Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Míriam Leitão - Varejo em alta

Míriam Leitão - Varejo em alta


O Globo
7/2/2006

O varejo começou a melhorar. No ano passado, o valor do ticket médio dos supermercados caiu durante o segundo semestre. Janeiro foi o primeiro mês em que as vendas subiram. Quem conta é a terceira maior rede de supermercados, a Wal-Mart. A rede completou dez anos de Brasil, período no qual saiu de cinco lojas para 296. Este ano serão abertas mais 15 lojas.

O varejo brasileiro tem se tornado cada vez maior e mais competitivo, segundo Vicente Trius, presidente do Wal-Mart Brasil.

Uma medida dessa ampliação do mercado de consumo no Brasil é dada pelo gerente de relações com a imprensa, Luiz Herrisson:

— Quando o Wal-Mart chegou no Brasil, havia 17 hipermercados em São Paulo; hoje existem mais de 100.

O mercado de consumo brasileiro tem se ampliado apesar das crises que produzem oscilações negativas, como aconteceu no segundo semestre de 2005.

— É batata, relógio: a taxa de juros sobe e, seis meses depois, o consumo começa a diminuir, mas este ano nós estamos otimistas. Os juros estão caindo e o novo salário-mínimo vai aumentar muito as vendas de alimentos, principalmente no Nordeste — diz Vicente Trius.

No Nordeste, o grupo americano tem 116 lojas, mas está crescendo em todas as regiões. Quando desembarcou no Brasil, chegou com fama de vencedor e de competidor agressivo. Mas patinou durante alguns anos. No mercado, houve muitos rumores sobre prejuízos da empresa aqui.

Trius admite que eles cometeram o erro da “ingenuidade” e também que subestimaram a complexidade do mercado.

— Hoje somos uma empresa brasileira — afirma Wilson Newton de Mello Neto, vice-presidente de Assuntos Corporativos.

Há várias diferenças entre os dois mercados. No Brasil, metade dos produtos num super ou hipermercado é alimento; nos Estados Unidos, os alimentos chegam, no máximo, a 25%. Aqui o peso dos produtos regionais é maior.

Uma grande diferença é que tanto no mercado americano, quanto no Europeu os supermercados não precisam ter empacotador.

— Lá, desde os anos 70, o empacotador deixou de existir e hoje é uma coisa que o consumidor nem exige. Mas, no Brasil, não há dona-de-casa que diga que não quer empacotador no supermercado — comenta Vicente Trius.

O consumidor brasileiro tem suas manias e exigências. Foi a grande lição que a famosa rede de varejo americana, fundada pelo legendário Sam Walton, tirou do Brasil. Ela chegou de forma ostensiva, instalou-se em Osasco (SP) ao lado do supermercado Carrefour; naquela época, o primeiro do país. A localização deixava evidente que vinha para competir com o Carrefour e as grandes redes.

Hoje, eles são o terceiro maior. O Carrefour foi destronado do primeiro lugar pelo Pão de Açucar. Mas a conversa não é a de vencer o outro:

— Viemos brigar pela preferência do consumidor e para reduzir o custo de vida do consumidor brasileiro — diz Trius.

Eles estão convencidos de que tiveram parcela na estabilidade brasileira, por empurrar sempre os preços para baixo.

O Brasil também garantiu o crescimento da empresa. Em números de lojas, o país é o terceiro mercado internacional do Wal-Mart, perdendo para México e Japão. Até na China, onde eles entraram no mesmo ano em que vieram para o Brasil, há apenas 47 lojas.

Atuando no varejo, que sente imediatamente qualquer melhora de renda, Trius acha que seria fundamental para o país aumentar a renda do trabalhador, combatendo pobreza e desigualdade.

Acreditam que fazem a parte deles: têm boas causas e criam empregos. No ano passado, foram criados 3,5 mil empregos; este ano, podem ser cinco mil. Hoje a empresa tem 51 mil funcionários. No nível de gerência e de diretoria, 35% são mulheres e 10,5% se declaram negros.

— Percebemos que, para aumentar a diversidade, precisamos investir em qualificação de pessoal. No caso da etnia, temos que trabalhar para qualificar os funcionários e permitir seu avanço na empresa. Há uma diretora no Recursos Humanos que trabalha para aumentar a diversidade étnica e de gênero dentro da empresa — diz o presidente do grupo no Brasil.

O Wal-Mart assinou, junto com o Carrefour e o Pão de Açúcar, o pacto contra o trabalho escravo proposto pelo Ethos, pela OIT e pelo Ministério do Trabalho. E levou a sério.

— Enviamos e-mail, depois mandamos carta, para todos os fornecedores dizendo que exigiríamos de todos eles que avaliassem a cadeia produtiva para evitar qualquer suspeita de trabalho escravo. Todos os contratos com os 3.500 fornecedores têm uma cláusula dizendo que ele será suspenso se houver denúncia contra o fornecedor, ou seus fornecedores, de trabalho infantil ou de trabalho escravo. Inclusive, houve um caso de um fornecedor, frigorífico, sobre o qual circularam notícias de que teria comprado carne de produtores que usavam trabalho escravo. Nós suspendemos as compras do produto até que ele provou, inclusive com documento do Ministério do Trabalho, que a acusação não procedia — conta o vice-presidente de Assuntos Corporativos.

O Wal-Mart, dez anos depois, já sabe o que é global e o que é específico em cada mercado. Sabe que não basta transplantar uma loja dos Estados Unidos para o Brasil para vender da mesma forma. Precisou entender o mercado brasileiro. Mas certas coisas, como os valores de responsabilidade social, são verdades universais. Quem não respeitar esses valores, acabará sendo rejeitado pelo consumidor.

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