Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, maio 17, 2006

Nosso intelectual orgânico Por Reinaldo Azevedo





primeira leitura

Ora, ora, quem diria! O Brasil produziu ao menos um intelectual orgânico: Marcola. Mais do que isso: vejam vocês, o homem também tem ambições teóricas. Não deixa de ser um evento. Luminares como Marilena Chaui, Emir Sader ou Marco Aurélio Garcia já ensaiaram algumas teorias gerais da revolução, e é Marcola, um leitor de Dante, Lênin e Sun Tzu, quem consegue dar uma dimensão prática ao pensamento.

Eis, finalmente, um intelectual das massas para o qual toda teoria não é inútil. Ah, este sim sabe "o que fazer", a exemplo da Múmia Homicida de Moscou. Não! O homem não é preguiçoso feito o Apedeuta. Busca ilustração e está, certamente, à cata de uma metafísica. Se eu fosse Chaui, Sader ou Garcia, teria inveja de Marcola porque ele, sim, conhece todas as nervuras do real.

Chaui passou ao menos duas décadas na USP aparelhando o pensamento de Spinoza e Merleau-Ponty e glosando Claude Lefort, e sua grande obra, como intelectual, é o PT — aquele partido que o procurador-geral da República diz abrigar quadrilheiros que se uniram para assaltar a República. Sader e Garcia não aparelharam ninguém porque preferiram não ler. Podem botar aí também Antonio Candido, a face edulcoradamente gagá no neo-stalinismo. À diferença dos outros, há ao menos a preservar Formação da Literatura Brasileira. Não endosso tudo, mas é uma referência. Seu pensamento político merece ir para o lixo junto com o dos outros. A obra do grupo não é muito diferente da de Marcola. O PCC é um tanto mais modesto nas pretensões e mexe com "menas grana". 

Bem, sou obrigado a concluir que Marcola foi mais bem-sucedido em sua obra do que o grupo dos quatro — e seus amigos acadêmicos menos famosos. Marcola nunca quis ser outra coisa além de um bandido. Ele, como delinqüente intelectual, é muito mais eficiente do que alguns intelectuais que chamaram de luta de classes o que veio a se revelar depois mera delinqüência política. O cara é mais de confiança no seu ofício do que aqueles pensadores coroados no deles. Não vou recomendar Marcola para professor da USP porque, bem..., acho que os alunos da USP não merecem alguns que eles já têm.

Isso tudo a troco de quê? Leiam o que pensam sobre a violência gente como Lula, o Apedeuta, o próprio Marcola — o nosso candidato a intelectual cínico — ou Heloísa Helena, a senadora do PSOL (AL). Para eles, tudo deriva da falta de inclusão social, a mais cara cascata inventada pela esquerda mundo afora par justificar a sua aliança objetiva com o crime comum. Tal concepção ou caolha ou interessada se entranhou na cultura política e institucional brasileira, de que os acadêmicos que se querem de esquerda são os maiores propagandistas.

Não, não serei eu a atacar a política de diretos humanos para presos — ela deve valer para qualquer um. Em São Paulo, um estadista chamado Franco Montoro a impôs como diretriz a uma polícia que havia sido talhada para matar primeiro e perguntar depois, uma herança do período de arbítrio. Mas isso é muito diferente de impunidade, que é do que estamos tratando agora. A violência explode no Brasil porque o Estado não cumpre a sua parte e porque os governantes não têm o saudável senso de vergonha na cara. À pregação supostamente ética das origens sociais da violência corresponde uma política de acomodação com o crime organizado. Esse equilíbrio no terror é diligentemente vigiado por ONGs que se querem defensoras da paz.

É uma gente, como direi?, intelectualmente pornográfica. No dia seguinte ao massacre dos 111 no Carandiru, estavam nas ruas. E fizeram bem em protestar. Mas e agora, diante das dezenas de corpos de policiais? Onde estão? Faço de novo a pergunta que já fiz na edição anterior: cadê os padres de passeata? Mobilizaram-se contra o absurdo massacre dos 111 porque, afinal, a cultura democrátia e humanista não admite certos procedimentos ou porque se sentiam irresistivelmente atraídos pelo crime, vendo nele uma espécie de resistência à, sei lá, moral burguesa?

