Líder do PT no Senado até assumir o comando da comissão destinada a investigar negociatas nos Correios, Delcídio conheceu o som da fúria ao declarar aprovado o parecer do relator e, em seguida, encerrar os trabalhos da comissão que dirigiu com lisura e habilidade. Quase inaudível em meio à barulheira, a cerimônia do adeus reanimou o guerreiro abatido por Jefferson ainda nos combates preliminares. Para o demolidor do mensalão, foi apenas mais um duelo. Para o perdedor Bittar, foi uma guerra. Curta, mas muito dolorosa.
Jefferson animou-se ao ouvir naquela noite o berreiro do combatente aprendiz. ''Tenho algumas revelações guardadas para Vossa Excelência'', preveniu. ''Estava até ficando ansioso por não ouvir a sua voz''. A platéia ficou excitada: o que estaria insinuando o depoente? Bittar tratou de trocar os gritos beligerantes por elogios ao acusador. E decretou a trégua unilateral.
O demorado repouso do guerreiro foi interrompido pela relevância da missão encomendada por Altos Companheiros. Com o resto da tropa, Bittar deveria implodir o texto de Serraglio e substituí-lo pelo relatório paralelo do PT. Nesta fantasia, o mensalão não existiu.
A versão mobiliza meia dúzia de vestais estupradas por um mineiro tarado, com poucos cabelos e muito dinheiro. Nesse caso, o que teria a CPI descoberto? Os companheiros respondem: ''Descobriu no Sr. Marcos Valério um arquiteto de sofisticadas operações financeiras de distribuição de dinheiro a parlamentares. O empresário angariava recursos no setor público e privado e os repassava, por meio de suas agências de publicidade, às pessoas indicadas por Delúbio Soares''.
Seria esse o outro nome do mensalão?, perguntarão os desconfiados. Não, ensina o relatório companheiro. ''Havia o publicitário seduzido o Partido dos Trabalhadores com um mecanismo para arrecadar fundos, cuja gênese - como comprovou as investigações (o erro de concordância é dos redatores petistas) - se deu nas campanhas políticas desde 1997, mas se explicita com todas as suas características na campanha de 1998 para o governo do Estado de Minas Gerais, na qual saiu derrotado o hoje senador Eduardo Azeredo''.
Tudo explicado. As cabeceiras da corrupção amazônica estão em Belo Horizonte, entre o escritório de Valério e o comitê do PSDB. Ao rio imundo, certo, somaram-se as águas até então imaculadas dos afluentes. Mas a natureza é sempre impiedosa com os habitantes da selva. Ali vigora a lei do mais forte, não há perdão para ingênuos. Assim seria com o PT.
Coerente, a tropa do partido desforrou-se da derrota na CPI com a absolvição do mensaleiro João Paulo Cunha. Protegidos pelo voto secreto, 256 deputados rejeitaram o pedido de cassação formulado pelo minucioso parecer de Cezar Schirmer (PMDB-RS). O bloco petista foi ampliado pelas bancadas dos patifes, dos espertalhões, dos cretinos. Bittar comemorou em silêncio.
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[09/ABR/2006]