Entrevista:O Estado inteligente

sábado, fevereiro 18, 2006

Escolha seu escândalo

Escolha seu escândalo



Liliana Pinheiro, Primeira Leitura (18/02/06)


Primeiro, uma pequena memória. Na semana que
passou, quando o ex-diretor de Furnas Dimas Toledo prestou depoimento
na CPI dos Correios e reiterou que a fotocópia de um documento com
doações ilegais a políticos da oposição era uma montagem, tucanos e
pefelistas conseguiram neutralizar o impacto negativo que a sessão
poderia ter tido.



Observei, neste mesmo espaço, que a oposição até mesmo conseguiu virar
o jogo, transformando o depoimento em palco de acusações contra o
governo. E notei que a lista de Furnas, na qual petistas depositaram
todas as esperanças de que o jogo político pudesse ser zerado, com a
socialização da lama, poderia ser um tiro errado do governo na largada
da campanha pela sucessão do presidente Lula. A razão: trazia para o
processo político um nível de tensão que tem tudo para causar estragos
em quem tem mais vidraça.



Dois dias depois, eis de volta à imprensa a impressionante história de
sucesso empresarial do filho do presidente Lula, Fábio Luiz Lula da
Silva, um biólogo milionário aos 30 anos por seus negócios no mundo das
comunicações. Ele é um dos sócios da empresa Gamecorp, nascida como
micronegócio e transformada numa história de sucesso meteórico nos três
primeiros anos de governo do pai-presidente.



A razão da volta do caso às manchetes de jornais é uma investigação da
oposição, que descobriu que a Telemar, uma concessionária de serviços
públicos, que já havia feito um aporte de R$ 5 milhões na empresa de
Lulinha, como Fábio é chamado, continuou a despejar milhares de reais
no negócio. Na forma de patrocínios e produção para programas de TV da
Gamecorp do primeiro-filho, a Telemar está injetando R$ 415,75 mil por
mês na empreitada, segundo o jornal Folha de S.Paulo. Por ano, dá R$
4,989 milhões. Os números são da própria Telemar e representam 20% do
que a empresa gasta, por exemplo, com patrocínios e produções na Rede
Globo. Nada mau...



Levantar a cabeça, depois de todas as lambanças em que o PT e pessoas
muitos próximas do presidente se meteram, pode ser uma excelente
palavra de ordem para os petistas. Mas está claro que esse exercício de
auto-afirmação em meio ao tiroteio vai provocar muitas baixas. A
oposição, assim como os eleitores, podem escolher entre os muitos
escândalos disponíveis para pensar no que fazer até que chegue a hora
de enfrentar as urnas.



Menciono alguns apenas a título de ilustração: caso mensalão 1, o do
valerioduto; caso mensalão 2, o dos fundos de pensão, este novíssimo;
caso Santo André/propinodutos/CPEM; caso Okamotto/fundo partidário;
caso Waldomiro Diniz; caso cueca; caso Land Rover; caso dólares de
Cuba; caso Duda Mendonça; caso Farc... Nenhum está totalmente
esclarecido. Mas os caminhos estão mapeados e rendem material eleitoral
não para uma, mas para muitas eleições.



Digo isso porque vejo crescer a onda de que as CPIs não vão concluir
nada, de que a sociedade ainda não obteve todas as respostas e de que a
prova provada de que isso e aquilo existiram está por ser apresentada.
Trata-se de um formalismo excessivo para um ano eleitoral. Tenho
comigo, na primeira gaveta da mesa de trabalho, cópia do relatório
parcial da CPI dos Correios para consultas — repleto de provas,
diga-se. Sou exceção. Ninguém mais se preocupa com o documento, ninguém
fala dele nas rodas influentes nem nos meios populares. As pessoas
foram informadas de cada passo da investigação, ouviram pela televisão
o essencial dos depoimentos e são todas crescidas para tirar
conclusões. Ninguém precisa de um relatório que será fruto de acordo
político para firmar convicções sobre a inocência ou a culpa de
políticos, partidos e governos. Precisa, quando muito, que lhe reavivem
a memória. É isso o que a campanha fará.



O caso Lulinha, para complicar, atinge diretamente a família do
presidente e mexe com os brios de milhões de remediados e mesmo
abastados que não conseguem, nem com muito investimento pessoal e
educacional, abrir caminhos profissionais tão largos para os próprios
filhos. Arranha a mística de homem simples do presidente — o marketing
de que ele é uma pessoa igualzinha a você —, que ainda persiste em
alguns meios.



Põe ainda em risco a teoria de que todos os usos indevidos de dinheiro
público e do aparelho de Estado serviriam a uma causa nobre, coletiva,
ideológica, sem nenhum registro de enriquecimento pessoal dos
envolvidos.



Convenhamos, esses registros já existem. O Land Rover de Silvio Pereira
não virou um dos símbolos do mensalão apenas pela mística do carro, que
se mostrou um forte objeto de desejo, mas porque desafiava a mística
que o PT criou para si. O mesmo vale para os charutos Cohiba de Delúbio
Soares e os hábitos de consumo sofisticados de muitos petistas,
largamente noticiados. Protegido pelo cargo, que lhe garante conforto
máximo, Lula nunca foi questionado quanto a enriquecimento pessoal. O
case de sucesso de seu filho põe isso em perspectiva.



Publicado em 17 de fevereiro de 2006.

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