Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

LUÍS NASSIF A eugenia do câmbio

FOLHA
Em julho de 1994, quando ocorreu a apreciação de 15% no real, da noite para o dia, os economistas do governo sustentavam que a abertura para as importações traria o câmbio de volta para o equilíbrio.
Numa típica forçada de barra cabeça de planilha, derrubaram as tarifas de importação, permitiram até importações pelos Correios. A idéia não era a de que o crescimento das importações fosse resultado de um novo equilíbrio, proveniente do crescimento econômico, mas de uma operação a fórceps, que alterou radicalmente o ponto de equilíbrio anterior da economia.
Como resultado, tinha-se uma economia interna que, passada a euforia inicial da apreciação do câmbio, com uma taxa de juros escandalosa, uma taxa cambial mortífera para a produção nacional e uma invasão de importados, sob o álibi de que sua entrada traria a taxa de câmbio de volta para o equilíbrio anterior. O único resultado foi o morticínio das empresas domésticas, um enorme déficit comercial sem que o real se desvalorizasse.
Ah, havia também aquela história de que a economia brasileira conseguiria facilmente ganhos de produtividade da ordem de 30% para compensar a apreciação cambial. Enfim, todos os argumentos foram utilizados, os juros se tornaram cada vez mais elevados e o câmbio não mudou.
Agora, confiram-se de novo todas as declarações de Gustavo Franco, Edmar Bacha e companhia: a saída contra a "doença holandesa" é a abertura indiscriminada às importações. Tem-se um superávit elevado e pontual, fruto da elevação desmedida das cotações de matérias-primas. Ao lado disso, tem-se um fluxo de recursos financeiros atraídos pelas taxas de juros internas, e operações externas de arbitragem que influem na cotação cambial interna.
Internamente, têm-se juros elevadíssimos, carga tributária indecente (para quem paga), um mercado interno chocho, um câmbio que, a cada dia que passa, afasta mais empresas do mercado exportador. O que os gênios propõem? Escancarar novamente o país às importações, para reduzir o superávit comercial e permitir alguma depreciação do real.
É evidente que, ao sugerir essa medida, idêntica à que foi apresentada como tábua de salvação em 1994, o que se tem em mente não é o reequilíbrio do câmbio.
Para que se quer um câmbio mais competitivo? Para impedir a devastação do parque manufatureiro brasileiro, e não meramente para reduzir o superávit comercial. Redução de superávit comercial é meio; preservação do parque industrial brasileiro é fim.
Agora, no ponto menos competitivo do câmbio, a proposta é abrir as comportas e permitir a invasão de importados. Conseqüência: resolve-se a questão dos meios (reduzindo o superávit comercial) à custa do fim (arrasando o parque manufatureiro brasileiro).
É evidente que a motivação não é técnica, mas política, ideológica. Em um momento em que mesmo os organismos internacionais passam a enfatizar cada vez mais a importância da geração de empregos, da retomada do desenvolvimento, da busca do equilíbrio social, é impressionante como propostas estapafúrdias como essa ainda encontram eco na mídia.

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