Quando um dos deputados acusados, que sacou dinheiro ilegal na boca do caixa do Banco Rural, declara às câmeras de TV que tudo não passa de uma disputa política e que o governo age corretamente quando se solidariza com eles, alcançamos um nível de instrumentalização da luta política na validação do crime que ultrapassa os limites do campo do diálogo democrático.
Quando o líder do PT na Câmara dos Deputados, interpretando as orientações do presidente da República (e talvez cometendo um ato falho) declara que Lula conclamou a todos a comparar os dois governos – como se tudo não passasse de uma disputa entre o atual governo e o anterior e não do mais formidável esquema de corrupção de nossa história que foi revelado por denúncias provenientes da própria base aliada – então, definitivamente, não é mais possível crer que o interlocutor seja confiável e, assim, não há mais esperança no diálogo democrático.
Quando o ministro encarregado da articulação política acusa uma CPI – a única em que o governo não tem maioria, a dos bingos – de não estar se dedicando a apurar as denúncias e sim a destruir o PT, então estamos diante de uma violação da autonomia do poder legislativo, de uma ação deliberada do governo para desacreditar as instituições e dificultar as apurações e, portanto, diante de um governo que não se importa mais com a sua legitimidade e se transformou numa força particular de combate em prol dos interesses de um grupo privado, não havendo, dessarte, qualquer possibilidade de diálogo democrático.
Tudo isso aconteceu hoje.

Foto: Ricardo Stuckert/ABr
Presidente Lula, o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, o líder no governo Arlindo Chinaglia e o ministro das Relações Institucionais, Jacques Wagner, durante reunião no Palácio do Planalto com a bancada do PT na Câmara.
A direção do PT recuou em mais uma promessa e decidiu oferecer um acordo aos deputados "cassáveis" do partido com o objetivo de abreviar a crise política. Depois de assegurar que não permitiria as candidaturas dos parlamentares que renunciassem para escapar da cassação, a cúpula do partido agora propõe justamente uma troca entre a saída desses deputados e o uso da legenda. Segundo reportagem publicada nesta sexta-feira pelo jornal O Estado de S. Paulo, o acordo foi costurado na quinta-feira. Seis deputados petistas ameaçados de cassação renunciariam ao mandato logo, antes que o processo contra eles chegasse ao Conselho de Ética da Câmara. Como contrapartida, o partido garantiria a todos o uso da legenda e apoio para disputar a eleição do ano que vem, e retornar à Casa na legislatura que começa em 1º de janeiro de 2007. Os seis que poderão fugir da cassação e renunciar são João Magno (MG), João Paulo Cunha (SP), José Mentor (SP), Josias Gomes, Paulo Rocha (PA) e Professor Luizinho (SP). Nenhum admite publicamente a hipótese de renúncia, mas alguns já teriam dito aos colegas, inclusive membros do Conselho de Ética, que podem abandonar o mandato se tiverem garantia de uso de legenda pelo PT. Reunião - Nesta sexta, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu com a bancada petista da Câmara e se solidarizou com os parlamentares "cassáveis". Segundo o ministro das Relações Institucionais, Jaques Wagner, que participou do encontro, Lula afirmou que os deputados acusados de quebra de decoro podem ter errado, mas não são corruptos. Na saída da reunião, os "cassáveis" negaram o acordo para a renúncia. "Eu não cogito renunciar. Quero saber primeiro sobre minhas acusações", disse Mentor. Rocha afirmou que "ainda é cedo" para decidir se vai renunciar ao mandato. Já Professor Luizinho disse que não deve nada, "por isso, não tenho motivo para renunciar". JB Lula e bancada do PT buscam maior proximidade
BRASÍLIA - Abertura de diálogo pelo governo em relação à bancada do PT e mais empenho da bancada em prol dos projetos importantes para o governo. Esse foi o saldo do encontro que reuniu nesta manhã o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e 66 deputados federais do Partido dos Trabalhadores.
No Palácio do Planalto, a reunião teve também a presença dos ministros da Articulação Política, Jaques Wagner; da Casa Civil, Dilma Rousseff; e da Fazenda, Antonio Palocci, além do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Atualmente, a bancada petista tem 83 deputados.
O presidente Lula pediu mais esforço da bancada aliada na aprovação de projetos considerados relevantes, como o Projeto de Lei Complementar 210/04, que trata das microempresas, e a Proposta de Emenda à Constituição 415/05, que cria o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb).
Os parlamentares, por sua vez, pediram que o governo ouça as sugestões da bancada com mais freqüência. Segundo o líder do PT, deputado Henrique Fontana (RS), houve queixas em relação às medidas provisórias. Algumas delas só chegam ao conhecimento dos deputados quando já estão na pauta de votações, argumentaram. Por essa razão, o governo deverá abrir canais de comunicação para evitar tais contratempos.
No que se refere à execução orçamentária, os petistas pediram a Lula prioridade para os projetos de recuperação de rodovias. Segundo os deputados, trata-se de uma reivindicação unânime dos estados.
Numa reunião em que todos os parlamentares tiveram a oportunidade de falar, houve manifestação de solidariedade aos sete deputados do PT ameaçados de cassação. O gesto partiu do deputado Maurício Rands (PT-PE). Segundo o ministro Jaques Wagner, o presidente Lula respondeu que esses parlamentares podem ter errado, mas não são corruptos.
À saída do encontro, o deputado Professor Luizinho (PT-SP) foi enfático ao negar que vá renunciar ao mandato. "Não devo nada, por isso não tenho motivo para renunciar."
A reunião, que foi solicitada pelo PT, deverá se tornar um hábito, ressaltaram alguns deputados. O próximo partido a ser recebido pelo presidente será o PSB, mas a data ainda não foi marcada.