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O velho truque do empurra
Políticos preferem dividir culpas a somar esforços no combate ao crime
Dora Kramer
No primeiro dia, os políticos guardaram reverência ao luto pelos mortos e ao terror da população de São Paulo. Simularam respeito, condenaram o uso eleitoral do tema segurança pública e fizeram profissão de fé na união dos esforços de todos contra o crime. Demonstraram até certo desprendimento ao assumir responsabilidade coletiva.
No segundo dia, porém, negociada a paz mediante as condições impostas pelo crime organizado, as duas forças políticas preponderantes no País, representadas partidariamente no PT e na aliança PSDB/PFL, puseram as garras de fora, acusando-se mutuamente; petistas culpando o governo de São Paulo por ter recusado ajuda federal e tratado com leniência a bandidagem, tucanos e pefelistas responsabilizando o governo federal pela redução das verbas destinadas à segurança pública.
O tema da violência, até então de fora dos debates, embora ocupe lugar de destaque nas listas de prioridades da população, entrou assim, de forma enviesada, na agenda político-eleitoral.
Não seria exagero dizer que entrou pela porta dos fundos, em clima de botinadas recíprocas que, ao fim e ao cabo, não darão camisa a ninguém se os candidatos a presidente e a governador não conseguirem dizer ao eleitorado o que pensam fazer a respeito, além de dizer que o adversário não faz nada. É o velho truque do empurra.
Não resta dúvida, o ônus mais imediato recai mesmo sobre os ombros do tucanato, há 12 anos no poder no Estado atingido em cheio pelos ataques de cunho terrorista e durante oito anos ocupante da Presidência da República sem que os repasses mais substanciosos de recursos significassem qualquer avanço no combate à criminalidade.
Não há como o candidato Geraldo Alckmin fugir da questão apresentando números de significado inexistente diante do vivido no dia-a-dia pela população.
O governo paulista fracassou no controle às facções criminosas, bem como a administração Fernando Henrique Cardoso falhou de A a Z naquilo que concerne à União: a instituição de uma política de segurança pública para fazer frente à ação nacionalizada do narcotráfico.
Deixou as coisas ao sabor de planos pontuais elaborados na contingência de episódios dramáticos, escudou-se o tempo todo na regra constitucional que confere aos Estados a tarefa de lidar com a criminalidade, conformou-se com a situação e não enfrentou a questão com a veemência exigida.
Com uma lista imensa de ministros da Justiça, Fernando Henrique veio a se dar conta do equívoco de abrir a pasta a composições políticas já no final do segundo mandato, quando era tarde.
Pois bem, ainda que se reduza a questão do tempo para providências a menos da metade, o presidente Luiz Inácio da Silva em três anos e meio fez o mesmo que o antecessor: coisa nenhuma.
Sob Lula, o Ministério da Justiça não foi repartição de alta rotatividade, mas como se sabe o ministro esteve a maior parte do tempo ocupado em resolver problemas relativos à defesa do governo e de diversos de seus integrantes em assuntos de natureza criminal.
Em 2003, o governo até começou bem. Num de seus poucos discursos consistentes (foram dois, no outro Lula discorreu sobre reforma trabalhista), feito em meio à crise de rebeliões em presídios, daquela vez no Rio de Janeiro, o presidente deu a entender que compreendia a dimensão do problema e que trataria a segurança pública como prioridade absoluta.
O tempo passou, as crises de violência se sucederam e anda tudo pior que dantes. A simples oferta de ajuda federal a São Paulo é uma óbvia tentativa de propagandear interesse, assim como a recusa a priori por parte do governo estadual é gesto de reação política.
Ficam ambos, cada qual no seu canto do ringue, tentando dividir os prejuízos, sem perceber que o momento é de somar. Não culpas no cartório, estas já conhecidas, mas trabalho, inteligência, espírito público, desprendimento, dedicação e coragem para pôr a mão na massa que apodrece a céu aberto.
Contra-ofensiva
O deputado Fernando Gabeira esteve ontem à tarde com o governador de São Paulo, Cláudio Lembo, para expressar solidariedade ao Estado, perguntar de que forma o Congresso poderia ajudar de fato no combate às facções criminosas e ponderar ao governador a necessidade de ele aceitar ajuda federal para uma operação de contra-ofensiva imediata que permitisse ao poder público dar uma demonstração de força e presença na garantia da segurança.
Gabeira sentiu Cláudio Lembo preocupado em não retirar prestígio à Polícia Civil, mas disse a ele que seria fundamental o Estado fazer uma ação conjunta entre a Polícia Civil, as tropas especiais da Polícia Militar e a logística do Exército, aproveitando as pistas deixadas pelo crime nas ações terroristas.
"Seria a hora de os governos mostrarem disposição de partir para cima. Isso teria um efeito intimidador sobre os criminosos e serviria para tranqüilizar a população, dar a ela a sensação de uma retomada efetiva do controle da situação."
Entrevista:O Estado inteligente
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