Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, maio 02, 2006

Do companheiro Morales para o companheiro Lula


O presidente cubano Fidel Castro é o mais antigo ditador do mundo ainda no pleno exercício de suas funções. O presidente venezuelano Hugo Chávez se julga a nova encarnação do general Simon Bolívar, responsável no século XIX pelo fim do domínio espanhol sobre parte da América do Sul.

 

Foi com os dois que se reuniu Evo Morales poucas horas antes de nacionalizar a indústria de petróleo e de gás do seu país. Morales incorporou a Bolívia à Alternativa Bolivariana para as Américas, organismo criado por Castro e Chávez em 2004 e que pretende se opor à Associação de Livre Comércio da América Latina, proposta pelos Estados Unidos.

 

Apesar da pobreza da maioria dos seus habitantes, a Venezuela é o quinto maior produtor mundial de petróleo, o que estimula Chávez a engrossar a voz. Cuba tem açúcar e nada mais. Antes dependente da ajuda da extinta União Soviética, vive no sufoco há mais de 40 anos devido ao bloqueio comercial imposto pelos Estados Unidos.

 

Quanto à Bolívia, trata-se simplesmente da nação mais pobre da América do Sul.

 

Para se eleger, Morales prometeu, entre outras coisas, nacionalizar a indústria petrolífera. Menos de quatro meses depois de ter sido empossado, sua popularidade despencou. Na véspera de anunciar a decisão mais ousada que tomou até aqui, despistou e disse que ainda era cedo para tal. Aproveitou a data de primeiro de maio para anunciá-la.

 

Cercou-a dos adereços típicos de um nacionalismo ultrapassado – discurso no local do maior campo de extração de petróleo e de gás, apelo aos seus compatriotas para que resistam a possíveis atos estrangeiros de sabotagem, faixas estendidas com a versão boliviana do slogan "O petróleo é nosso", e a ocupação militar de 56 refinarias.

 

Foi um ato unilateral destinado a provocar forte repercussão em larga parte do mundo. Ao invés de negociar com as empresas estrangeiras condições mais vantajosas para permitir que  continuassem operando na Bolívia, Morales preferiu correr o risco de rasgar acordos comerciais firmados há muitos anos.

 

Entrou para a História pela contramão. Empolgado com a reação dos bolivianos, Morales apressou-se a antecipar que em breve pretende nacionalizar os principais recursos naturais do seu país – minérios, florestas e terras. "É assim que se constrói um novo modelo econômico", disse ele.

 

É assim também que se constrói um desastre.

 

A Bolívia não pode se dar ao luxo de dispensar investimentos estrangeiros. Doravante, quem se sentirá seguro para aplicar ali o seu dinheiro? Chávez, sozinho, não bancará a aventura de Morales. Castro não tem um tostão para isso. E à caça de um novo mandato, Lula está impedido de demonstrar a mais remota simpatia pelo gesto de Morales.

 

Quando nada porque os interesses brasileiros na Bolívia foram duramente afetados. A Petrobrás aplicou desde 1996 naquele país algo como US$ 3,5 bilhões para explorar petróleo e importar gás. É a maior empresa da Bolívia, responde por 15% do seu Produto Interno Bruto e toca suas maiores refinarias.

 

O governo brasileiro deixou-se levar pelo entusiasmo que lhe despertou a eleição de Morales. Uma medida disso está no trecho final do discurso feito por Lula no dia 30 de novembro último na província argentina de Puerto Iguazú. Morales ainda não havia sido eleito. Disse Lula traindo sua megalomania:

 

- Aí chega você, [Kirchner] que não estava previsto ser presidente da Argentina, chego eu, que não estava previsto ser presidente do Brasil, e a gente começa a perceber o que está acontecendo na América do Sul.  (...) Imagine o que significou a eleição do Chávez na Venezuela; imagine o que significa se o Evo Morales ganhar as eleições na Bolívia.

 

No dia 8 de fevereiro passado, foi a vez de Marco Aurélio Garcia, assessor de Lula para Relações Internacionais, revelar a cegueira do governo diante do que se desenhava na Bolívia. Pouco antes de voar a La Paz para discutir mudanças no contrato da Petrobrás com o governo Morales, Garcia disse que o Brasil não tinha por que se preocupar com o assunto.

 

- Existe um ambiente de negociação muito tranqüilo entre os dois países – garantiu.

 

Não havia. Morales dera todos os sinais de que procederia como de fato procedeu.

 

Lula deve ter pensado que se arranjaria com Morales na base do gogó – afinal foi com o gogó que conseguiu escapar quase ileso do efeito devastador do escândalo do mensalão.

 

Resultado: o companheiro Morales passou a perna no companheiro Lula.

Enviada por: Ricardo Noblat

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