Ah, nem me digam qual é a resposta porque já sei. Seu silêncio cúmplice diante dos corpos dos policiais responde à pergunta. Os que morreram porque eram procuradores do Estado de Direito nada mais eram do que estafetas de um sistema iníquo, não é isso? A esquerda intelectual, tão bem alimentada pelo grupo dos quatro que citei, tem um pastor: Marcola. Ele é o verdadeiro evangelista dessa seita macabra. O país, na academia, é refém da estupidez ilustrada e do leninismo de meia-tigela. Mídia e ONGs fazem o trabalho politicamente correto que funciona como vasos capilares do crime.

Hamas ou Bolsa Família?
Leiam o excelente material que o Estadão publicou nesta terça sobre o PCC. Está na página C13 do jornal. O grupo comandado por Marcola quer eleger dois deputados federais, paga bolsa de estudos para futuros advogados que vão servir à causa, distribui cestas básicas para famílias de presos e presentes para as crianças no Natal, paga a defesa de acusados etc. É assim uma soma de Hamas, o grupo terrorista que hoje governa a Autoridade Nacional Palestina, com Bolsa Família.

Antes de Lula pensar no ProUni, o PCC já havia criado a sua própria, como direi?, estrutura universitária; antes de Lula prometer que daria três pratos de comida a cada brasileiro, o PCC já oferecia bem mais do que isso; antes de Lula decidir cevar o seu eleitorado, Marcola já decidira criar a sua própria base de apoio. Com uma diferença, também esta a favor do bandido.

O seu "Bolsa Família" e o seu "ProUni" não congelam as pessoas em sua miséria, esmagadas pela caridade, na base da pirâmide social e sem rotas de fuga. Ao contrário: o assistido pode ascender na organização. Ao socialismo careta e vagabundo do lulismo, Marcola opõe a sua visão capitalista de mundo. É o sovietismo chulé do Apedeuta em oposição ao fordismo selvagem do leitor da Divina Comédia. Adivinhem quem ganha a batalha.

A exemplo do Hamas, cuja luta, parece, Emir Sader compreende muito bem, também o PCC faz caridade, mas cobra um preço: terrorismo. Lá como cá, os "assistidos" têm a honra e a glória do sacrifício. E de sacrificar inocentes. O Brasil ama seus bandidos. Ouçam Charles Anjo 45, de Jorge Benjor. Acho que é de sua autoria. É uma das poucas coisas compreensíveis que ele canta. Está tudo ali. Vejam alguns filmes recentes de nossos cineastas de resistência. Os culpados são, vejam vocês!, os burgueses, o capitalismo. A Folha publica nesta terça uma página com o pensamento profundo do cinema brasileiro sobre a violência. Não é que essa gente consegue ser ainda pior quando fala do que quando faz filme?

Um certo José Padilha, diretor do documentário Ônibus 174, diz: "Existem, por um lado, os criminosos; por outro, a situação calamitosa dos presídios. O criminoso revoltado é, nesse caso, o estopim de um barril de pólvora". Pobre rapaz! Seu documentário já é uma elegia a um criminoso. Danem-se ele e seu filme. Já o seu pensamento dá o que pensar. Em sua lógica perturbada, os bandos ameaçam a sociedade porque são maltratados nos presídios. Seria uma espécie de empate: a gente não dá a eles condições dignas de vida, e eles cobram o "direito" à sua maneira. Não é de se estranhar que existam intelectuais no Brasil que classificam o Hamas de "grupo de resistência".

Na mesma página da Folha, escreve, é claro, Frei Betto. Que também tem algo a dizer sobre isso. Do cristianismo ao marxismo, passando pela Escatologia da Libertação e pela culinária, chegando agora à segurança pública, nada escapa à sua pena arguta e pia. Para ele, "a causa maior da criminalidade é a desigualdade social, que vem sendo reduzida no Brasil desde 2001".

