O GLOBO
Nos anos 60, as idéias de três “M” — Marx, Mao e Marcuse — incendiaram a imaginação dos jovens com fantasias revolucionárias. Em maior ou menor grau, elas alimentavam a esperança de que o mundo poderia ser transformado de uma hora para a outra com a força da vontade e/ou das armas. Havia outro badalado “M” correndo por fora, o de Marshall McLuhan, mas este ninguém levava muito a sério. Era tão desacreditado em certas áreas intelectuais que costumava ser comparado ao Chacrinha, o que viera para confundir, não para explicar.
Provocador, o professor canadense autor de “Para entender os meios de comunicação” (o editor achava que não ia vender porque tinha muita informação nova) defendia teses extravagantes como a de que o veículo importava mais do que o conteúdo. Com um quase slogan, pois também era grande marqueteiro, resumia assim sua descoberta: “o meio é a mensagem”. Em 1964, como um profeta da globalização, previa que a televisão transformaria o mundo numa “aldeia global”. Por si só, não tanto pelo que levava ao ar, ela mudaria a percepção, a sensibilidade e o comportamento das pessoas. Chegara ao fim a Era Guttemberg, cuja visão do mundo fora condicionada pela tipografia, com sua lógica verbal, linear e discursiva. Agora, concluía, “estamos passando do mundo da roda para o mundo do circuito”.
Mesmo tendo morrido 15 anos antes do advento da internet, McLuhan também intuiu que a proliferação de novas tecnologias de computação ia alterar o curso da História. Gostava de comparações desconcertantes como a de que a roda era a extensão do nosso pé, o eixo a do braço, e os meios eletrônicos de comunicação, a continuação de nosso sistema nervoso central. Diante disso, propunha que o sistema de ensino tradicional fosse todo reformulado. Ele achava que nesse universo audiovisual os jovens não teriam mais saco de ficar numa sala de aula ouvindo o professor falar.
Na introdução ao livro “McLuhan por McLuhan” (Ediouro) que acaba de sair no Brasil, Tom Wolf, que, como se sabe, é um homem de letras, não poupa elogios a esse cérebro eletrônico, digamos. O autor de “Fogueira das vaidades” afirma: “A internet reanimou o mcluhanismo, e ele próprio foi ressuscitado como algo próximo de um padroeiro.” Quem tiver dúvida que dê uma chegada ao Vale do Silício e pergunte a Bill Gates e seus discípulos.
Caprichos da História. De onde menos se esperava é que saiu quem soa hoje como o mais moderno dos quatro “M”, aquele cujas idéias, em vez de perder, ganharam atualidade.
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Esta semana Cesar Maia esteve às voltas com números para descobrir se houve fraude na última pesquisa eleitoral. Uma trabalheira. E ainda querem que ele arranje tempo para cuidar da cidade.