o globo
O rápido sopro de crise que passou pelo Brasil esta semana serve para lembrar que nada deve ser tomado como já conquistado. A clara melhora nos vários indicadores econômicos não esconde algumas grandes distorções, como a maior taxa de juros do mundo num dos melhores momentos da economia. Parte do que parece sólido hoje, pode se dissolver se houver algum período de dificuldade na economia internacional.
O que há de concreto por enquanto é o aumento da preocupação em relação à economia americana: nos Estados Unidos, a inflação tem subido, a produtividade está em baixa e os custos deixados pelos furacões ainda não foram absorvidos. Isso vai aumentar a taxa de juros além do previsto inicialmente nos EUA, o que pode levar a mudanças nas carteiras dos grandes investidores, provocando oscilação dos ativos brasileiros.
A alta do dólar entre terça-feira e quinta-feira foi, em parte, puxada pelo Banco Central, que tem limites para sua ação. O economista John Welch, na análise semanal do banco Lehman Brothers, diz que não acredita que o real esteja sobrevalorizado. Em abril, quando o câmbio estava a R$ 2,60, o banco calculava que a taxa de equilíbrio seria R$ 2,20. Agora acha que está no preço; não acredita nas projeções de que o real esteja 15% sobrevalorizado, portanto aposta num câmbio estabilizado.
O Bradesco interpretou os dados divulgados ontem de desemprego nos Estados Unidos como sinal de que a desaceleração pós-Katrina será apenas temporária e que a perda de produto este ano, provocada pelo furacão, pode ser compensada no ano que vem pelo aumento dos gastos públicos na recuperação. O índice de confiança do consumidor e dos empresários caiu fortemente por lá, os preços da gasolina subiram bastante, mas este é o pior momento, lembra o banco brasileiro; os próximos indicadores vão informar a dimensão da desaceleração americana.
O importante neste caso é ver que os ventos da economia internacional podem mudar de uma hora para outra e isso afeta diretamente o quadro interno. Em momentos de aversão a risco, tudo é motivo para o investidor fugir. No próximo ano, seis países latino-americanos estarão passando por processos eleitorais e isso deve produzir ondas de desconfiança, dependendo dos fatos nos países. O Brasil vai ter uma eleição mais incerta do que se achava que teria meses atrás, antes da crise, mas a região ainda é varrida por problemas como guerrilha, levantes populares e gestos espetaculosos como os de Hugo Chávez que, nos últimos dias, fechou grandes multinacionais e declarou quase todas as terras do país improdutivas. A Venezuela, que o presidente Lula acha que tem democracia em excesso, vive enfrentando as arbitrariedades de um governante que consegue apenas aumentar a desconfiança dos investidores venezuelanos e estrangeiros, que aprofunda a pobreza do país, como têm mostrado as estatísticas do país. Em momentos em que surge o pessimismo, a análise dos investidores mistura tudo: um país em que um grande escândalo político ruma para uma enorme pizza e cujo presidente acha que democrático mesmo é o vizinho que estatiza as terras e fecha multinacionais.
Para nós, o importante não é avaliação de risco, sempre tão superficial e tão volátil, dos investidores internacionais. O que é fundamental para o Brasil é que o esforço do país para atingir tantos avanços recentes não se perca por uma crise política que foi enfrentada de forma tão inábil pelo governo e que pode deixar no eleitor a sensação de que os políticos são todos assim mesmo como se viu nas cenas das CPIs: no fim, eles renunciam para voltar impunes ao mesmo Congresso. Se for esse o fim desta trágica história do ano de 2005, será uma perda infinitamente maior do que certas ondas de perda de ativos no mercado financeiro.
O governo está em plena campanha eleitoral e mostra que está disposto a pagar qualquer preço pelos seus ícones na campanha. Durante 34 meses, o governo não conseguiu sequer fazer a primeira licitação para uma PPP, que foi apresentada como a alternativa que se tinha às privatizações. Mesmo assim, faltando apenas 15 meses para o fim do mandato, corre com o projeto mais polêmico do Brasil, o da transposição do Rio São Francisco. A ministra Marina Silva não deixou dúvidas quando assinou junto com os ministros Ciro Gomes e Miguel Rosseto: o Ibama dará o aval. O artigo a seis mãos antecipa o veredicto do órgão, que existe supostamente não para liberar obras que interessem eleitoralmente a um partido, mas para proteger o país das tantas ameaças ambientais. Há muitas dúvidas sobre o projeto, há dúvidas de gente de peso, há riscos claros para um rio já fragilizado.
O cálculo do governo é o seguinte: a crise será esquecida, o dinheiro represado será gasto na etapa final do mandato, os juros vão cair e as obras serão iniciadas para dar uma demonstração de país em atividade e, com isso, aumentam as chances de reeleição.
A melhor solução seria: a crise enfrentada, os culpados punidos, o governo ampliando os gastos responsavelmente sem comprometer as próximas administrações com obras polêmicas e dispendiosas, os juros caindo porque estão altos mesmo e a inflação mantida baixa por confiança na autonomia do Banco Central para reverter qualquer risco inflacionário. Poderia atingir seus objetivos mais facilmente assim, mas o governo prefere fazer política à velha moda.
Entrevista:O Estado inteligente
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