A frase é perturbada, idiota e perigosa. Se a causa é a desigualdade e se ela vem sedo reduzida, seria preciso encontrar, então, outros motivos para a violência crescente. Ruim de lógica, ele não é melhor de norte ético e moral. Se a causa é a desigualdade, então somos devedores daqueles que nos ameaçam e põem a faca no nosso pescoço. Somos os verdadeiros culpados pelo mal que nos acomete. Temos de pedir desculpas a Marcola. É um pensamento demoníaco. O deus que dita pensamentos como este tem o rabo em forma de arpão. E Deus não tem rabo, ainda que haja uma cruz na extremidade.

Um recado à OAB
Alguém pode defender o direito de defesa e a inviolabilidade do trabalho do advogado tanto quanto defendo, mas duvido que mais do que eu. Em pelos menos duas circunstâncias espinhosas, eu o fiz aqui sem temer a patrulha de ninguém: quando um advogado instruiu um cliente a mudar uma assinatura, o que foi captado pelas câmeras de TV, e quando foi levada ao ar a instrução do defensor de Suzane von Richthofen para que afetasse sofrimento diante das câmeras do Fantástico. Condenei e condeno que as imagens tenham ido ao ar.

Bem, isso é uma coisa. Outra, diferente, é lidar com a evidência de que criminosos, disfarçados de advogados, sirvam de pombo-correio do crime organizado. Calma lá, OAB! Trata-se agora de uma questão de segurança coletiva opondo-se ao direito individual não de um bandido comum, mas de um terrorista. Entramos, claro, num terreno perigoso. Muito se debateu nos EUA até onde as leis excepcionais aprovadas eram ou não legítimas para conter o terror. O fato é que não houve novos atentados. Sim, é preciso vergonha na cara já e impedir que presos usem celulares. Mas é óbvio que precisamos de leis especiais para alguns casos. Leis especiais que, inclusive, monitorem, sim, senhores, a conversa de advogados com clientes.

O Estado de Direito compreende que nenhum ente a outro se imponha de forma soberana. Hoje, não temos leis que permitam essa escuta. Nesse estrito sentido formal, a OAB está certa em combater o expediente. Mas erra no princípio. O sr. Marcola e alguns de seus comparsas não são guerreiros de uma luta solitária, ainda que errada e anti-social. Organizam-se como facção terrorista e só podem ser combatidos com leis especiais.

Em vez de a OAB se dedicar a princípios em abstrato, deve é pedir que a escuta seja regulada pelo Estado Democrático. Se um advogado pretende fazer a defesa de Marcola dentro dos limites que existem na lei, pode perfeitamente bem ser monitorado. A regra não vale para qualquer um. Vale para alguém que é capaz de impor o pânico, em 24 horas, a uma das maiores cidades do mundo. A luta é outra, senhores advogados. Aliás, a OAB deveria ser a primeira interessada em separar alhos de bugalhos, criminosos de advogados.

A segurança coletiva tem o poder de tornar relativos muitos dos absolutos com os quais lidamos. É por isso que o Estado Democrático é seu melhor guardião. Porque, às vezes, ele tem de ser testado em situações-limite. Quais são, por exemplo, os "direitos humanos" de um terrorista preso que tem uma informação que pode salvar milhares de vidas? Há coisas, já disse aqui, sobre as quais tenho convicção absoluta, negando-me a ter apenas 50% de razão para ser simpático. Reivindico logo 100%. Eu não hesitaria um só instante, na situação acima, em optar pelo mal menor. E o mal menor seria obter a confissão do detido. Não foi o Estado de Segurança que o arrastou para o limite, mas o contrário. Deus terá pela alma do covarde a piedade que o covarde não tem pela vida de inocentes.

Para não dizer que não...
Para não dizer que não falei de meu crânio, sou grato às centenas de mensagens que chegaram desejando o meu restabelecimento. E, claro, apareceu a turma heavy metal.

