FOLHA
A falta de espírito público de nossos políticos é um dos mais sérios problemas da sociedade brasileira atual. Cometeria injustiça se dissesse que todos os políticos do país carecem dele, mas não resta dúvida de que os fatos recentes indicam não ser essa uma virtude comum a nossos representantes, nos diferentes níveis do poder. A noção de que o exercício da função pública implica desapego dos interesses pessoais parece ter dado lugar ao seu oposto, isto é, ao despudor com que muitos atuam visando tirar vantagens dessa função.
É isso que nos têm mostrado as CPIs, para revolta da opinião pública. Naturalmente, não é fácil obter provas documentais e confissões cabais desses crimes, mas as provas testemunhais e o próprio comportamento de muitos dos inquiridos são suficientes para nos convencer de sua culpa. O "mensalão", o caixa dois, os contratos fajutos para beneficiar bancos, partidos e políticos são exemplos escandalosos dessa decadência moral, mas não são os únicos indícios da carência de espírito público; há outros que, se não expressam a mesma indigência ética, nem por isso deixam de ser nocivos à vida social. Refiro-me ao desrespeito à cidadania.
Esse desrespeito não deixa de ser uma forma de corrupção: ela consiste na usurpação do direito do cidadão em favor de interesses do político ou de seu partido. Trata-se de um lugar-comum, mas é preciso que se repita -para despertar a consciência das pessoas- que o servidor público, eleito ou nomeado, é pago por todos nós e nos deve, além do cumprimento de suas obrigações, satisfações de tudo o que faz. Não pode ser vista como impertinência a crítica ao funcionamento deste ou daquele setor do governo, mesmo quando injusta. Cabe àquele que exerce o cargo público demonstrar, sem arrogância, que a crítica é infundada, se o for.
Mas não é isso que se vê. Pelo contrário, os dirigentes de órgãos públicos, mesmo quando a crítica é procedente, reagem quase sempre de modo a desqualificar o crítico. E por que o fazem? Basicamente porque perderam a noção de que o poder que exercem não lhes pertence e, sim, ao povo. Mas poucos são os que trazem viva em si esta compreensão. A maioria dos políticos, mesmo aqueles que são honestos, tende a se imbuir de uma auto-suficiência despropositada. Sabemos que não é fácil lidar com o deslumbramento do poder, mas é preciso tomar cuidado com os perigos que daí decorrem.
Vou dar como exemplo o que acontece com freqüência na minha cidade, o Rio de Janeiro. O prefeito César Maia, que tem fama de bom administrador, nem sempre parece se dar conta de que a cidade pertence a seus moradores e não a seu governante. Muita gente deve ainda se lembrar de quando o prefeito entendeu de fechar uma das pistas da lagoa Rodrigo de Freitas aos domingos, apesar dos protestos de moradores e freqüentadores do lugar. Foi preciso um engarrafamento gigante que parou todo o tráfego dos bairros adjacentes para que ele voltasse atrás -mesmo assim, resmungando que tinha razão.
Mais recentemente houve problema semelhante criado por iniciativa sua na praia de Botafogo, por onde passa a maioria do tráfego de ligação com a zona sul da cidade. O prefeito cedia a enseada para a realização de shows musicais, com as conseqüências desastrosas de sempre. Certa noite ficou todo mundo preso ali no engarrafamento, durante horas. Uma ambulância acionava inutilmente a sirene. E se estivesse nela um paciente enfartado? Morreria? No dia seguinte, os jornais noticiavam: um grupo de pivetes assaltara muitos daqueles carros presos no engarrafamento. Só aí o prefeito desistiu de autorizar os shows na praia de Botafogo e os transferiu para o aterro do Flamengo, um pouco adiante.
Faz umas três semanas, o pessoal que vinha de carro do centro da cidade num anoitecer de domingo foi surpreendido de novo por um engarrafamento. Ninguém sabia do que se tratava. Seria uma batida policial? Um tiroteio? Um acidente? Aos poucos, à medida que o tráfego foi avançando, começou-se a perceber que havia muitos jovens atravessando a pista e carros que estacionavam em cima dos canteiros. Devia ser algum show -e era. Mas só pelos jornais se soube o que ocorrera: quase 200 mil pessoas se dirigiram àquele trecho do aterro para um show que, com suas gigantescas caixas de som, fez estremecer os edifícios mais próximos. Houve moradores que saíram em pânico de seus prédios achando que iam desabar. Enquanto isso, os pivetes arrombavam os carros e rendiam motoristas, tomando-lhes dinheiro e celulares. Autoridades da PM afirmaram que o aterro é impróprio para aquele tipo de espetáculo. Mesmo assim, o prefeito marcou para duas semanas depois outro show no mesmo local, que resultou em tumulto, agressões e prisões. Não contente, despendeu R$ 1,6 milhão dos cofres públicos para custear uma nova ameaça: os Rolling Stones na praia de Copacabana.
Nada contra shows. Mas há uma pergunta difícil de calar: é justo permitir a realização, em bairros residenciais, de eventos que perturbem o sossego público e atentem contra a segurança da população? Das duas, uma: ou o prefeito está querendo gozar da nossa cara ou convenceu-se realmente de que é, não o César Maia, mas Júlio César, o romano.
Entrevista:O Estado inteligente
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