| Celso Ming - Injeção de vitamina |
| O Estado de S. Paulo |
| 9/2/2006 |
Os incentivos ao setor habitacional que o presidente Lula anunciou terça-feira com a pompa possível tendem a estimular mais o setor de materiais do que o construtor de moradias. Embora não tenha sido contemplado com isenção de impostos, o maior beneficiário foi o setor do cimento, que vinha amargando brutal capacidade ociosa e agora tem razões para apostar em alguma melhora. Para as construtoras, as mudanças, se houver, serão marginais. E, para o governo, que pretendia marcar um golaço eleitoral, os resultados talvez não venham a ser tão expressivos como planejado. Vamos aos pontos. Nos últimos quatro anos, a indústria do cimento portland investiu em aumento da capacidade de produção, hoje de aproximadamente 62 milhões de toneladas anuais. Foi um erro de cálculo porque o setor havia apostado no aumento do consumo, que não se confirmou. A ociosidade da indústria está calculada hoje em 45%. Foi o que obrigou os produtores a venderem a qualquer preço. Pelos levantamentos do Secovi-SP (Sindicato da Habitação), nos três anos terminados em janeiro de 2006, os preços do cimento caíram 35,7%. Essa foi a principal razão pela qual o PT tem podido alardear em São Paulo que "o saco de cimento, que estava a R$ 21 no tempo do FHC, agora pode ser encontrado a R$ 11". Observe-se que isso não tem a ver com a política de redução de preços (ou de combate à inflação) do governo Lula; tem a ver só com as leis de mercado, que achatam os preços quando a oferta é maior do que a procura. A indústria do cimento há muito vinha lutando por uma dose de vitaminas federais. O produto isentado de impostos foi o vergalhão de aço. Como ninguém consegue usar aço na construção se não despejar também cimento, o setor pode ter conseguido o que queria. Mas ninguém se iluda. Parece improvável que a redução do IPI de um punhado de materiais seja capaz de derrubar significativamente os preços. É mais racional apostar no contrário: se tudo der certo, a procura aumentará e, com ela, os preços. De mais a mais, ninguém vai mesmo controlar o que se passa nas casas de materiais de construção da periferia, onde o povão, objetivo das medidas, se abastece. Por isso, a colheita eleitoral do governo não está garantida. As construtoras não se entusiasmaram. Queriam redução do Imposto de Renda nos resultados do setor, mas tomaram o veto implacável do secretário da Receita Federal, Jorge Rachid, o pão-duro de sempre. E estão acusando o pacote do governo de favorecer a "favelização" do País, na medida em que o consumidor formiga quer mais é concretar sua laje no fim de semana ou completar o puxadinho planejado. Nessas condições, não tem interesse especial em observar os padrões ensinados nas escolas de Arquitetura e Urbanismo. No setor da construção habitacional, os problemas continuam, apesar da grande disponibilidade de recursos. Neste ano, só a Caixa Econômica Federal tem para crédito habitacional e saneamento disponibilidade de R$ 10,5 bilhões. Os bancos dispõem de outros R$ 6,7 bilhões, para os quais têm de achar tomador, sob pena de perderem a remuneração desses recursos. Embora o financiamento habitacional opere com juros favorecidos, o alto custo do crédito ainda é problema. Como este cresce mais rápido do que o salário, logo chega o tempo em que a prestação mensal se descola da renda familiar. É uma questão técnica que não se resolve com canetadas presidenciais. Quando os juros caírem para níveis civilizados, a decolagem do setor imobiliário virá naturalmente, sem necessidade de pacotes especiais, como acontece hoje nos Estados Unidos. |
Entrevista:O Estado inteligente
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