Um leitor chamado "Youri" me mandou um e-mail dizendo que eu não deveria mais acusar a ausência de gente que deseja a minha morte. Ele o fez. Identificou-se como uma pessoa de esquerda e disse esperar que um tumor me mate de forma lenta e dolorosa. Interessante. Ele não se dá por satisfeito em ver justiça na torcida pela eliminação física de um adversário teórico: ele precisa também que eu sofra.

Só não entendi se é uma forma de didatismo com o inimigo, que os esquerdistas tornaram célebre na história, ou se é mesmo sadismo, uma variante da crueldade. Quando moleque, o dito-cujo era do tipo que jogava sal em lesma, abria a barriga do sapo vivo, amarrava um chumaço no rabo do gato e botava fogo para ver o bichano apavorado. O menino é o pai do homem, Youri, e vejo que você não fez nada que preste do que fizeram com você.

Um outro, Sérgio, me envia uma porção de desaforos e grosserias, dizendo que estou espetacularizando a minha doença, que não interessa a ninguém. E depois me chama de direitista, reacionário, fascista etc. e tal. Não sei por que ele me lê nem por que se incomoda, então, que eu fale do meu crânio. Diz ainda que voltei pior da cirurgia, o que é uma mentira em si. Ele me detesta de tal modo que é impossível que tenha me achado melhor algum dia. Sérgio, note bem: para você, já nasci pior e maligno. Ocorrem-me tantos colunistas com os quais você poderia perder o seu tempo... Um conselho: vá cuidar dos seus próprios tumores e me deixe cá com minhas feridas — nada de metáforas aqui, leitor.

Paula Rocha, fazendo a linha dura e sintética — femme fatale da disputa ideológica — me escreve: "Você é um golpistazinho barato. Dá pena. Na vida precisa aprender a perder". Sei lá do que fala a moça. Perder o quê, minha filha? Os tumores? O bonde e a vida? As eleições? O jogo de truco? A única derrota que mexe com os meus bofes, Paula, é a do Corinthians. Ademais, "golpista", vá lá, "inho" não, porque não combina com a minha altura, e "barato" jamais. Huuummm... Quem irá amolecer esse coração de pedra?

Até quando escrevo, foram as três únicas porradas que levei por conta desse assunto. Centenas de leitores torceram e torcem pelo meu restabelecimento, com palavras as mais agradáveis, vindas, muitas vezes, de gente que faz questão de deixar claro que não concorda com quase nada do que eu digo. Tenho falado da cirurgia a que fui submetido porque, claro, é uma forma de fazer psicanálise a céu aberto.

Reagi como todo mundo quando achei que havia sido precocemente convocado: lamentei, chorei, fiz piadas mórbidas. O único cuidado que tive foi não fazer frases de efeito: havia uma possibilidade, embora menor à época, de que fossem tumores benignos. Não suportaria ser confrontado com as verdades eternas de um falso moribundo, tornadas, de súbito, bravatas.

Também não fiquei perscrutando sinais, descobrindo uma súbita vocação profética para distrair o medo. Tampouco resolvi fazer vaticínios pretéritos: "Bem que eu senti, no dia tal, que algo iria acontecer comigo...". Eu não havia sentido nada; tampouco esperava ter de passar por experiência semelhante. De certo modo, não fossem alguns incômodos, vivo a coisa toda como se fosse uma história alheia. O papel parece inadequado para mim.

Embora eu escreva sobre temas ditos sérios e reconheça certa gravidade no meu estilo, com vocação pré-apocalíptica às vezes, sinto uma atração irresistível pela galhofa e pela auto-ironia. Mesmo quando palpita em mim a compaixão, há um espírito de porco que me indaga se não estou exagerando e confundindo constrangimento com amor pelo próximo.

E, é claro, Paula Rocha, que eu não deixei nenhuma mensagem para a hipótese de morrer na mesa de cirurgia. Vai que ela me saísse tão redondinha e bem-feita, que me visse obrigado, depois, a morrer só para cumprir meus vaticínios, profecias e metáforas...

[ reinaldo@primeiraleitura.com.br ]
Publicado em 16 de maio de 2006.

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