Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, maio 19, 2006

Uma questão de honra - II artigo - João Mellão Neto

O Estado de S. Paulo
19/5/2006

Uma salva de tiros, um toque de clarim, e o esquife desceu à terra.
Estava lacrado, indicando que aquele corpo fora severamente mutilado.
Era toda uma vida que se interrompia, barbaramente, naquele instante.
A pungente cena se repetiria dezenas de vezes por toda a cidade.
Aquele Dia das Mães jamais será olvidado. Foi o dia em que numerosas
mães, atônitas, perplexas, desconsoladas, se despediram para sempre
dos seus filhos.

A autoridade presente, o representante da Secretaria da Segurança
Pública, mal conseguia esconder a sua comoção e o seu
constrangimento. O que dizer àquelas famílias? Àquelas mães, àquelas
esposas ainda jovens, rodeadas por seus filhos crianças, agora
órfãos, na vã expectativa de minorar o seu sofrimento? Reiterar-lhes
que aquele que partia fora um herói? Que sacrificara a própria vida
por um grande ideal? Não. Ele sabia de antemão que a dor maior não se
exprime em palavras. Pouco ou nada falou. Abraçou apertadamente todos
os familiares da vítima e, com os olhos marejados, retirou-se do
local. Ainda haveria, naquele dia, de repetir o seu gesto muitas
vezes mais. Mais uma salva de tiros, mais um toque de clarim, e
assim, naquele domingo, em vários campos santos diferentes, ele se
faria presente, homenageando os mártires daquele que seria marcado
para sempre como o "dia da infâmia".

Policiais, eu não me canso de dizer, não são cidadãos comuns. Nós, os
paisanos, não arriscamos nossa vida em troca de medalhas ou apenas de
mero reconhecimento. Somente os heróis o fazem, e muitos, ao
tombarem, nem sequer levam consigo a láurea do seu mérito. São os
mártires, anônimos, da eterna e incessante luta do bem contra o mal.
Vivos, são vistos por muitos com antipatia. Quando morrem - quase
sempre ainda jovens -, são logo esquecidos. Bastam-lhes o clarim, a
carga de espoleta e a honra de ter o seu ataúde coberto pela bandeira
da corporação.

Quando criança eu sonhava ser policial. Mas logo oportunidades mais
tentadoras foram surgindo em minha vida. Quando me deparo, nas ruas,
com agentes da lei fardados, logo me ocorre o pensamento: são aquelas
crianças que não abandonaram o sonho. Eles são tudo aquilo que sonhei
na minha infância e que, adulto, não me aventurei a ser. São altivos,
altaneiros e carregam na farda o seu orgulho de ser. O senso de
missão, a coragem, o dever e, sobretudo, a honra são valores que lhes
são incutidos, profundamente, desde o primeiro dia de treinamento.

Honra. Nós, civis, há muito já nos esquecemos do verdadeiro sentido
dessa palavra. E, no entanto, para os policiais, é nela que se traduz
todo o seu sentido de vida.

É desnecessário relatar aqui todos os covardes episódios que marcaram
o fim de semana em São Paulo. Importante, isso sim, é registrar que,
apesar de tudo, as nossas polícias - a Militar e a Civil - em momento
algum se acovardaram.

"Multiplicando por mil e um os cento e trinta de 31", reza o hino da
Polícia Militar, fazendo alusão aos seus primeiros soldados. Pois os
PMs fizeram jus à canção. Desdobraram-se, multiplicaram-se e, após
dois dias de enfrentamento, lograram virar a batalha. Causaram
severas baixas ao inimigo e trouxeram a paz novamente a São Paulo.

Segundo pesquisas, os cidadãos comuns, como sempre, não reconheceram
o hercúleo trabalho de nossas polícias. Infelizmente, só quem
acompanhou de perto a evolução dos acontecimentos pode aquilatar a
grandeza do que ocorreu.

Muitos não entenderam por que o governo do Estado recusou de pronto o
auxílio federal. São aqueles que desconhecem o poderio e os brios da
Polícia Militar de São Paulo. Com 94 mil homens, ela é, de longe, o
maior, o melhor e o mais aparelhado aparato de segurança pública do
Brasil. O mesmo ocorre com a Polícia Civil. A presença, em São Paulo,
da Força Nacional de Segurança, com apenas 4 mil soldados, além de
inócua, seria extremamente nociva ao moral das nossas tropas. A PM de
São Paulo é orgulhosa. Seria uma humilhação pedir socorro a quem quer
que seja. Após um primeiro dia de perplexidade, as forças policiais,
civis e militares, se arregimentaram, se articularam e partiram
coesas para a contra-ofensiva. Nada de medo, receio ou covardia.
Jamais se viu a polícia agir com tamanha garra, tenacidade e
determinação. Exemplo disso foi a atitude dos soldados da Rota que,
na noite de domingo, se recusaram a render guarda para o turno
seguinte. Apesar de extenuados, eles pretendiam cumprir mais 12 horas
de rondas, "até que o último bandido fosse enfrentado".

Ao "dia da infâmia" se seguiu uma das mais ferozes batalhas que as
forças policiais de São Paulo já empreenderam.

Honra. Esta é a palavra-chave para compreender a dimensão do que
ocorreu. A honra da PM e da Polícia Civil foi atingida. E cada
oficial, cada soldado, cada agente, todos se sentiram igualmente
feridos em seus brios. Urgia resgatar a autoridade da instituição. E
todos se esforçaram além de seus limites físicos para recobrá-la

Lei e ordem, para alguns, não passam de um binômio reacionário. Não é
verdade. É justamente sobre esses dois alicerces que se lastreiam
todas as sociedades que se pretendem civilizadas. Não há democracia
que sobreviva sem o império da lei. Não há progresso que se sustente
sem a imposição da ordem.

A lei e a ordem foram restauradas. E, assim, mais uma página heróica
foi escrita no começo desta semana.

Parabéns, policiais, vocês cumpriram o seu dever!

Para descrever o momento não há palavras mais pungentes do que as de
Abraham Lincoln, no ainda fumegante campo de batalha de Gettysburg:
"(...) Que todos nós aqui presentes solenemente admitamos que esses
bravos homens não morreram em vão; que esta nação, com a graça de
Deus, venha a gerar uma nova liberdade; e que o governo do povo, pelo
povo e para o povo jamais desaparecerá da face da Terra."

Deus os abençoe...


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