Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Jânio de Freitas - Proteção plena

Jânio de Freitas - Proteção plena


Folha de S. Paulo
9/2/2006

A carta mandada pelo ministro Antonio Palocci à CPI dos Bingos vale como um atestado definitivo de que o único componente importante, na vida brasileira, é a conveniência de um setor social, para o qual, por sua vez, nada importa no país além de pôr os governos a seu serviço. A carta é a terceira versão do ministro da Fazenda para o uso que fez, com finalidade não governamental, de um jato particular envolvido em outras ações suspeitas de pessoas identificadas com Palocci.
A inflação de inverdades de Palocci é fruto, mais que do problema para ele representado por certas verdades factuais, da conduta indigna de senadores e deputados do PFL e do PSDB que o acobertam nos seus depoimentos. Inclusive com a pronta reciprocidade ministerial, como se fosse mesmo pagamento, de favores já comprovados.
O uso ocasional de um avião privado não significa, por si só, comprometimento de quem quer que seja. A hipocrisia dominante exagera em exigências assim para melhor fazer, à sombra dessas aparências, as verdadeiras ordinarices. No caso de Palocci, porém, as rastros que vêm da sua prefeitura em Ribeirão Preto até o seu gabinete na Fazenda dão, ao uso do jatinho, um sentido especial.
A primeira versão de uma tal viagem de Brasília a Ribeirão Preto incluía o uso de avião da FAB. Não tardou a se comprovar a inverdade. Correta era a afirmação, feita à CPI por um dos espertos da chamada "república de Ribeirão Preto", de que o avião é de um empresário citado, também ele, no emaranhado dos negócios paloccianamente "republicanos". Confrontado com esse desmentido, no depoimento que protelou por dois meses, Palocci enrolou uma resposta na qual encaixou a afirmação de que "o PT (...) alugou um avião" para sua viagem, por se tratar de finalidade partidária.
O método de jogar o problema em cima de outro tem eficiência comprovada, mas não permanente. O dono do avião, José Roberto Colnaghi, fez o desmentido formal, por escrito, do aluguel. Emprestou o avião a pedido de Ralf Barquete, falecido assessor de Palocci na Fazenda, e do ex-assessor Vladimir Poleto em Ribeirão Preto.
Foi a essa altura que ontem entrou na CPI a carta de Palocci: sai o aluguel, mas não o PT. Os indicados no pedido citado por Colnaghi não eram, porém, dirigentes do PT, nem mesmo regionais. Os dois são identificáveis por suas ligações com Palocci. Nesse caso, que motivos passados ou presentes levariam um empresário, ligado à "república" palocciana, a mandar seu jato de Ribeirão Preto a Brasília para pegar o ministro Palocci, levá-lo a Ribeirão Preto, depois retorná-lo a Brasília e voar de volta a Ribeirão, tudo no mesmo dia?
A José Roberto Colnaghi não se atribui o conhecimento da carga de seu avião, no vôo em que teria transportado dinheiro ilegal para a campanha do PT ou de Lula em 2002. Mas nesse vôo do avião estava, confessadamente, o mesmo Vladimir Poleto citado no pedido do avião para Palocci e, segundo documentos da CPI, nas relações de telefonemas para o gabinete do ministro da Fazenda.
Nos seus depoimentos "a convite", Antonio Palocci não explicou o custo seis a oito vezes superior da limpeza urbana em sua prefeitura paulista; não explicou o preço de certas compras para a merenda lá, nem a exigência de determinada marca. São questões sugestivas, mas de maior interesse para Ribeirão Preto. Já a sua dificuldade de enfrentar as questões de um vôo quando ministro, com envolvimento de pessoas e circunstâncias carregadas de suspeitas graves, é assunto que não dispensaria esclarecimento pleno.
Não é o caso, no entanto. O importante no Brasil é proteger, seja do que for, o ministro que multiplica os privilégios financeiros da camada social que é o único componente importante na vida do país. Fernando Henrique e Lula que o digam. Ou os senadores e deputados que acobertam o inexplicado Antonio Palocci.

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