Entrevista:O Estado inteligente

domingo, abril 09, 2006

Análise Mudanças na Europa Alberto Tamer

ESTADÃO

Algo bom está acontecendo na Europa, afora a baderna dos estudantes franceses que, acreditem, querem ter segurança de emprego antes mesmo de terem concluído seus estudos e estarem empregados. O Banco Central Europeu (BCE), pela primeira vez em mais de dois anos de insensibilidade com a estagnação econômica da Eurozona - algo em torno de 1% -, decidiu mudar de política e anunciar que não pretende mais aumentar os juros em abril ou maio.

Com isso, o seu presidente Jean-Claude Trichet, que, para protesto geral, havia elevado a taxa básica em 0,25 ponto porcentual, apesar dos fortes indícios de recessão, queda do consumo interno e paralisia no mercado imobiliário.

O clamor não veio do mercado, mas dos ios chefes de governo, desesperados com o aumento acelerado do nível de desemprego e a queda da atividade econômica.

Quinta-feira, o BCE, que havia elevado a taxa em 0,25 ponto na última reunião, decidiu não só manter os atuais 2,5%, restritivos na atual fragilidade da economia européia, mas deu claramente a entender que a política do banco mudou.

E o argumento anterior que a inflação estava acima da meta arbitrária do banco de 2%? Aí, ele passou a imitar Greenspan e Bernanke, os quais sempre contradizia. E utilizou uma expressão muito usada do ex-presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano): a inflação a médio e a longo termos (agora de 2,3%) leva o BCE a manter uma política "acomodativa".

Também pela primeira vez, ainda seguindo os seus dois colegas americanos, Trichet falou que está atento ao crescimento econômico. Mais ainda, a partir de agora, será mais transparente, e passará a dar informações não só sobre o comportamento dos preços, mas também sobre o desempenho dos indicadores econômicos.

A Eurozona - no fundo, França e Alemanha - sofreu muito com a teimosia de Trichet e seu antecessor, mas agora há uma esperança de que, afinal, ele entendeu que, a exemplo do Fed, um banco central não pode dar prioridade só à inflação, mas tem de levar em conta outros fatores que pesam sobre o crescimento econômico. Aumentar juros quando a demanda aquecida ameaça pressionar a inflação, como está fazendo agora Bernanke, seguindo a política corretíssima de Greenspan, e reduzi-la ao máximo quando ocorrer o oposto.

AGORA VAI CRESCER...
Mesmo sem ter dados mais consistentes, para justificar a mudança da política monetária restritiva em meio a plena estagnação, Trichet disse que, mesmo cauteloso, acredita na reativação da economia européia.

Com a nova política do BCE, o euro recuou o que ajudará a impulsionar as vendas externas. Mas os analistas alemães e franceses deixaram claro que só isso não sustentará os primeiros sinais de recuperação. "O aumento das vendas internas na Alemanha recuou de 0,5% em janeiro para 0,2% em fevereiro. Se a demanda interna não melhorar, a recuperação agora iniciada corre sério risco. E a Alemanha é a terceira maior economia mundial, depois dos EUA e do Japão. Sozinha, representa 33% da Eurozona", dizem.

Ou a França e a Alemanha voltam a crescer ou a UE afundará ainda mais, limitando um crescimento maior e mais equilibrado da economia mundial.

Exagero? Não. A UE tem um PIB muito próximo de US$ 11 trilhões dos EUA, é o primeiro parceiro comercial do Brasil, apesar do protecionismo do seu mercado, que só poderá ser atenuado quando voltar a crescer. É também uma grande investidora do Brasil. Mais ainda, sem ela, são completamente inúteis as negociações sobre liberalização na OMC. Liberalizar nosso mercado, por que, se nós mesmos estamos nos afogando?

Há anos, a economia européia é sustentada pelas exportações que hoje perdem mercado para os EUA, a China e outros países asiáticos. Isso já está sendo registrado pela desaceleração de sua balança comercial.

Trichet abriu um duplo espaço para a economia: ajuda a desvalorizar o euro e estimula a demanda interna.

VAI DEMORAR
Mas os resultados devem começar a ser sentidos em seis meses, pois falta ainda confiança do consumidor na promessa do BCE - afinal ele continua temendo a perda de seu emprego numa região onde há 11 milhões de desocupados vivendo à custa do Estado - e há ainda a superar as resistências a mudanças estruturais que há muito já foram postas em prática na Grã-Bretanha e nos EUA.

Não é só a reforma da legislação trabalhista - vejam a brutal reação dos estudantes franceses -, mas a redução da carga tributária sobre o emprego e toda a atividade econômica. São mudanças difíceis que só poderão ser impostas com muita energia e esclarecimento de uma população acostumadas desde o fim da 2.ª Guerra a viver em grande parte à custa do Estado. Só que esse Estado entrou em regime de falência, com endividamento crescente, déficits fiscais e pela falta de lideranças firmes que mantenham políticas econômicas coerentes.

Mas o principal obstáculo foi vencido. O BCE se convenceu de que a prioridade é tirar da estagnação a segunda economia mundial, depois dos EUA, e que uma inflação de 2,3% não é mortal e descontrolável.

Dá para crescer sem correr o tão exagerado risco de "hiperinflação..." de 60 anos atrás. Será que eles não entenderam ainda que a estrutura da economia mundial mudou.

* E-mail: at@attglobal.net

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