Lula inventou o discurso de porta de fábrica sem fábrica. Todos os dias sai por aí, a imaginar portas de fábrica diante dos mais diferentes ouvintes. Os discursos, na essência, dão as mesmas marteladas nos mesmos pregos. A idéia-chave, ainda que ocasionalmente não seja explicitada, só varia a direção, o que não lhe muda o sentido. Aos que continua fazendo promessas: "Deus me deu a oportunidade", "Não vou perder a oportunidade", "Agora vocês vão ter a oportunidade de". Ou, na linha de ataque: "Todos os presidentes anteriores tiveram a oportunidade e não aproveitaram de", "Os ricos deste país nunca deram oportunidade ao povo", "Os países ricos não deram oportunidade à América Latina".
As oportunidades mais importantes, porém, não entram nos discursos. São as oportunidades já perdidas pelo governo Lula, as que está perdendo e as que prenunciam mais perdas. A maioria delas, de tão evidente, dispensa exemplos. Outras são mais sutis, até por não serem tratadas como oportunidades, mas como um troço desses que há pendurados nas administrações. O Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social foi uma grande oportunidade, no entanto jogada na vala comum dos troços. E nessa inutilidade custosa está a sua única e lastimável utilidade: mostra bem a distância entre o jogo de cena e o propósito real do círculo dominante no governo Lula.
À maneira da experiência espanhola, que ergueu o país a partir de um esquema de entendimentos progressivos entre os setores sociais/econômicos, o Conselho seria um conjunto de representantes que discutiriam e definiriam as linhas mestras da ação governamental, deduzidas como um consenso dos diferentes segmentos do país. Isso é democracia. Isso é o modo que permitiria ao governo Lula realizar as reformas inovadoras sem se chocar com o conservadorismo brucutu.
A formação do Conselho insinuou, desde logo, o que o governo pretendia. Ou melhor, não pretendia. Mais gente nomeada do que são os senadores. E, para prevenir imprevistos, mais 12 ministros. No total, 102. Quantidade ótima para dificultar os necessários consensos preliminares. Não deu outra, logo na discussão dos quesitos básicos da "reforma" da Previdência, no projeto do governo. De lá para cá, a maioria do Conselho recrimina os juros altos, o governo aumenta os juros seguidamente. A maioria do Conselho condena a carga de impostos, o governo torna maior a carga de impostos. O Conselho mantém como meta necessária, fixada desde seu início, o crescimento nacional de pelo menos 7% ao ano, e o governo fechou 2003 com indecente zero, em 2004 foi empurrado pela economia mundial para 5%, e já prevê queda neste ano.
Mas foi injusta a afirmação, lá atrás, de que o Conselho só tem a utilidade de mostrar que o governo não quer consenso algum, quer impor os termos que aceitou do FMI e do governo Bush. O Conselho tem mais uma utilidade: foi transformado em palanque para mais discursos de Lula e, não bastando, de seus ministros. O mecanismo é assim: conselheiros bem-intencionados e estudiosos (existem, sim, e não são tão poucos) apresentam seus trabalhos e opiniões, e depois entram ministros e Lula para dizer exatamente o oposto, ou seja, o que convém às suas políticas contrárias ao consenso. Em seguida, jornais, TV e rádios projetam o que disseram Lula e os ministros.
E que tipo de coisa dizem os ministros e Lula, contra o que ouviram? Em nome dos ministros, José Dirceu é um exemplo bem autorizado: afirmou que o governo está cumprindo a promessa de reduzir a carga de impostos, e nenhum dos bem-educados deu uma gargalhada. Mas a estrela é Lula, vamos a ele (ali não é discurso de promessa, é de ataque):
"Nós estamos com um desvio, que é o seguinte: toda vez que a gente fala em área social, fala-se em gastos, e quando a gente fala em outros setores, fala-se em investimento. É preciso ter claro que quando a gente dá Bolsa-Família ou Bolsa-Escola, isso não é gasto, é investimento, porque essa pessoa bem nutrida vai trazer um saldo produtivo para todos nós, vai se transformar em consumidor, em trabalhador. É um erro sociológico".
E o dele é um erro demagógico. Engana-se o leitor se ainda pensa que Lula, o operário sem estudo, não sabe que pessoas se tornam bem nutridas, consumidoras e trabalhadoras se houver política de investimento para geração de empregos, salários melhores e distribuição de renda. Ele sabe o que é necessário, e o disse durante mais de 20 anos. Não era então que mentia.
Mais Lula? Claro, afinal não faltou a oportunidade. Assim foi sua resposta, no discurso, à exposição de competente conselheira sobre a necessidade de certas medidas a que o governo se recusa: "Eu não estou disposto a contribuir para jogar outra oportunidade fora" [referindo-se aos presidentes anteriores].
Nem foi uma resposta. Foi acusação. Os conselheiros, além de reduzidos a palanque, querem induzir Lula a providências bloqueadoras da "oportunidade que Deus pôs" em suas mãos.
Oportunidade, inoportuno, oportunista -ainda bem, aqui termina. Não é como os discursos de porta de fábrica sem fábrica.
Entrevista:O Estado inteligente
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