- FERNANDO RODRIGUES O valor da transparência
- Novos conflitos DENIS LERRER ROSENFIELD
- Copa da Educação GESNER OLIVEIRA
- Melhor adiar a reforma
- Epitáfio para um partido
- Celso Ming - O bolo e suas fatias
- Ao lado do ‘companheiro Dirceu’, Lula avisa: ‘Não ...
- Lula elege Casas Bahia como modelo de desenvolvime...
- DORA KRAMER Camisa de força
- Lucia Hippolito na CBN:Na mão do PMDB
- As práticas mais que condenáveis de Garotinho
- José Mentor se enrola em mais uma acusação
- Xerox é a solução para o caso dos quarenta
- Os problemas da campanha de Alckmin
- Chernobyl Vinte anos depois do desastre
- Criminalidade explode no governo Chávez
- Os países que buscam trabalhadores estrangeiros
- A disparada dos gastos oficiais
- Bolsa Família O que é o programa assistencial de Lula
- VEJA Entrevista: Renato Mezan
- MILLÔR
- Lya Luft Quebrar o silêncio
- André Petry No reino da bandalha
- Roberto Pompeu de Toledo Os brasileiros – uma nova...
- Diogo Mainardi Pedi o impeachment de Lula
- O epílogo da crise Ricardo Noblat
- clipping 28 de abril
- Dora Kramer - Desfaçatez como nunca se fez
- Impostura Demétrio Magnoli
- Presidente da OAB constrange Lula no STF
- Guilherme Fiuza Petrobras, a mentira
- Herança premiada
- Clóvis Rossi - O Brasil cabe na sua dívida?
- Eliane Cantanhede - O troco
- Jânio de Freitas - A seleção
- Merval Pereira - Política e religião
- Sinal de alerta nas contas
- O passado que reaparece
- Não são desnutridas
- Lula, seu galinheiro e o milharal
- Lesa-pátria
- Fugindo à razão
- A diplomacia do fracasso
- A deterioração das contas públicas
- Alberto Tamer - Petróleo não derruba economia
- Dora Kramer - O rato que ruge
- Luís Nassif - O desafio do gasoduto
- Míriam Leitão - Tá na cara
- Lucia Hippolito na CBN:Um estranho no ninho
- Neopeleguismo
- OAB reafirma: decisão sobre impechment sai em maio
- Casa da mãe Joana
- Fingindo-se de cego
- e assim é nossa politica.....
- Acalmar pelo terror?
- OPORTUNIDADE FISCAL
- MÉRITO EM XEQUE
- Crime sindical
- América do Sul desafia o Brasil::
- Acalmar pelo terror?
- A verdade da fome
- A OAB e o impeachment
- A crise é institucional
- A ameaça boliviana
- 'Drive-thru' do tráfico
- Clóvis Rossi - O silêncio e as cores do mundo
- Celso Ming - Evo ataca, Lula se omite
- Dora Kramer - À espera de um milagre
- Élio Gaspari - FFHH e Lula melhoraram o Brasil
- Fernando Rodrigues - A utilidade do vice
- Luís Nassif - O SUS e o elogio fatal
- Merval Pereira - As dores do parto
- Míriam Leitão - Erro estratégico
- Lucia Hippolito na CBN:Lerdeza e esperteza
- Campanha sem substância
- Saque ao Tesouro
- Privatização pôs o trem nos trilhos
- Pobre País do futuro
- O País perdeu o passo
- O Brasil e a questão da latinidade
- Ilusões ideológicas
- Herança maldita
- A latinização dos EUA
- A ÉTICA E OS NÚMEROS
- Arnaldo Jabor - A verdade está na cara, mas não se...
- Celso Ming - Febre por metais
- Clóvis Rossi - Terra chamando Lula
- Dora Kramer - Telespectador eleitoral
- Eliane Cantanhede - Mais um trem da alegria
- Jânio de Freitas - Aviso de desembarque
- Luís Nassif - O cientista e a nova onda
- Merval Pereira - Visões da AL
- Míriam Leitão - Fora da Bolívia
- A consagração do atraso
- Em defesa da globalização
- Abençoado pelo petróleo
- Celso Ming - Os riscos e os juros
- Doha acabou. Vamos começar de novo? Alberto Tamer
- O PT que não evolui Mailson da Nóbrega
- Insistir em tese de impeachment é "golpismo" da op...
- Tentando conter o dragão
- DORA KRAMER Deserto de homens sem idéias
-
▼
abril
(579)
- Blog do Lampreia
- Caio Blinder
- Adriano Pires
- Democracia Politica e novo reformismo
- Blog do VILLA
- Augusto Nunes
- Reinaldo Azevedo
- Conteudo Livre
- Indice anterior a 4 dezembro de 2005
- Google News
- INDICE ATUALIZADO
- INDICE ATE4 DEZEMBRO 2005
- Blog Noblat
- e-agora
- CLIPPING DE NOTICIAS
- truthout
- BLOG JOSIAS DE SOUZA