Entrevista:O Estado inteligente

domingo, fevereiro 05, 2006

AUGUSTO NUNES A vida boa do baixo clero

JB


Diplomado em Física e Medicina pela UFRJ, artista plástico por obra do destino, Vanderlei Assis é também deputado federal. Já não é pouca coisa. Mas não é tudo. Elegeu-se por São Paulo, sem fazer campanha e sem despachar a mudança pela Via Dutra. Carioca irredutível, nunca deixou a casa da família na Ilha do Governador. Mudou o domicílio eleitoral com o uso de documentos falsificados. E decolou para a Câmara no vácuo de Enéas Carneiro, líder do Prona.

Foto de Leonardo Rozário

Assis em recesso no Rio: com documentos falsificados e uma votação de anedota, ele pousou no paraíso parlamentar

O doutor Enéas, a barba que exige aos berros a bomba brasileira, conseguiu 1,5 milhão de votos. A proeza garantiu ao Prona paulista outras quatro cadeiras. O carioca Assis foi ungido por 275 eleitores. Deve o emprego ao chefe do Prona, mas não gostou da orientação transmitida à bancada: deveria votar contra o governo. Assis contou às repórteres Juliana Rocha e Mariana Santos, do Jornal do Brasil, que foi levado ao PP por Francisco Dornelles.

Aluguel de deputado nunca sai barato. Assis jura que nada lucrou. Foi tudo de graça, por amor a um programa inexistente. Em três anos, apresentou seis projetos. Nenhum foi aprovado. É dura a vida no baixo clero.

Mas o deputado tanto gostou da experiência que pretende prolongá-la por mais quatro anos. Embolsa 14 salários por ano (fora o resto), recolhe adicionais por convocações extraordinárias sem comparecer às sessões.

Cumpre com aplicação a ''semana brasiliense''. Dura três dias. Assis aterrissa na Câmara na terça-feira e volta ao Rio na tarde de quinta. ''Preciso ficar relax com a família'', explica. A caçula tem 26 anos.

Aparentemente, não precisam de tanta atenção paterna. Mas o deputado se divide entre a Ilha do Governador e a capital de São Paulo, onde presta contas aos 275 eleitores. Parece estranho: reinstalou no Rio o domicílio eleitoral e será candidato pelo PP fluminense, por que perder tempo em São Paulo? ''Preciso relatar o que faço'', explica.

Assis deveria presentear os 275 eleitores com um dia no Rio. Alojados no Othon Palace de Copacabana (divididos em grupos de três), ocupariam 92 dos 598 apartamentos do hotel. As diárias somariam R$ 27.600, ou dois salários do pai da pátria. Seria uma bonita festa de despedida. Porque Assis não terá desta vez a ajuda do doutor Enéas.

Terminada a festa, os 275 visitantes aprenderiam num curso intensivo que o Legislativo é a cara do povo, e que é preciso votar com sensatez. Também conheceriam as deformações do sistema representativo brasileiro. E receberiam, cada um, 275 chibatadas.

Premiado com o Yolhesman Crisbelles graças à frase ''É muita terra para pouco índio'', o presidente da Funai, Mércio Gomes, pousou no território do Cabôco. ''Para o IBGE, existem 800 mil índios. Para a Funai, são 450 mil'', informou o campeão do besteirol. Segundo Mércio, índios que vivem na zona urbana não são índios. O Cabôco pergunta ao cara pálida: se não são índios, então são o quê?

Uma cidade sem proteção

Foto de Luiz Morier

Três temporais em cinco dias confrontaram o Rio com números perturbadores: 18 mortos, incontáveis flagelados, centenas de casas destruídas. Fora o resto.

Congestionamentos apocalípticos paralisaram a cidade, o asfalto virou mar. Muito pior que o balanço da tragédia foi constatar que o Rio está desprotegido.

Não existe um sistema de defesa civil que mereça tal nome. Quando o temporal chegar, nada se espere da prefeitura e do governo. Esperemos a chuva passar.

