Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Esquerda, volver! João Mellão Neto




O Estado de S. Paulo
3/2/2006

"Fanático é aquele sujeito chato que não quer mudar de idéia e não sabe mudar de assunto."

Em 1962, o americano Thomas Kuhn publicou um livro que revolucionaria para sempre os dogmas, certezas e convicções da comunidade científica.
Convidado pela Universidade Harvard para elaborar um curso de ciências para leigos, Kuhn, um físico, debruçou-se sobre livros do passado e descobriu que, mesmo nas áreas das ciências exatas, tudo o que era tido como verdade inconteste numa determinada época deixava de sê-lo na época seguinte. Em sua obra A estrutura das revoluções científicas, ele pôs por terra a arrogância, o pedantismo e a pseudo-infalibilidade de todos os "doutores" da elite acadêmica.
Não existem verdades absolutas, quer nas ciências exatas, quer nas ciências humanas, defendeu Kuhn. Nem sequer se pode falar em objetividade. O progresso científico não se dá de modo cumulativo - um cientista aperfeiçoando os postulados do cientista anterior -, mas sim por meio de saltos qualitativos, verdadeiras revoluções, no transcorrer das quais todos os axiomas estabelecidos são abandonados e se adota uma nova forma de ver as coisas.
Kuhn, como era de prever, provocou um verdadeiro tsunami na comunidade universitária. "Com que autoridade vem esse sujeitinho contestar a racionalidade inerente ao método científico?", reagiu a maioria.
Mas ele sabia do que estava falando. E provava as suas assertivas com argumentos históricos. Existem paradigmas, afirmava. Um paradigma, segundo ele, são todos os postulados que os membros de uma comunidade científica compartilham e adotam de modo inconteste.
Uma vez estabelecido um paradigma, todos os estudiosos e pesquisadores da área trabalham de acordo com ele. Quando surge um fenômeno que não pode ser explicado ou comprovado pelo paradigma, a tendência é culpar o cientista pela sua inépcia, e não o postulado, que é tido como incontestável.
Ocorre que os problemas vão se acumulando. Kuhn os denominava de "anomalias".
Quando as anomalias surgem em profusão, aparecem alguns atrevidos que ousam questionar a veracidade do paradigma e propor a criação de um outro.
Como reage a comunidade científica e acadêmica? Adere à nova "verdade" com entusiasmo? Muito ao contrário. Nós acreditamos que os cientistas, em especial os cientistas sociais, sejam arejados e abertos a novas tendências. Não são, alertava Kuhn. São profundamente reacionários e conservadores. Vão se fechar em concha e defender as suas antigas teses com enorme tenacidade.
De início tentarão ridicularizar os defensores do novo paradigma. Não conseguindo, aceitarão, a contragosto, debater alguns aspectos das novas idéias. Poucos são aqueles que se rendem por inteiro. O novo paradigma só se estabelece de vez à medida que uma nova geração de cientistas se forma.
Explanar as idéias de Thomas Kuhn - hoje universalmente reconhecidas - vem bem a calhar, uma vez que nós percebemos que, no campo das ciências sociais, o pensamento acadêmico está cada vez mais defasado da nova realidade.
No ano passado, meus dois filhos universitários vieram a mim para discutir sobre as supostas verdades e maravilhas do pensamento marxista.
Aprenderam nas suas escolas que o socialismo é um regime perfeito. Um deles chegou a afirmar que o conceito de "maisvalia" - o tanto que os capitalistas "exploram" dos proletários - era incontestável. E o outro me afirmou que, segundo aprendeu, a "luta de classes" era a base da evolução histórica.
Ora, tenham a santa paciência! Já faz mais de 16 anos que o Muro de Berlim caiu e é isso que os professores ainda ensinam nas universidades?! A União Soviética não existe mais, o comunismo chinês adotou o capitalismo selvagem, e ainda existe gente, na comunidade acadêmica, que prega a obsoleta metodologia marxista? Vejam bem, não se trata de um punhado de jovens alienados. Os marxistas a que me refiro são os professores. Gente culta, ilustrada, muitos com diploma de doutorado. Do alto de suas cátedras pontificam desassombradamente sobre as excelências do socialismo.
Kuhn, infelizmente, já morreu. Se viesse a conhecer a nossa elite acadêmica - pelo menos a parcela dita progressista -, ele veria o quão renitentes e conservadores podem ser os "cientistas" sociais.
Foi essa "nata universitária" que apoiou entusiasticamente Lula para presidente, mesmo sabendo-o notoriamente despreparado. Ela o fez tãosomente porque Lula encarnava o mito do proletário redentor. Mesmo agora, quando a decantada "superioridade moral"


´Cientistas´ sociais vivem em função de uma única causa, que já morreu


do Partido dos Trabalhadores está em xeque, esses doutos acadêmicos preferem se calar a reconhecer seu engano. São esses cultos catedráticos os mesmos que se dizem intransigentes democratas e não se vexam em aplaudir submissamente e lamber as botas de caudilhos primitivos como Fidel Castro e Hugo Chávez. Defendem o estado de direito, mas incensam o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra e o senhor Stédile, que sistematicamente o transgridem. Pregam o terceiro-mundismo da década de 60, o nacionalismo-desenvolvimentista dos anos 50 e, ainda assim, se julgam na vanguarda do pensamento social.
Não bastasse isso, arvoram-se no direito de patrulhar ideologicamente, de forma arrogante, os jovens professores que ousam pensar de forma diferente.
O paradigma mudou, e eles não se deram conta disso. Positivamente, não serão estes carcomidos senhores os arautos dos novos tempos. Pobres intelectuais, indigentes culturais, eles cresceram, se formaram e viveram em função de uma única causa. E a causa, infelizmente, morreu antes do que eles.


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