O GLOBO
A incerteza que bateu esta semana nos mercados financeiros mundiais levanta a dúvida: será que o melhor momento está passando? Em uma entrevista feita tempos atrás com a diretoria do Banco Central ouvi a frase: "Estamos aproveitando o tempo bom para consertar o telhado." O problema é que só uma parte do telhado foi consertada, aquela que produziu o número divulgado ontem por Altamir Lopes do Banco Central: a menor dívida externa em 11 anos.
O Brasil aproveitou o melhor do bom tempo da economia internacional nos últimos quatro anos para fazer o ajuste externo. Os indicadores externos são infinitamente melhores hoje do que há quatro anos, quando o país se preparava para a eleição presidencial: a dívida externa é menor — pública e privada — temos o maior volume de reservas cambiais do passado recente, o país encerrou a série longa de acordos com o FMI, pré-pagou dívida ao Fundo, ao Clube de Paris e resgatou títulos em mercado. Essa parte do telhado foi muito bem reformada, com a alavanca produzida pelas exportações que dobraram em quatro anos produzindo um superávit comercial de US$ 45 bilhões por ano.
Mas durante a semana um temor rondou o mercado: o de que pudesse estar saindo o primeiro sinal avançado de um momento de inflexão:
— Acho que pode estar ocorrendo isso sim. Nada vai mudar amanhã, nenhuma crise ocorrerá de uma hora para a outra, mas tudo ficará um pouco pior agora. E, dependendo da força do evento, os problemas da economia brasileira, aos quais ninguém estava dando muita atenção, começarão a ser notados — disse o economista José Alfredo Lamy.
As medidas que nos últimos dias foram anunciadas e defendidas tanto pelo ministro da Fazenda quanto pelo presidente do Banco Central não mudarão rapidamente o quadro da excessiva valorização do real, mas podem reduzir o custo das empresas.
Se o mundo estiver entrando numa área de turbulência, o dólar subirá naturalmente mantendo a rentabilidade do exportador. O problema é se a demanda mundial vai ser mantida no mesmo nível dos últimos anos.
Alguns bancos estão prevendo que a inflação este ano pode ficar até abaixo da meta, em torno de 4%. Mas é bom lembrar que parte da queda da inflação foi conseguida por causa da valorização do real. Uma recuperação da moeda americana mudaria isso?
Se mudar, o Brasil passou pelo melhor da temporada sem ter resolvido nem os dilemas que aprisionam sua política econômica de curto prazo. Não consegue manter no ar os três pratos: inflação baixa, dólar equilibrado e juros baixos.
Pode ter sido só uma semana de mau humor, mas há muito tempo o risco-Brasil não sobe tanto. Voltou ao nível dos 260 pontos.
Nada dramático, mas é bom lembrar a dinâmica da alta do risco-país: tem pouco a ver conosco mesmo. Esta semana foi uma das piores do passado recente, com a maior cidade do país vivendo um clima de guerra. Não foi o que elevou o risco-país. Ele subiu por causa das dúvidas que cercaram o mercado mundial após um comunicado pouco entendido do Fed, banco central americano, e uma alta dos preços ao consumidor nos Estados Unidos.
Pode não ser esse o fim do bom ciclo da economia mundial, mas é bom lembrar a proposta de consertar o telhado nos dias de sol.
O Brasil avançou pouco nos últimos quatro anos na lista das tarefas para garantir um crescimento mais sustentável.
Todos os obstáculos continuam onde estão: carga tributária alta demais pesando sobre os contribuintes, gastos públicos correntes em crescimento a taxas anuais insustentáveis, colapso da capacidade de investimento do estado, deterioração da infra-estrutura. O que o Brasil cresceu nos últimos anos foi devido às reformas feitas anteriormente, aos esforços dos empresários por produtividade e ao aumento da demanda da economia internacional. Não plantamos novos avanços futuros.
Já nos esquecemos como é difícil navegar em meio a uma crise externa. O governo atual não enfrentou uma turbulência daquelas que abalaram o governo anterior. Há boas razões para se duvidar da firmeza na condução do barco no meio de uma tempestade. Felizmente, a maior chance é de que essa seja apenas uma má semana.
Há vários sinais preocupantes na economia. O governo está preparando mais uma abertura de cofres para o setor agrícola sem nem separar as culturas que estão bem, das que estão de fato em crise. O próprio ministro da Fazenda acha que alongar uma dívida que já é concedida a juros subsidiados não representa custo fiscal. Prepara também medidas para ajudar as montadoras, o setor de autopeças, os calçadistas. E esta lista, se for aberta, é infinitiva.
O Brasil está chegando ao fim de quatro anos exuberantes da economia mundial, em que a maioria das commodities exportadas pelo Brasil, metálicas e agrícolas, tiveram excelentes preços, com vários setores pedindo para irem para o estaleiro do socorro federal. Quando o natural seria que a economia tivesse se fortalecido para enfrentar os momentos menos favoráveis.
O telhado está longe de estar consertado. O que nos resta a fazer é torcer para que a semana tenha tido apenas uma chuvinha de verão sem conseqüência e que não seja o começo da inversão de tendência da economia mundial.
Entrevista:O Estado inteligente
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