Entrevista:O Estado inteligente

sábado, fevereiro 18, 2006

MERVAL PEREIRA Serra diz sim, com ressalvas

O GLOBO

O prefeito José Serra colocou finalmente na noite de quinta-feira, na mesa do restaurante Massimo, em São Paulo, sua decisão: é candidato, aceita enfrentar Lula na campanha deste ano mesmo sabendo que o presidente recuperou parte de sua popularidade nos últimos meses, mas não pretende “bater chapa” com o governador Geraldo Alckmin.

A depuração das pesquisas de opinião, que foram analisadas ontem por um pequeno grupo de tucanos, mostraria que existe no momento um empate técnico entre Lula e Serra num hipotético segundo turno, com viés de vitória para Lula.

As chances de uma vitória de Serra são reais, desde que o partido caminhe unido. Na impossibilidade de um consenso em torno do nome de Serra, Alckmin venceria a disputa por uma espécie de W.O. (desistência do adversário), mas certamente não levaria integralmente a alma do partido. Poderia ser uma vitória de Pirro, que enfraqueceria sua postulação, pelo menos nos momentos iniciais da campanha. O PSDB, que tem uma campanha dificílima pela frente, tem um problema mais difícil ainda internamente.

Serra não tem ao seu alcance nenhuma arma política que neutralize o ímpeto do governador Alckmin, que está revelando uma disposição de disputar a eleição inversamente proporcional aos números que ostenta nas pesquisas de opinião, no pressuposto de que tem potencial de crescimento. Se a cúpula tucana não conseguir demovê-lo da decisão de se apresentar candidato seja de que maneira for, não haverá a tão temida prévia, mas não haverá também o tão necessário consenso.

A “Santíssima Trindade” tucana, como já estão sendo conhecidos os componentes do pequeno núcleo que vai escolher o candidato do PSDB para disputar com Lula a Presidência, andou nos últimos dias tratando das duas faces da mesma moeda: a objetiva, avaliando números e tendências de pesquisas eleitorais, e uma outra, totalmente subjetiva, que trata da alma do partido e, sobretudo, da dos candidatos. O jantar que o presidente do partido, Tasso Jereissati, o ex-presidente Fernando Henrique e o governador de Minas, Aécio Neves, tiveram com o prefeito José Serra em São Paulo, mais do que uma aparente indelicadeza com o governador Geraldo Alckmin, foi a conversa para saber qual o ânimo de Serra de encarar mais uma campanha eleitoral que se prenuncia dificílima.

Pode ter sido também o gesto de apoio que permitirá a Serra não aceitar a missão, sem parecer que o partido o preteriu. O fato de que seu grupo venceu a disputa pela liderança do PSDB na Câmara, com o deputado Jutahy Júnior, pode ser também tomado como um incentivo à sua posição. Todas as pesquisas informais realizadas, por institutos e por jornais, mostravam uma predominância da preferência por Alckmin nas bancadas da Câmara e do Senado. Na primeira oportunidade em que essa preferência poderia se manifestar concretamente, com a eleição do candidato apoiado por Alckmin, venceu o de Serra.

Mas mesmo assim, seus aliados alegam que ele precisará de mais gestos desse tipo para aceitar a tarefa. Na próxima terça-feira, a “Santíssima Trindade” estará reunida com o governador paulista para sondar sua alma, sua disposição ao consenso. A questão é que, embora apareça com menos força nas pesquisas de opinião, Alckmin tem conseguido expressivos apoios na chamada “sociedade civil”, a começar pelos empresários que o escolheram em uma enquete especializada.

Ontem ele esteve no Rio para uma reunião com economistas tucanos na Casa das Garças, um instituto de estudos econômicos que reúne nomes como Edmar Bacha, Armínio Fraga e Pedro Malan, e que está ouvindo os diversos candidatos com quem se afinam: Serra, Rigotto e Jobim já estiveram lá, mas é improvável que Garotinho venha a ser convidado. Embora todos sejam companheiros de longa data de Serra, o governador paulista vem se aproximando do chamado “grupo da PUC”, responsável pelo Plano Real, que discorda de algumas idéias de Serra, um respeitado economista que tem idéias próprias que não rejeitam completamente a intervenção do Estado na economia.

Sobre o câmbio flutuante, Serra teria dito que ele “pode flutuar acima de três reais”, o que é uma heresia tanto para a equipe econômica anterior quanto para a atual. Enquanto Alckmin se reunia com os economistas, a “Santíssima Trindade” e mais alguns líderes tucanos se reuniram para assistir a uma apresentação do analista Antonio Lavareda, do Indesp, baseada em pesquisas de intenção de votos. Prepara-se o terreno para uma decisão que deve ser anunciada na primeira semana de março, preferencialmente sem grandes traumas internos.

O fato é que, embora os líderes tucanos estejam convencidos de que a melhor escolha seria Serra, Alckmin continua otimista com relação a suas chances, e elas dependem muito mais da determinação até então insuspeitada que ele vem demonstrando. A disputa é elegante, e os tucanos sabem que a chance que têm de vencer é proporcional à capacidade que demonstrarem de unir forças políticas contrárias a Lula.

Para confirmar a velha máxima mineira de que política é como nuvem, muda sempre de formato, hoje quem mais se bate pela candidatura de José Serra é o PFL, que na eleição de 2002 rompeu a parceria com o PSDB exatamente para não apoiar Serra. Naquela ocasião, o governador Alckmin era o preferido das lideranças pefelistas, e hoje ele pode vir a ser responsável pela desagregação da aliança. O PFL, com um olho nos três anos de mandato da prefeitura, e outro no potencial de competitividade de Serra, ameaça lançar o prefeito Cesar Maia de candidato independente se o PSDB escolher Alckmin. (Continua amanhã).

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