Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, maio 19, 2006

IGOR GIELOW Procura-se um Churchill

folha
 BRASÍLIA - Acima da cacofonia de tolices proferidas por agentes públicos, políticos, jornalistas e comentaristas afins desde o começo da atual crise da segurança em São Paulo, um silêncio se destaca: o de José Serra.
Como político oriundo da cidade central da crise, uma declaração seria desejável. Como candidato a administrar exatamente a área afetada, a fala é obrigatória. A omissão é inexplicável -não havia falado até a confecção destas linhas; se o fez depois, o atraso é injustificável.
A teoria conspiratória em voga é a de que seu sumiço tenha a ver com o desejo de virar o candidato tucano à Presidência, deixando Alckmin afundar no caos. A idéia parece estúpida, porque o barco tucano-pefelê é um só, mas, mesmo que fosse verdadeira a teoria, um Serra presidenciável teria a obrigação de falar. Outra opção, a de que sumiu para não ter seu nome associado ao momento, é tão ruim ou pior à sua imagem.
Talvez seja querer demais pedir civilidade política em um país no qual a vida na crise atual vale um chiclete -pouco mais de R$ 1, fazendo uma matemática cretina relacionando os quase 200 mortos desde a sexta passada com os R$ 200 recebidos pelo técnico de som que vendeu o depoimento dos delegados ao PCC.
O caso da venda, aliás, é eloqüente. Trabalhando num Congresso que exala corrupção, talvez nada seja mais natural que aceitar uma pequena propina, como ele definiu, irrefletida. O resultado está nos necrotérios.
Com tudo isso, como citou Demétrio Magnoli nesta Folha, não é à toa que a reação das classes média e alta paulistana tenha sido vergonhosa. Até o vetusto governador Cláudio Lembo, na inusitada entrevista em que posou de esquerdista, criticou as "dondocas" da "elite branca".
Em um artigo brilhante, Magnoli lembrou comparativamente a fibra dos britânicos sob a blitz nazista. Indivíduo não faz história sozinho, claro, mas, sem Winston Churchill liderando a resistência, talvez a comparação não fosse possível. Infelizmente, não há Churchills entre nós.

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