Miséria da política
A troca de estocadas entre o presidente Lula e o ex-governador Geraldo Alckmin a propósito das agruras que São Paulo sofreu nos últimos dias escancarou o escandaloso abismo que de há muito separa política e vida cotidiana no Brasil. Por iniciativa do primeiro, os dois candidatos se fustigaram com claros propósitos eleitorais. Um, para tirar proveito da crise de segurança no Estado governado pela aliança PSDB-PFL. Outro, para não se enfraquecer ainda mais diante de um eleitorado que ainda não conseguiu sensibilizar. No limite, o que ambos fizeram se chama exploração de cadáveres - os quase 150 mortos em atos de violência em seis dias, até a quarta-feira, em território paulista.
Nada de novo, a rigor. O que dizem os políticos e o que se passa no País real parecem expressões de mundos não apenas diferentes, mas infinitamente distantes e incomunicáveis entre si. A dissociação entre o que move, ocupa e interessa à sociedade política e o que move, ocupa e interessa à sociedade civil justifica prognósticos pessimistas sobre o lugar do sistema partidário e do Congresso no cenário nacional. O risco não é propriamente o de um baque do regime democrático diante de um eventual ressurgimento de pulsões autoritárias no ideário político brasileiro. O perigo é a política tornar-se irrelevante até para aqueles setores da população cujo nível cultural lhes permite avaliar a influência dos jogos de poder sobre os rumos do País.
Entre os milhões de paulistas atemorizados pelo que lhes poderia suceder se o banditismo conseguisse efetivamente se impor ao Estado, ainda que por um punhado de dias, a quantos terá ocorrido pedir socorro aos seus representantes aboletados em Brasília? Para a esmagadora maioria das pessoas às voltas com essa aflição sem precedentes, estar o Congresso aberto ou fechado era decerto uma questão de somenos. Impossível não lhes dar razão quando se passa em revista, cena por cena, o deprimente espetáculo proporcionado nas últimas semanas, com as exceções de praxe, pelas excelências do Executivo e do Legislativo. Começa com a azáfama da Pizzaria Plenário - que absolveu quase todos os deputados da "sofisticada organização criminosa" registrada no relatório do procurador-geral da República sobre o mensalão.
Segue-se o autodeclarado presidenciável Anthony Garotinho, acusado de receber dinheiro de fontes favorecidas pelo governo de sua mulher, com a sua grotesca greve de fome de 11 dias, atrás de uma parede de vidro, numa versão ainda mais degradante do que o original do Big Brother Brasil. Enquanto isso, o seu partido, o PMDB, vem sendo despudoradamente cortejado pelo petismo e pela fronda tucano-pefelista. O ministro político do governo oferece um pedaço do Planalto ao presidente da megalegenda de aluguel a que ficou reduzido o partido da resistência democrática de tempos idos. E na mesma São Paulo vítima da violência e do medo, petistas e tucanos, alheios a uma coisa e outra, competem para ver quem terá a seu lado um ex-governador peemedebista de notória reputação.
Na Câmara pós-mensalônica, ao mesmo tempo, grassa a santa ira contra a Polícia Federal por ter ela ousado arrolar muitas dezenas de nobres parlamentares - além do emblemático senador paraibano Ney Suassuna - entre os suspeitos de sugar sistematicamente o Orçamento da União, numa ciranda criminosa envolvendo assessores, uma importante funcionária contratada do Ministério da Saúde, prefeitos de sabe-se lá quantas cidades e um "empresário" que se fosse filiado ao PCC não surpreenderia ninguém. Veteranos conhecedores do Parlamento asseguram que esta é a pior de todas as legislaturas de que têm memória, pior até do que aquelas que, dizimadas pelas cassações da ditadura, foram completadas por suplentes que receberam nas urnas algumas centenas de votos.
Nem na democracia de fachada montada para manter as aparências no regime militar, o aviltamento do Legislativo foi tamanho - agora em parceria com um governo que critica, acertadamente, a negociação das autoridades paulistas com a bandidagem, mas faz o mesmo com os delinqüentes da política, para deitar raízes no Poder. Até os Marcolas do Partido do Crime invocam a corrupção de Brasília como circunstância atenuante para os seus delitos. O resultado dessa ruína moral, combinada com a indiferença pelas realidades da rua, é a miséria da política.