Mesmo assim, alguns analistas não afastavam a hipótese de um socorro do Tesouro ou do Fed, ainda neste fim de semana, às duas empresas hipotecárias, que o governo patrocina, Fannie Mae e Freddie Mac. Foram elas, sem previsão de liquidez, que abalaram o mercado nos últimos dias. Suas ações caíram 25%, a primeira, e 9,4%, a segunda; acumulam perda de 80% em 12 meses, a maior em 16 anos.
Essas duas empresas têm grande peso no mercado. Foram criadas pelo Congresso para oferecer e garantir financiamento de imóveis sob a forma de hipotecas. Elas foram duramente atingidas pela crise e contaminaram outras, algumas de grande porte, que possuem seus papéis em carteira.
Elas detêm ou garantem operações no valor de US$ 5,2 trilhões, quase a metade do total de hipotecas do mercado; mesmo patrocinadas pelo governo, têm autonomia administrativa, que vem sendo muito criticada até no governo. O agravamento da situação teria grande repercussão no mercado; isso já era sentido, com forte queda das ações de financeiras detentoras de seus papéis.
Se a Freddie e a Fannie quebrarem, haverá um efeito dominó parecido com o que ocorreria com o Bear Stearns, se não tivesse sido socorrido pelo Fed.
SINAIS DE SOCORRO ACALMAM
Tudo se acalmou um pouco no meio da tarde, devido, principalmente, à notícia de que Ben Bernanke, presidente do Fed, havia informado o executivo da Freddie, Richard Styron, de que poderia ter acesso ao redesconto do banco para se financiar. Pesavam também as sucessivas declarações de Bernanke e do secretario do Tesouro, Henry Paulson, de que estavam em permanente dialogo com as duas empresas.
Ante os rumores de que o governo poderia assumir o controle das duas gigantes, Paulson distribui nota afirmando que "o primeiro foco é apoiá-las da forma como estão." Com isso, pretendeu afastar o rumor de que o Estado iria absorvê-las.
No mercado, porém, argumentava-se que ambas precisarão de forte afluxo de recursos num prazo muito curto. Isso poderia ser feito pela compra de um grande número de suas ações, pelo governo, ou por um socorro direto em dinheiro para que honrassem os compromissos. Na sexta-feira, as ações da Freddie caíram 36% e as da Fannie, 29%.
O senador democrata Charles Schumer, refletindo a opinião do Congresso, afirmou que elas eram importantes demais para deixar que quebrem. "O Congresso está pronto para dar apoio suplementar. Não estamos nessa fase e desejo e penso que isso não será preciso."
Mesmo com o governo ainda afirmando que não garantia seus débitos, era dado como certo que injetará recursos para socorrê-las, pois só isso evitaria a derrocada do mercado acionário. Bernanke já havia trazido mais tranqüilidade ao mercado, na quinta-feira, ao afirmar, no Congresso, que não se arrependia de haver socorrido o Bear Stearns. Afirmou também, categoricamente, que faria o mesmo de novo, se disso dependesse do equilíbrio do sistema financeiro.-
SOCORRER COMO?
A declaração foi corretamente interpretada como a decisão do Fed de não deixar nenhuma empresa ou grupo financeiro de porte entrar em colapso. E as duas imobiliárias, com grande peso financeiro e estreita ligação com o governo, estão nessa linha. Entre as medidas de socorro, além da compra das ações, aventava-se a possibilidades de o Fed oferecer empréstimo por 10 anos, garantindo a sua capitalização, se elas não conseguirem recursos no mercado, no curto prazo. Mas isso parece difícil num mercado que deve permanecer arredio e volátil ainda por algum tempo.
No fim da tarde de sexta-feira, era unânime no mercado financeiro global a impressão de que nem tudo passou. Mesmo tendo reagido de forma surpreendente no período da tarde, e recuperando quase tudo o que havia perdido, as tensões persistiam. Amanhã poderá ser outro dia agitado, de volatilidade e índices negativos, mesmo porque o preço do petróleo continua aumentando.
"As duas ainda podem ter perdas de 50% na segunda-feira. Não acredito que o recuo de sexta-feira seja passageiro; vai levar um pouco mais para que cheguem ao fundo do poço, afinal, tivemos um mercado com volume (de compra e venda) leve", afirmou Mike Mainwald, da Lek Securities, ao Wall Street Journal.
CALMA, DE NOVO, LEITOR
No fundo, ele refletia bem o pensamento de quase todos os analistas. Se não houver uma ação imediata do Fed para socorrer a Fannie e a Freddie, vai perdurar esse clima de incerteza. Que virá, virá. Só não se sabe de que forma. E não será surpresa se for neste fim de semana ou na segunda-feira.
Tivemos uma semana ruim no mercado financeiro internacional, mas o leitor deve precaver-se quanto a sentimentos mais pessimistas. Não há sinais de crise maior, de tragédias ou caos. O setor imobiliário americano continua contaminando o mercado financeiro, mas não de forma a abalar o sistema. Ele continua funcionando bem, absorvendo choques com o apoio até agora oportuno dos BCs.
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