Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, maio 04, 2006

Na era da internet, os jornais ainda são um grande negócio



John Hughes
O Estado de S. Paulo
4/5/2006

A mídia impressa é a principal fornecedora das informações que circulam pela rede

A convenção deste ano da Sociedade Americana dos Editores de Jornais foi dominada pela discussão sobre se o jornal está ou não mortalmente ameaçado pela internet e outros inventos eletrônicos ainda por vir.

Tem sido um ano difícil para as empresas jornalísticas. Muitos jornais perderam leitores, e a publicidade sofreu um decréscimo. Alguns dos principais jornais demitiram.Jornalistas americanos no exterior foram mortos e mantidos reféns no Iraque, enquanto alguns têm sido ameaçados de prisão por se recusarem a revelar suas fontes. Uns poucos jornalistas aviltaram os princípios de sua profissão, plagiando o trabalho de outros ou forjando entrevistas.

Somando-se a isso está o temor de que a multiplicidade de engenhocas eletrônicas esteja incentivando a nova geração a abandonar o jornal impresso e passar a obter informações por meio do teclado e da tela do computador.

Seattle é um centro de desenvolvimento de novas tecnologias, e foi inevitável que Bill Gates, da Microsoft, fosse o orador convidado. Ele previu que em cinco anos não haverá mais livros didáticos nas escolas - serão substituídos por computadores. E contou como provocou seu amigo Warren Buffett, o megainvestidor, por ser dono de uma editora de enciclopédias. O único motivo para se imprimir enciclopédias atualmente, disse Gates a Buffett, é porque elas enfeitam as prateleiras.

Com a ajuda de Arthur Sulzberger Jr., diretor responsável do The New York Times, Gates anunciou um novo e aprimorado "jornal eletrônico" manual que terá os conteúdos do NYT e que está sendo testado. O novo dispositivo é pequeno e portátil, mas Gates foi um tanto vago sobre qual seria seu preço de venda.

Seria um insensatez da parte de proprietários e diretores de jornais ignorar tal nova tecnologia. Mas as empresas jornalísticas ainda são muito requisitadas - prova disso são os bilhões de dólares pagos há dias pelas organizações McClatchy e MediaNews para comprar os jornais da Knight Ridder.

Embora a tecnologia possa mudar os métodos de distribuição, não existe conteúdo a ser entregue sem uma organização noticiosa para coletá-lo e editá-lo. No seu relatório anual sobre a mídia noticiosa, o Project for Excellence in Journalism diz que "não há indícios que respaldem a idéia de que os jornais entraram numa súbita espiral de extinção".

Sites somente de internet, como o Slate e o Salon, que tentaram produzir conteúdo original,tiveram problemas financeiros, diz o relatório, enquanto aqueles que estão progredindo financeiramente dependem quase totalmente do trabalho de outros. Os jornais são as maiores organizações de coleta de notícias dos EUA e os principais fornecedores de material para a internet.

O relatório concluiu que a questão econômica primordial continua sendo quanto vai demorar para que o jornalismo online ganhe importância econômica e se será tão grande como a notícia impressa ou a televisão. "Se as receitas online dos jornais continuarem a crescer no atual ritmo - improváveis 33% ao ano - ,só atingirão níveis equivalentes à notícia impressa em 2017 (pressupondo-se que o jornal impresso cresça apenas 3% ao ano). Sendo realista, mesmo com os custos de distribuição mais baixos, levará anos para que a internet se rivalize com a economia da velha mídia".

Dois analistas da indústria de jornais, Scott Anthony e Clark Gilbert, dizem que, apesar da sensação de desalento, há sinais de esperança. Eles dizem que, embora o número de leitores de jornais esteja em declínio, o consumo de informações cresce. "Quase todas as empresas jornalísticas fizeram a transição para a web, com suas propriedades atraindo novos leitores e novos anunciantes. "A indústria jornalística tem potencial para fazer coisas empolgantes nos próximos anos".

Tudo isso sugere que o jornal está muito longe de ser uma espécie em extinção.

**John Hughes, ex-editor do Monitor, foi presidente da Associação Americana de Editores de Jornais.

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