Petistas e tucanos, todos
querendo esconder as suas
sujeiras, fazem a CPI patinar
e adiar depoimentos
Otávio Cabral
Margarida Neide/Ag. A Tarde/AE![]() | Clóvis Campos/O Tempo![]() |
| Duda (à esq.), cuja volta à CPI gera temor no PT, e Dimas Toledo, que chefiou Furnas: uma lista sem credibilidade | |
Desde sua criação para investigar o escândalo do mensalão há oito meses, a CPI dos Correios já atravessou bons e maus momentos, mas nunca pareceu tão emparedada como na semana passada. Na segunda-feira, três membros da CPI embarcaram para Nova York com o objetivo de pedir às autoridades americanas documentos sobre a vida bancária do marqueteiro Duda Mendonça. Receberam resposta positiva, mas em Brasília nem a convocação do publicitário para prestar um novo depoimento conseguiu ser votada – e por uma razão elementar. Duda conhece os segredos do caixa dois do PT, mas fez campanha para políticos de quase todos os outros partidos. Apenas entre os atuais senadores, pelo menos dez usaram os serviços do publicitário. Nessa turma, há parlamentares do PSDB, do PFL e do PMDB. Em conversas com políticos próximos, Duda tem dito que não tem condições emocionais de dar um novo depoimento à CPI e, se tiver mesmo de fazê-lo, estaria disposto a contar o que sabe sobre o caixa dois de todos os partidos. Usou a senha do desespero geral.
"O Duda é uma bomba ambulante. Se ele for convocado, explode e leva gente de todos os partidos com ele. Por isso, tenho certeza de que ele jamais será convocado novamente", afirma um dos mais influentes parlamentares da CPI dos Correios. Para evitar que a oposição tomasse coragem e arriscasse convocar Duda, os petistas acenaram com a ameaça de chamar o engenheiro Dimas Toledo, que dirigiu a estatal Furnas entre 1995 e 2005, englobando os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso. Dimas Toledo seria o autor da chamada "lista de Furnas", o mais novo fantasma da CPI. Com cinco páginas, a lista traz o nome de 156 políticos que teriam recebido, ao todo, 40 milhões de reais em doações ilegais na campanha de 2002. A relação, em papel timbrado de Furnas e supostamente coordenada por seu então diretor, traz ainda o nome das 101 empresas que teriam desembolsado dinheiro, entre estatais, instituições privadas, associações de classe e fundos de pensão. Como a lista original nunca apareceu, ninguém lhe deu muita importância – isso até a semana passada.
Sergio Dutti/AE![]() |
| Jefferson: diz ele que levou dinheiro de Furnas |
O deputado cassado Roberto Jefferson encarregou-se de emprestar pelo menos um fiapo de credibilidade à lista ao confirmar que recebeu 75.000 reais de Furnas para sua campanha em 2002. Na "lista de Furnas", de fato, Jefferson aparece como beneficiário de 75.000 reais. Além disso, Jefferson disse que Dimas Toledo realmente operava um esquema de caixa dois para partidos aliados do PSDB em 2002. Na quarta-feira passada, Dimas Toledo divulgou uma nota em que desmente categoricamente que tenha feito a lista, comandado caixa dois ou efetuado arrecadação clandestina de recursos, e nega inclusive que conhecesse Roberto Jefferson em 2002, razão pela qual seria impossível ter-lhe repassado 75.000 reais. A favor do desmentido de Dimas Toledo conta o fato de que a tal "lista de Furnas" tem um forte ar de armação: nela, tudo – os nomes, os valores, as referências – está no seu devido lugar, com um detalhismo tão caprichoso que, em vez de convencer, provoca a suspeita de que tenha sido feita sob encomenda.
Com a confirmação de Jefferson, porém, os petistas sentiram-se fortalecidos para usar a lista como meio de chantagem e, assim, evitar a convocação de Duda Mendonça. Conseguiram. O depoimento do publicitário, é preciso esclarecer, provoca calafrios em políticos de vários partidos, mas é particularmente temido pelos petistas. Isso porque nenhum outro partido teve um envolvimento institucional tão forte com o publicitário como o PT. Nas campanhas de políticos filiados a outras legendas, Duda costumava entender-se com o próprio candidato, e não com a cúpula de seu partido.
Com dois depoimentos aparentemente explosivos tanto para a oposição quanto para a situação, a CPI ficou emparedada e caiu na paralisia – embora ninguém, como convém, admita oficialmente a existência de um acordo para não investigar nada. "É preciso investigar tudo a fundo. Dimas Toledo deve ser convocado, assim como Duda Mendonça. Se for necessário, temos de prorrogar essa CPI. Essa lista é uma chantagem que não vai acuar a oposição", afirma o líder da minoria na Câmara, José Carlos Aleluia, do PFL baiano. "Os requerimentos não foram votados por falta de acordo e porque não haveria quórum. Mas na próxima semana colocaremos tudo em votação", promete o presidente da CPI, senador Delcídio Amaral, do PT de Mato Grosso do Sul. Em conversas reservadas, no entanto, são poucos os que acreditam que a CPI ainda possa fazer avanços significativos. Eis a opinião de um membro da CPI: "Eu tinha esperança na CPI, mas estou desiludido porque sei que as investigações não darão em nada. Os rabos presos dos dois lados amarraram a investigação".

