2006 é ano de eleição e de Copa do Mundo. Se a crise política não tivesse se agravado tanto nesta semana, seria o primeiro ano eleitoral de rotina, sem os cenários apocalípticos das últimas quatro eleições.
O quadro contém o essencial da economia nos anos eleitorais da adolescente democracia brasileira, além de projeções de mercado para 2006. Com exceção de 1994, os demais anos foram marcados pela iminência de crise.
1989 foi o ano da hiperinflação. Collor venceu Lula por uma margem de seis pontos percentuais no segundo turno, em meio a uma inflação de 48% em novembro de 1989 e que atingiu 82% em março de 1990. Collor havia prometido deixar a direita e a esquerda perplexas. Cumpriu a promessa, promovendo o confisco que durante a campanha atribuía a Lula.
1994 foi o ano do Real. O sucesso do plano virou o jogo. 1994 registrou crescimento expressivo do PIB (5,8%). FHC venceu Lula no primeiro turno com margem de 27 pontos, e Enéas teve mais votos que Brizola (7,4% contra 3,2%).
1998 foi o ano da crise cambial. As crises da Ásia em 1997, da Rússia em 1998 e a sobrevalorização do real causaram grave desequilíbrio nas contas externas. Os déficits comercial e de transações correntes chegaram, respectivamente, a US$ 6,6 bilhões e a US$ 33 bilhões em 1998. FHC venceu a chapa Lula/Brizola no primeiro turno com margem de 21 pontos. Mas foi obrigado a mudar o regime cambial 15 dias após a posse.
2002 foi o ano do medo. Medo compreensível diante de propostas de ruptura de alguns candidatos. O prêmio de risco chegou ao pico de 2.443 pontos em setembro de 2002, registrando média anual de 1.361 pontos, superior à da Turquia e da Colômbia. Temia-se que se Lula vencesse, aplicaria o programa que o PT havia defendido durante duas décadas. Assim como Collor, Lula surpreendeu a direita e a esquerda. Manteve a política macroeconômica que havia criticado em suas campanhas anteriores e aplicou uma overdose de taxa de juros.
E 2006? Os pessimistas vão dizer que o Brasil vai perder a Copa do Mundo, especialmente depois do primeiro tempo contra a Argentina. Mas o cenário internacional continua razoável, apesar dos desequilíbrios dos EUA, das dificuldades políticas da União Européia e da instabilidade das democracias na América Latina.
No entanto a preocupação reside no plano interno. Antes do agravamento da crise política, 2006 parecia tranqüilo. Conforme o quadro acima, as projeções continuam favoráveis se comparadas às de outros anos eleitorais. Espera-se inflação inferior à metade da de 2002; o crescimento do PIB está sendo revisado para baixo, mas não estará distante da média da última década; a balança comercial ainda terá grande superávit; e, embora volátil, o prêmio de risco estará em apenas um terço da média de 2002.
Tais projeções estão sujeitas a alterações em pelo menos dois cenários improváveis, mas não descartáveis. O primeiro, o surgimento de candidatura populista com chance de vitória diante da crescente frustração com o governo Lula. O segundo, a possibilidade de uma guinada populista na própria política econômica.
O estado das artes da economia política e da sismologia não permitem prever um tsunami com muita antecedência. Mas não há tédio em final de Copa do Mundo. Se acabar zero a zero, como em 1994, prepare-se para a disputa em pênaltis.
Gesner Oliveira, 49, é doutor em economia pela Universidade da Califórnia (Berkeley), professor da FGV-Eaesp, presidente do Instituto Tendências de Direito e Economia e ex-presidente do Cade.
Internet: www.gesneroliveira.com.br
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