| Merval Pereira - Dona Luisinha |
| O Globo |
| 9/2/2006 |
O que vai estar mais em foco na campanha presidencial deste ano, a ética na política ou a capacidade de realização dos pretendentes ao cargo, especialmente a do presidente Lula? Esta será a primeira campanha eleitoral em que Lula e o PT estarão no governo, e Lula pleiteará mais quatro anos com base no que já realizou. Por isso quer tanto comparar os números de sua administração com os dos governos de Fernando Henrique, seu inimigo íntimo. A derrocada da legenda que ajudou a fundar, e que foi seu maior suporte eleitoral nas primeiras disputas, desta vez é a maior ameaça à vitória de Lula. Ele conseguiu se dissociar até certo ponto da corrupção petista, mas continua muito vulnerável, dependendo, sobretudo, do silêncio dos envolvidos nos escândalos. O caso do ex-chefe da Casa Civil José Dirceu é emblemático: desistiu de escrever um livro relatando sua experiência no governo porque não poderia contar tudo o que viveu sem comprometer o presidente. Se o sigilo bancário de seu amigo Paulo Okamoto for mesmo quebrado, é provável que fique à mostra mais uma lambança da administração petista, e desta vez atingindo gravemente o próprio presidente Lula. A comprovação de que uma dívida pessoal foi paga com dinheiro de esquema ilegal, e já com Lula empossado na Presidência, certamente trará à tona de novo a questão do impedimento do presidente. Se na ocasião em que o marqueteiro Duda Mendonça admitiu que recebeu pagamentos ilegais em uma conta de paraíso fiscal, a oposição não sentiu respaldo na opinião pública para bancar o impedimento, o que aconteceria agora, quando o presidente sobe nas pesquisas de opinião? Estudos acadêmicos sobre a responsabilidade dos governantes mostram que a desculpa costumeira de que não sabiam de nada do que acontecia, como faz Lula hoje, não é aceita pelos eleitores. Um estudo clássico sobre como os governantes lidam com acusações é o que Kathleen McGraw, hoje no Departamento de Ciência Política da Universidade de Ohio, escreveu em 1991. Por meio de testes, ela provou que alegações de desconhecimento são julgadas pela opinião pública como “desculpas esfarrapadas”. A situação brasileira parece confirmar a pesquisa, pois 82% dos pesquisados acham que existe corrupção no governo, e um crescente número de pessoas atribui ao presidente Lula culpa direta. A conseqüência desse sentimento é o aumento da taxa de rejeição, o que limita uma eventual recuperação de popularidade, e tende a se refletir no resultado eleitoral. O PSDB, mesmo diante da melhoria de posição do presidente Lula nas pesquisas de opinião, considera inevitável que a campanha eleitoral centrada nas acusações de corrupção — não apenas por parte dos tucanos, mas de todos os demais partidos, da direita à esquerda do espectro partidário — leve o presidente a uma situação inusitada: ter que se defender das acusações apoiado por um PT desmoralizado, e por partidos como o PTB e o PP, inevitavelmente ligados ao mensalão na percepção da opinião pública. Para compensar essa situação, que no mínimo dificultará, se não inviabilizar, a recuperação do apoio de uma ampla faixa da classe média nacional e do eleitorado dos grandes centros, a campanha de reeleição de Lula se baseará principalmente na melhoria de condições de vida dos mais pobres, onde já conta com uma aprovação espetacular de 60%. Essa guinada em busca dos votos populares, que sempre foi feita pelo PT na base da retórica e de promessas muitas vezes irrealizáveis, agora vem acompanhada da possibilidade de atos concretos de governo, o que dá a ela uma consistência e uma capacidade de irradiação que não tinha nas campanhas anteriores. É o caso das últimas medidas, desde o aumento real do salário-mínimo até o incentivo para construções populares. Medidas que têm claro sentido de beneficiar as classes mais pobres, onde hoje se concentram os votos de Lula, mas que também trarão conseqüências sérias à economia, como o aumento do déficit da Previdência, ou o incentivo à favelização. A equipe econômica está claramente “lavando as mãos” nesse ano eleitoral, aceitando o relaxamento fiscal em troca da possibilidade de mais quatro anos de governo, o que pode ser desastroso. O papel de “pai dos pobres” leva também ao retorno de uma situação que já parecia superada na política nacional, a de um candidato “dos pobres” se opondo ao candidato “dos ricos”, o que pode radicalizar a campanha. Com o pragmatismo que assumiu na condução da área econômica, o governo Lula parecia ter superado essa dicotomia que engessava a votação do PT e assustava faixas conservadoras do eleitorado. O PSDB já se convenceu de que até abril, quando entra em vigor o novo salário-mínimo, a popularidade do presidente Lula continuará melhorando, e por isso quer apressar sua escolha, para não deixá-lo correndo sozinho. Como não vai ser possível fazer uma campanha política contra o Bolsa Família ou a desoneração do material de construção, os tucanos se preparam para convencer o eleitorado de que os resultados bons são decorrentes da continuidade da política econômica, e poderiam ser melhores se o governo fosse mais eficiente nas políticas e nos gastos, entrando aí também a corrupção. Alckmin diz que tudo o que Lula gostaria de ter é um terceiro turno da eleição de 2002, já que ganhou os dois primeiros. Na análise das pesquisas qualitativas os tucanos tentam entender se o eleitorado quer esse terceiro turno para desfazer o erro que teria cometido ao levar Lula ao governo. Embalados pela minissérie da TV Globo, os tucanos brincam dizendo que o espírito de Dona Luisinha baixou no PSDB. Dona Luisinha teve que se desdobrar entre duas filhas para não apoiar nem Juscelino Kubitschek, marido de Sarah, nem Gabriel Passos, marido de Amélia, na disputa pelo governo de Minas Gerais em 1950. Os caciques tucanos fazem o mesmo, pois a vitória depende da união dos tucanos paulistas. |
Entrevista:O Estado inteligente
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