FOLHA
O gás boliviano rendeu muita manchete e muita intriga política no Brasil, bem antes de os cocaleiros tomarem o poder. A primeira tentativa de explorar o petróleo boliviano foi no governo JK.
Com o país marchando para um confronto com o FMI (Fundo Monetário Internacional), Roberto Campos foi chamado ao Rio por JK. Suas relações com Kubitschek não eram boas. Tempos antes se sentiu traído pelo presidente na questão do petróleo com a Bolívia.
Campos havia montado uma proposta de constituição de uma empresa privada brasileira, com a participação de capitais americanos. Visava beneficiar-se de incentivos fiscais criados pelo governo americano para estimular a prospecção de petróleo fora do país, preservando suas reservas internas por razões estratégicas.
Para melhor aproveitar os incentivos fiscais haveria a constituição de uma empresa que no Brasil teria maioria de capital brasileiro; na Bolívia, maioria de capital americano. Mas que, de qualquer modo, beneficiaria o Brasil, pois todo o petróleo descoberto seria para consumo brasileiro, permitindo economizar capitais e reservas cambiais, já que o capital americano viria em forma de contrato de risco -ou de "recursos aleatórios" conforme a terminologia por ele criada.
JK havia apoiado o acordo e Campos passou a implementá-lo. As notícias sobre o acordo acabaram deflagrando pesada campanha nacionalista, comandada à esquerda pelo Partido Comunista, à direita por Carlos Lacerda. Ambos defendiam a tese de que caberia à Petrobras comandar a operação. Havia assinado as chamadas "Notas Reversais", atualizando o "Tratado de Roboré", de 1938.
Havia duas linhas divergentes, uma comandada pelo coronel Alexínio Bittencourt, presidente do Conselho Nacional de Petróleo (CNP), favorável à exploração por grupos privados; outra, pelo coronel Janari Nunes, presidente da Petrobras, querendo que ela fosse a beneficiária do acordo.
Quando estourou a guerra política, inclusive com a criação de uma CPI, Campos se viu abandonado por JK. Em novembro de 1958 foi denunciado por supostamente forçar os candidatos brasileiros ao petróleo boliviano a receber financiamento da Pan-American Land Oil & Royal. Foi demitido do BNDE. Do mesmo modo que Lucas Lopes, ambos constataram que, quando entravam em jogo seus interesses, JK não tinha amigos.
Apesar de zangado com JK, ao ser consultado sobre o rompimento com o FMI, Campos recomendou que não tomasse nenhuma atitude precipitada e compareceu a uma reunião no Palácio do Catete acompanhado de Maurício Chagas Bicalho e Ernani do Amaral Peixoto, que acabara de deixar a embaixada brasileira em Washington.
Havia tempos Amaral pensava em indicar Walther Moreira Salles seu sucessor na embaixada. Em um bilhete datado de 26 de outubro de 1958, Ciro Freitas Valle, embaixador do Brasil da ONU e um dos mais reputados secretários gerais do Itamaraty, informava a Walther: "Ernani passou hoje por Nova York e me confirmou dever deixar a embaixada em janeiro. Falamos da substituição e não custaram minutos para estabelecermos que tinha de ser você". Mas o bilhete acabou esquecido nos arquivos e na falta de notícias de Amaral.
Ao chegar ao Palácio, Campos encontrou JK reunido com a ala de esquerda do BNDE. Estavam lá Cleantho de Paiva Leite, Celso Furtado e Evaldo Correia Lima. Não se sabe o que mais contrariou o grupo: se a presença de economistas nacionalistas ou o fato de serem economistas juniores do BNDE, atropelando economistas seniores.
O clima era de uma euforia louca. Juscelino estava entusiasmado com a possibilidade de o rompimento com o FMI transformar-se em bandeira popular de peso. Já estava planejando o grande comício de junho no Catete. Havia recebido Luiz Carlos Prestes, que comandava uma passeata curiosa. Entre as palavras de ordem, viam-se ao lado de um "abaixo Lucas Lopes", "morra Roberto Campos" - o único slogan da esquerda que não sofreu solução de continuidade por mais de duas décadas seguidas - e "abaixo o imperialismo americano", um insólito "abaixo o custo de vida".
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