| O Estado de S. Paulo |
Por causa desta frase o Partido dos Trabalhadores pretende processar criminalmente Fernando Henrique Cardoso. FHC já anunciou que vai se defender alegando "exceção da verdade", ou seja, vai dizer que não caluniou ninguém, uma vez que nada mais disse que não o óbvio e comprovado. O ex-presidente pode ter lá seus defeitos, mas ninguém pode acusá-lo de verborragia ou de falar sem pensar. Escolado em décadas de vida acadêmica, ele escolhe cuidadosamente as palavras e as opiniões que exprime, principalmente em público. Em outra ocasião, ele explicitou o seu conceito: os petistas, por acreditarem piamente que estão fazendo o melhor para o Brasil, se entendem no direito de cometer deslizes éticos e morais. Faz sentido. Os petistas - ao menos a maioria - são diferentes dos corruptos convencionais. Eles não roubam para si, mas sim para a "causa". E isso lhes permite dormir com a consciência tranqüila. A "causa" é, sem dúvida, grandiosa. Implica transformar o Estado para, por meio deste, reformar a sociedade e com isso reconstruir a própria natureza humana. O raciocínio é o seguinte. O ser humano, em seu estado natural, é fraterno, generoso, solidário e bom. O surgimento do capitalismo fez com que o homem se tornasse individualista, ganancioso, egoísta e perverso. Segundo o materialismo histórico, a infra-estrutura econômica molda a "superestrutura" social. Se a sociedade em que vivemos é iníqua, injusta e cruel, isso se dá em razão da sua base econômica capitalista. O Estado, segundo essa lógica, não é um e público imparcial, neutro e impessoal. Ele existe para servir aos interesses da classe dominante, qual seja, a minoria burguesa que detém o capital e os meios de produção. Para mudar tudo isso se faz necessário, em primeiro lugar, conquistar o Estado. Uma vez que este esteja nas mãos da classe proletária, ele deve ser usado para abolir as instituições capitalistas. Eliminadas estas, cessa a exploração dos trabalhadores pelos seus patrões. Extinta a exploração, os humanos podem ser reeducados para voltar a ser iguais, altruístas e vocacionados exclusivamente para o bem comum, ou seja, o interesse da coletividade. Todos, então, serão felizes. O que se pretende, aqui, é nada menos que a construção do Paraíso na Terra. Esta, em síntese, é a Grande Causa. Por ela, e em nome dela, vale a pena sacrificar a própria vida, se necessário for. Se os seus acólitos se dispõem a tanto, o fato é que quem pode o mais pode o menos. Matar, roubar, trapacear e mentir, tudo isso são pecadilhos menores quando o que está em jogo é o futuro da Causa e, por conseguinte, o da própria Humanidade. Os petistas, embora não tenham o fervor e a férrea determinação de um Lenin ou de um Stalin, carregam na alma um forte pendor revolucionário. O pensamento marxista está no DNA do PT. E, embora não se disponham a pegar em armas pela Causa, eles acreditam nela e por ela se propõem a um grande leque de expedientes. Expedientes estes que vão muito além do que nos permite a nossa "estreita moralidade burguesa". O que o professor Fernando Henrique Cardoso - um profundo e autorizado conhecedor do pensamento e da prática marxista - quis realmente dizer é que "a ética petista permite roubar". E permite mesmo, desde que o roubo se dê em nome da Causa. Trata-se simplesmente de "extrair dinheiro da burguesia para usá-lo contra a própria burguesia". Nos meus tempos de universitário, no final dos anos 70, eu me lembro perfeitamente de que os professores e estudantes marxistas torciam o nariz para as minhas indignações "moralistas". Corrupção, para eles, era um problema secundário. "O verdadeiro roubo", diziam, "é a exploração do proletariado pela burguesia." Foi essa gente que poucos anos depois fundou o PT. O partido, nos seus primórdios, não tinha entre suas bandeiras de luta a questão da ética e da moralidade. "Isso é bobagem de "udenista"", diziam eles, com desprezo... Os anos se passaram e, por uma questão de estratégia política, o PT acabou por fazer da ética um de seus principais leitmotivs. Bateu-se por ela com mais fervor do que a antiga UDN, a quem tanto desdenhava. Seria por convicção? Sinceramente, não creio. O pensamento marxista é omisso quanto a isso. O mais provável é que tenham percebido que o lema da moralidade rendia preciosos votos na classe média. E se agarraram a ele como a uma tábua de salvação. Agora, ao chegar ao poder, a questão teve de ser revista. O que era mais importante? A Grande Causa Proletária ou a bandeira moralista de ocasião? Sempre que esta criava empecilhos para a consecução daquela, não titubearam em optar pela primeira. Ora, a democracia não é um regime de fins - por mais nobres que sejam -, mas sim de meios. Seu mais fundamental princípio é aquele que reza que: "A Justiça só é justa quando alcançada por meios justos." Como ficam , então, os petistas, muitos dos quais ainda acreditando que, em nome da Causa, "os fins justificam os meios"? Muito mal, é claro. Não é simples coincidência o fato de que, em todas as nações onde se adotou o marxismo, a democracia teve de ser abolida... O PT, embora nascido na redemocratização, é um partido cujos militantes autênticos são muito pouco propensos ao sacrossanto respeito às instituições democráticas. E, já que é assim, o melhor a fazer é devolvê-las para a oposição. A "Revolução de Outubro" vem aí! Mas nada de entusiasmo. Ela não será como a Russa, de 1917. Outubro, no Brasil, é mês de eleições. Os bravos revolucionários não vão, desta vez, tomar o Palácio de Inverno. O que eles vão tomar, isto sim, é o caminho do Inferno. |
Entrevista:O Estado inteligente
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