Entrevista:O Estado inteligente

sábado, maio 20, 2006

Valor da polícia

EDITORIAL DE O GLOBO

Osurto de insegurança pública em São Paulo fez circular declarações e análises já conhecidas de crises anteriores. Coube ao presidente Lula, ao tentar capitalizar eleitoralmente os acontecimentos, explorar um surrado conceito de esquerda que estabelece uma relação mecânica entre violência e questões sociais. Numa estocada no adversário Geraldo Alckmin, defensor de um choque de gestão no Executivo federal, Lula afirmou preferir um "choque de inclusão", deixando implícita a visão de que só existem criminosos porque há injustiça social. Banditismo seria uma mazela de país pobre e desigual.

Mas a realidade do Primeiro Mundo demole a visão ingênua de que a solução para todos os males da segurança deriva do equacionamento dos desníveis sociais. O estágio de desenvolvimento não assegura a inexistência de um banditismo violento e letal, embora não se deva menosprezar a contribuição da pobreza à criminalidade. Mas eliminar a miséria não garante o fim da criminalidade. Esse tipo de percepção distorcida não é apenas um equívoco inconseqüente. Ele resulta de uma distorção da esquerda, ainda existente no mundo acadêmico — ressalvadas as conhecidas e louváveis exceções — herdada dos tempos do regime militar, e que manteve grande parte da intelectualidade distante das questões concretas da segurança pública. Construiu-se a idéia de que polícia é "coisa de direita", ficando a preocupação social como terreno cativo do pensamento de "esquerda".

Com isso, relativamente poucos formuladores na academia se preocupam com as necessidades das forças policiais. Essa mesma distorção existe na sociedade, que trata o policial como um funcionário público de segunda ou terceira categoria, quando ele deveria ser um dos servidores mais prestigiados, por cuidar de um bem comum de extrema importância, a segurança. Há bandas podres nas polícias e é extensa a crônica de delitos policiais. Mas enquanto houver arraigado preconceito contra a polícia — mesmo compreensível — será difícil avançar-se na execução de políticas de segurança eficientes. É crucial converter as forças policiais num segmento nobre e respeitado do poder público. Isso implica admitir que nelas também há uma banda nobre. E implica também colocar em desuso análises surradas e simplistas sobre a criminalidade.

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