O GLOBO
A inesperada vitória eleitoral do Hamas, contrariando as previsões, deixou o mundo tão perplexo em relação ao acontecido quanto ao que pode vir a acontecer na região. Invertidos os sinais, o clima de apreensão de agora lembra um pouco o de há cinco anos, quando Ariel Sharon, o então chamado “carniceiro”, foi eleito primeiro-ministro de Israel pelo Likud, partido radical de direita. Previa-se o pior, e muito foi feito nesse sentido, mas Sharon acabou tendo que dar um passo na direção da paz retirando os judeus dos assentamentos da Faixa de Gaza e da Cisjordânia — apoiado por 70% da opinião pública israelense. No Oriente Médio só o passado é previsível.
Acompanhando os fatos por meio dos que entendem do assunto aqui e lá fora, pude recolher pelo menos uma notícia mais tranqüilizadora nesse quadro à primeira vista assustador: o que ocorreu não foi um voto a favor do terrorismo. A vitória do movimento islâmico se deveu menos à ameaça de varrer Israel do mapa, como mandam seus estatutos, e mais à esperança de que a nova administração acabe com os desmandos da anterior.
A opinião de observadores como o escritor Sam Bahour, filho de refugiados palestinos, para quem se trata de uma vitória “contra a corrupção dos 40 anos do Fatah no poder”, foi confirmada pelas pesquisas: 84% dos palestinos que votaram no Hamas são a favor de um acordo de paz. A mensagem desse povo pobre, sofrido e cansado de guerra terá sido por melhor qualidade de vida.
Assim, o Hamas estará diante do impasse de fazer atentados ou fazer dinheiro. Ou seja, terá que optar entre seguir a linha dura que sempre adotou ou, ao contrário, abrir mão dela para continuar recebendo os mais de US$ 1 bilhão por ano dos EUA e da Europa, sem falar nos US$ 55 milhões de impostos que são repassados mensalmente por Israel para a Autoridade Nacional Palestina. Esses recursos ajudam a manter funcionando a máquina do Estado. Se quiser governar, o Hamas está condenado ao diálogo e às concessões.
Mas a História não atiçou contradições apenas de um lado. Desconcertados com o resultado, os EUA, protetores históricos de Israel, ameaçam com suspensão de ajuda e represália, mas sabem que não podem negar legitimidade a um processo que livremente levou ao poder o partido dos homens-bomba. Isso desmoralizaria toda a pregação democrática de Bush, provando que o seu tão propalado projeto de converter o mundo árabe à democracia não passa de retórica.
Embora qualquer profecia corra o risco de sofrer um atentado nessa zona de incertezas, é certo que o único radicalismo pelo qual vale a pensa torcer é o radicalismo da paz. Só ele é capaz de promover a convivência dos contrários, sem que um lado, mesmo querendo, possa exterminar o outro.