Ao sugerir que a sociedade procure se pôr de acordo sobre as políticas macroeconômicas que permitiriam ao País "níveis de crescimento mais vigorosos", o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, disse que, se o Brasil souber caminhar nesse sentido, acima dos confrontos partidários, "vamos ter um belo ano democrático em 2006, de bons debates para o futuro do País". Quem nos dera! É pouco provável que qualquer tentativa de "acordo social", como falou o ministro, possa prosperar sob o império da disputa pelo poder. A campanha é que deveria ser o escoadouro natural e a arena por excelência dos bons debates - acessíveis à maior parcela possível do eleitorado - sobre as questões substantivas elencadas por Palocci: impostos, gasto público, política fiscal e monetária, reformas de estrutura e métodos de gestão estatal.
Mas, a julgar pelas preliminares da campanha eleitoral, o Brasil está a anos-luz de ver discutido o que realmente interessa: como impedir que seja desfiliado da liga principal das nações emergentes, conhecidas pelo acrônimo Brics (Brasil, Rússia, Índia e China). Aliás, se essa ordem obedecesse hoje às realidades econômicas dos citados países e à sua efetiva importância no sistema globalizado, a sigla deveria ser Cirbs, nota o professor Marcos Jank em artigo publicado ontem neste jornal. Ele não é nenhum atirador de urucubacas, como o presidente Lula decerto o classificaria. Citando o best seller O mundo é plano, do americano Thomas Friedman, Jank avalia que "não há quem não fique incomodado em ver o crescimento acelerado de países que entraram no 'mundo plano' muito depois do Brasil e que hoje já estão nos fazendo comer poeira".
Trata-se, então, de correr atrás do prejuízo - depois de dois sucessivos governos terem demonstrado que, a continuar como está, o Brasil nunca terá um crescimento parecido com o dos seus parceiros do Brics. Compare-se, porém, a importância e a urgência desse tema com a pobreza do debate político-eleitoral. O espetáculo é desanimador. Tem-se, de um lado, um presidente que finge não ser candidato, mas candidatíssimo é, para poder armar o seu circo itinerante sem risco de ser apanhado pela legislação. O seu show de ilusionismo, intitulado "Nunca antes", repete exaustivamente o bordão de que jamais o Brasil e os brasileiros tiveram um governo como o seu, esquecido de que o crescimento econômico nacional nestes três anos ficou muito aquém da média dos emergentes em geral e da América Latina em especial.
Do lado da oposição, o PSDB debate-se em dilemas hamletianos sobre quem escolher para desafiante de Lula, em um processo infindável que o enfraquece, ao mesmo tempo que deixa o terreno livre para o presidente se entregar em sossego às suas pirotecnias, contando já com o definhamento das CPIs que poderiam assombrá-lo e o cansaço da platéia com as acusações de corrupção. Nessa conjuntura, alheio à receita do governador Geraldo Alckmin sobre como tirar votos de Lula - "falar mal dos outros não torna você melhor" -, o ex-presidente Fernando Henrique comete o erro estratégico de levar a campanha para o terreno exclusivo do déficit petista de moralidade. Por si só, a sua consigna - "a ética do PT é roubar" - dificilmente terá o efeito desejado.
Não poucos eleitores, sobretudo nos estratos mais pobres e menos instruídos, acham que a corrupção é inerradicável da política, que Lula é antes vítima do que mentor das lambanças do PT e que muito do que dele se diz é fruto de preconceito de classe. Pelo seu tom extremado, a frase pela qual o PT anunciou que irá processar o seu autor não deverá tirar muitos votos do presidente: os que se desiludiram com ele não precisam ser alertados; os que ainda lhe são simpáticos não deverão se sensibilizar com a investida - na melhor das hipóteses, votariam em Lula, mas não em outros candidatos petistas. Ataques e contra-ataques são pouco ou nada mais do que eventos de mídia.
Os adversários do presidente, ocupados que estão uns com os outros, não dirigem a palavra ao eleitor, o que, há muito tempo, Lula faz sem cessar. Muito menos o levam a acreditar que estão empenhados em produzir propostas para que o Brasil enfim faça o que fizeram os que hoje nos dão inveja - chineses, indianos, coreanos, espanhóis, irlandeses...