Encostados na parede, espremidos e paralisados pelos intensos jatos de lama contra eles esguichados - substância amalgamada por eles próprios nos recônditos das ambições desmedidas e da falta de escrúpulos desenvolvidas em duas décadas e meia de militância pseudo-ideológica -, eis que, de repente, eles vão escapando do cerco moral e do que lhes restava de vergonha. E, com a desfaçatez dos que aprenderam a afanar até a arte alheia, se permitem apropriar-se do belo verso do samba e adotar o lema "Levanta, sacode a poeira (no caso, a lama) e dá a volta por cima". Só que, no caso, essa volta não é por cima porque não significa uma honesta absorção da dor, um sincero arrependimento, um esforço de correção para um límpido recomeço. Ao contrário, trata-se de uma "volta" bem por baixo, pelas regiões subterrâneas do engodo, do ludibrio, dos falsos números e sobretudo das continuadamente tenebrosas transações eleitorais, com o objetivo exclusivo de continuar mantendo para usufruto próprio a máquina do poder.
Eles investem no cansaço do público. Cansaço das informações sobre tantas e tamanhas bandalheiras, cansaço de assistir ao vivo e em cores um desfilar interminável de degradação público-política, cansaço do cinismo de depoentes, tão agressivo à inteligência dos cidadãos prestantes, cansaço dos nauseabundos acordos governo-oposição, tão bem preparados pelos pizzaiolos da impunidade, propagandistas maiores da "farinha do mesmo saco", cansaço das abjetas liminares que submetem a nobre função judicante ao despudorado servilismo político-eleitoral, cansaço das argumentações mais estapafúrdias, das justificativas mais desconexas, das ilogicidades mais insultuosas, tendo em vista negar o que é, esconder o que é notório, desdizer o que é cristalino. Eles investem na ignorância da população, acostumada às mudanças de enredo das novelas, quando tudo fica mais divertido e atraente se os bandidos viram mocinhos e invertem o resultado do jogo da história. E desse jeito eles criam novas esperanças e de novo enganam o povo.
Eles investem no boicote de informações de instituições comprometidas e no corporativismo interno de departamentos governamentais e/ou de empresas estatais, que deram abrigo às mais escabrosas maracutaias perpetradas com o dinheiro suado dos contribuintes. Eles apostam decisivamente na destruição de valores, no desprezo pelo esforço do aprendizado, no não reconhecimento da experiência, na desvalorização sistemática do conhecimento, na arrogância da ignorância, na desmoralização da escolha dos melhores de acordo com o mérito pessoal de cada um. Eles acham, no fundo, que podem obter o máximo com o meio-preparo, o meio-conhecimento, o meio-crescimento econômico, o meio-raciocínio e, quando muito, a meia-honestidade. Eles apostam na meia-boca, no tapa-buraco, na gambiarra, no discurso do "como se fosse", no aplauso comprado dos arregimentados.
Eles apostam na divisão dos empresários: de um lado, aqueles que desejam escolher o mais flexível, o mais cordato à submissão de interesses, o mais simpático pela própria leveza da indefinição - e que por isso atrai mais os que não pretendem modificar nem um pouco uma situação que não lhes é inteiramente desfavorável, mesmo que os faça permanecer na perspectiva da previsível mediocridade; e, de outro lado, aqueles que pretendem escolher quem tenha idéias próprias, de estadista, quem já demonstrou possuir as melhores condições de aplicar um projeto consistente de desenvolvimento para o País, a partir da mais ampla articulação política, pelo que não teme enfrentar grupos de interesse internos ou externos, apenas concentrados em seus resultados financeiros imediatos - e não no patrimônio (material, cultural e moral) das futuras gerações.
Eles apostam na fingida (e mal-intencionada) "coerência", que levaria, por exemplo, a assembléia de uma corporação a alijar seu mais competente candidato a dirigente com o seguinte argumento: "Você não pode presidir a companhia, embora seja o melhor, porque está sendo um ótimo chefe de departamento e, quando foi nomeado, prometeu nele trabalhar e não sair. Portanto sua nomeação foi uma cláusula pétrea, imutável - mesmo que a companhia perca muito ao não vir a contar com seu comando..."
Eles investem, antes de mais nada, no esquecimento e na impunidade. É como se se sentissem no direito de reivindicar uma generosa anistia por tudo o que roubaram da sociedade, pelos prejuízos milionários que causaram a instituições financeiras oficiais, a fundos de pensão destinados a assegurar um mínimo de tranqüilidade a trabalhadores que se esforçaram a vida inteira para dar um padrão de vida digno à própria família, e pelo desvio de recursos que deveriam servir para minorar a angústia de tantas populações carentes de educação, de saúde, de trabalho digno, de saneamento básico, de moradia, de transportes, de qualidade de vida, de justo lazer, de cultura e sobretudo de esperança em melhorar a perspectiva de qualidade de vida de seus próprios descendentes.
E por que e para que eles roubaram tanto? Não foi para nenhum projeto "ideológico" maior - como muitos tentam justificar a roubalheira pública que perpetraram -, não foi para nenhuma utopia político-doutrinária, para nenhum "paraíso" social engendrado pelas arrebatadas teorias do século 19, mas sim para simplesmente usufruir. Usufruir bens menores, confortos medíocres, status consumista sem maiores imaginações. Eles roubaram, enfim, para ser medíocres. Agarrem, que eles estão escapando.