Entrevista:O Estado inteligente

domingo, maio 21, 2006

A desculpa de Lula Suely Caldas *

OESP



Em dois pronunciamentos nos últimos dias, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva culpou seus antecessores pelas revoltantes cenas de violência vividas em São Paulo. "Vocês viram o que aconteceu em São Paulo. Na década de 80 os bandidos de hoje tinham 4 a 5 anos de idade. Se eles tivessem tido educação, certamente seriam hoje pessoas de bem, estariam dando aulas", afirmou Lula, sexta-feira, em Natal (RN). Já virou rotina o presidente tirar o corpo fora em situações difíceis, não assumir a responsabilidade de seu cargo, transferi-la para quem se sentou em sua cadeira, encontrar culpados para encobrir erros de seu governo. Lula nunca viu nem ouviu falar do mensalão, foi traído pelos companheiros petistas, que ele elogia, apesar da "traição". Na crise da segurança em São Paulo, como os antecessores não investiram em educação, os homens do PCC não tiveram chance de estudar e viraram bandidos. Omissão não cai bem na figura de um estadista!

Desculpa esfarrapada. Lula não sabe do que está falando. Se, ao menos, consultasse assessores ou se interessasse em ler a respeito da educação no Brasil, teria evitado a gafe. Os presidentes que antecederam Lula investiram, sim, em educação, tanto que o nível de instrução da população pobre deu saltos expressivos entre 1970 e 2004, comprovados em excelente estudo de dois reconhecidos especialistas dos dilemas sociais no Brasil - Roberto Cavalcanti de Albuquerque e Sonia Rocha - apresentado no Fórum Nacional do ex-ministro Reis Velloso, na semana passada. O estudo constata: em 1970, da parcela pobre da população só 5,3% tinham quatro ou mais anos de instrução; 34 anos depois, em 2004, os que estudaram quatro anos ou mais já eram 66,3% do total dos pobres. O que os estudiosos questionam hoje não é mais o acesso à educação, que deixou de ser problema, é a qualidade do ensino, a qualificação dos professores, o combate ao analfabetismo funcional.

"Eis os números do que se poderia chamar uma verdadeira revolução educacional na população pobre do país. Seu impacto na redução da pobreza não foi maior devido ao insuficiente crescimento da economia, nas últimas duas décadas, e seus reflexos sobre a criação de emprego", escrevem os dois pesquisadores no trabalho intitulado Vez e Voz aos Pobres - uma nova política social. A avaliação de Lula é rudimentar, simplista, nem sequer tangencia as causas da violência e do avanço do crime organizado, que não são poucas. Em 1970 o Brasil era mais pobre e analfabeto e menos violento do que é hoje.

A pobreza certamente é um mal presente na grande maioria dos conflitos sociais. Para superá-la, lembram Roberto Albuquerque e Sonia Rocha, é fundamental criar políticas públicas que combinem o tripé educação-desenvolvimento-crescimento econômico. E nos últimos 30 anos, ao contrário do que diz Lula, deste tripé foi a educação que marchou à frente. A superação da pobreza depende, em boa parte, da capacidade de a economia gerar empregos e oportunidades de crescimento individual para a parcela da população socialmente excluída. Os programas de transferência de renda do tipo Bolsa-Família, sem dúvida, têm papel importante num primeiro momento, mas eles devem ser transitórios, funcionar de forma emergencial e estimular o cidadão a buscar autonomia financeira para ele e sua família. Mas, se nem os menos pobres e mais esclarecidos conseguem emprego, como os excluídos irão consegui-lo?

Só a economia em expansão contínua, sem interrupções, é capaz de gerar empregos em quantidade suficiente para incluir os excluídos. E, nesse particular, Lula pouco tem ajudado. Seu governo não soube tirar proveito da recente prosperidade econômica no mundo, quando países como China, Índia, México, Chile, Argentina cresceram acima de 5%, em 2005, e o Brasil ficou na lanterna, à frente só do Haiti.

Além dos avanços na educação, os antecessores de Lula também trabalharam para reduzir a pobreza, que atingia 68,4% da população em 1970 e 30% no início dos anos 1990. Com o Plano Real de seu maior desafeto, FHC, o porcentual de pobres recuou para 20% e se mantém até hoje.

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