Entrevista:O Estado inteligente

sábado, outubro 08, 2005

ZUENIR VENTURA Só na pressão

o globo


Passar quase um mês fora sem saber o que acontecia no Brasil, a não ser por meio de notícias pingadas, e encontrar na volta Roberto Jefferson cassado, Maluf na cadeia e Severino afastado da presidência da Câmara não deixa de ser uma experiência animadora, parecendo anunciar novos tempos — pelo menos até se olhar para o que não foi feito. Entre nós há sempre um "por outro lado" para baixar a bola, dificultando medir o quanto se avançou ou se recuou.


Continuo achando que essa crise, apesar de tudo, é mais positiva do que qualquer outra foi. É crise de amadurecimento, de perda de inocência e ilusões, de queda de mitos, de fim de utopias. Ouvi na TV o professor Denis Rosenfield afirmar que só agora caiu o Muro de Berlim aqui. A ironia é que foi derrubado sem querer pelo próprio PT. Reivindico a prioridade de ter escrito que "o PT no poder fez pela direita o que a própria direita não foi capaz de fazer. E produziu na esquerda mais estragos do que a repressão".

Em matéria de pedagogia política aprendeu-se muito com o "partido da ética" conduzindo o país. Em quatro meses, o Brasil escancarou as entranhas, mostrou as partes podres e melhorou, na medida em que melhora qualquer organismo submetido à extirpação de um tumor.

Mas, por outro lado, ainda no avião, lendo as notícias sobre as manobras do governo, a escandalosa eleição do novo presidente da Câmara, as tentativas de livrar a cara de cassáveis, tive a conhecida sensação de que tudo parecia estar mudando para ficar como estava. Afinal, avançaram muito pouco as investigações, apesar da avalanche de indícios fornecidos pelos depoimentos, extratos bancários, cheques, cueca e malas. Salvo engano de quem está chegando, é pouco apresentar como provas materiais de tanta corrupção apenas a propina de R$ 3 mil para o diretor dos Correios e o Land Rover para Sílvio Pereira. Não é não?

E a grana, que correu como enxurrada pelo valerioduto, não dá para saber de onde veio? Num país onde é tão fácil sonegar, usar caixa 2, fazer remessas ilegais para o exterior, como se explica ser tão difícil para a Receita, a PF, o BC descobrirem como isso é feito? Pode-se alegar que as CPIs não terminaram o trabalho, é verdade. Mas, de qualquer maneira, foi pouco resultado para tanta promessa de faxina feita.

A dez mil metros de altitude comecei a sentir cheiro de pizza, que em terra aumentou, dando a impressão de que ela só não irá para o forno se houver clamor popular. Essa foi outra lição da crise: não é o zelo pelo decoro que faz os parlamentares punirem os colegas culpados, mas o medo da opinião pública. A Câmara dos Deputados é como chope: só na pressão.

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