Taça consola o pecador do PP

Encaminhado à guilhotina por decisão do Conselho de Ética da Câmara, o deputado federal Pedro Corrêa (PP-PE) decidiu compensar a provável perda do mandato com a conquista do troféu:

''Fui condenado por ser presidente do meu partido''.

Errado, doutor Pedro. Chefiar o PP talvez seja pecado, mas não dá cassação. Só se expõem à degola os campeões da roubalheira.

Inversão na fila da morte

A cassação do mandato de Roberto Brant (PFL-MG) foi aprovada pelo Conselho de Ética da Câmara e, como o parlamentar não recorreu à Comissão de Constituição e Justiça, está pronta para ser apreciada pelo plenário. Ocorre que a fila da guilhotina costuma sofrer alterações ditadas por tramóias interpartidárias presididas pelo camarada Aldo Rebelo.

O recente valerioindulto concedido ao deputado Romeu Queiroz tornou inviável a absolvição do próximo réu. Como Brant era o primeiro da fila, mandarins do PFL, do PSDB e do PT escalaram para morrer Wanderval Santos (PL-SP), que aguarda o exame de um recurso. A cabeça de Brant será trocada pelo pescoço de Wanderval.

Boa notícia para o Supremo

Foto de Antonio Cruz/Abr

Lula e Jobim: ex-adversários viraram amigos e, depois, cúmplices

Infiltrado no Supremo Tribunal Federal pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, de quem fora ministro da Justiça, o político Nelson Jobim anunciou na quinta-feira que vai voltar às origens. O primeiro a saber da decisão foi o presidente Lula da Silva. Faz sentido. Eles se tornaram amigos no começo do governo. Acabaram transformados em cúmplices.

No ocaso da Era FH, o PT vivia acusando Jobim de agir no STF como advogado do Planalto. Semanas de convívio entre os antigos adversários informaram que Jobim fazia parte da herança bendita. Nestes três anos, engavetou 16 ações desfavoráveis ao governo. Protegeu pecadores ameaçados de punição e bloqueou a estrada das CPIs.

Fingiu desejar o papel de candidato à Presidência pelo PMDB para conseguir a vaga de vice na chapa de Lula. Deverá consolar-se com a luta por uma vaga na Câmara.

Na semana passada, promovido a manchete por ter anulado a quebra dos sigilos de Paulo Okamotto, amigão de Lula, foi à luta com a veemência de palanqueiro.

''Essas críticas fazem parte da síndrome da conspiração'', declamou a toga que conspira contra a busca da verdade. ''O Supremo não irá se curvar a patrulhamentos de nenhum tipo, públicos ou privados'', gabou-se. Serão sempre estreitamente vigiados os que acampam no STF para proteger interesses próprios ou pelintras de estimação.

Para retardar o desmonte da fantasiosa versão de Okamotto, Jobim alegou que a CPI deve cuidar apenas de bandalheiras ligadas aos bingos. Ele já foi menos zeloso com fronteiras. O ex-deputado confessou que, em 1988, engordou o texto da Constituição com trechos que não haviam sido votados. Contou, sorrindo, que incorrera no crime de falsidade ideológica.

Sigilo é coisa de pecadores

Brasileiros pobres não sabem exatamente o que quer dizer quebra de sigilo bancário. Nem conta em banco eles têm. Integrantes da classe média não se assustam com devassas do gênero. Sabem que os investigadores toparão com cifras miúdas e movimentações raquíticas, além de estouros no limite do cheque especial. Isso não é crime. É falta de dinheiro.

Só se inquietam com quebras de sigilo milionários metidos em pilantragens e pilantras candidatos a milionário. Quem se apavora com a possibilidade de ter investigadas as contas bancárias praticou algum crime, cometeu algum pecado. Tem culpa no cartório. É o caso de Paulo Okamotto, o amigo trapalhão do presidente da República.

augusto@jb.com.br

[05/FEV/2006]

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