O GLOBO
O mercado entrou numa fase de ajuste que assustou muita gente que estava achando que a onda boa duraria para sempre. O primeiro dia ruim tinha uma explicação óbvia: era realização. Afinal, o lucro só existe após a venda. Mas ontem já era o terceiro dia e os ativos caíram de novo. Há vários temores no ar: inflação americana alta, juros americanos poderão subir mais, bolsas externas caíram muito nas últimas semanas.
— As bolsas de outros países caíram tanto que já zeraram o ganho do ano, mas, no Brasil, continuava subindo. O mercado dizia que o Aldo havia ganhado a eleição e que isso significava que a crise estava acabando, mas uma hora tinha que chegar aqui — afirma Luís Fernando Lopes, do Banco Pátria.
Mas o que realmente está chegando? O economista diz que não é o investidor mudando a cabeça em relação ao Brasil, mas, sim, um ajuste comandado pelo investidor externo, que quer reduzir a sua exposição ao risco.
Mercado é assim: muda de humor com uma facilidade enorme. Num mundo globalizado, há muitos fatos que se interligam e provocam reações em cadeia. As empresas Ford e General Motors, que já haviam sido rebaixadas pelas agências de risco, estão com resultados ruins. Isso detonou um processo de venda de ações de alto retorno ( high yield ) e, conseqüentemente, também de países emergentes. Explicando melhor: o mercado de high yield (ações que dão lucro mais alto por serem ou de empresas grandes com problemas, ou de empresas médias dispostas a pagar lucros maiores aos seus investidores) normalmente é conectado com o de países emergentes. Quando o investidor não tem medo de risco, está com apetite por lucro, ele investe muito no mercado de high yield e nos emergentes com juros altos, como o Brasil, por exemplo. Quando começam a ter medo de mudanças na economia mundial, a primeira coisa que fazem é vender esses papéis.
— Não acho que seja saída desse tipo de investimento, mas apenas uma mudança de portfólio — avalia Luís Fernando Lopes.
Nos últimos dias, alguns economistas de grandes bancos internacionais começaram a dizer, nas suas análises, que as coisas não estavam assim tão boas. O economista-chefe do Citibank, Robert DiClement, escreveu que a inflação está mais tangível na economia americana e, por isso, o banco elevou a taxa de juros prevista para os Estados Unidos para 5%. Byron Wien, do Morgan Stanley, escreveu algo curioso: "A idéia de que nada importante iria acontecer e que os investidores não tinham que se preocupar muito parece ser dominante, mas o meu trabalho é me preocupar."
E ele se preocupa porque há vários problemas no horizonte. O furacão Katrina provocou custos na economia projetados em US$ 200 bilhões, oito vezes mais que o Andrew de 1992. O corte de gastos não será suficiente e, parte disso, vai alimentar a inflação dos EUA, que, a propósito, já estava subindo antes da onda de furacões. Em junho, a inflação ao consumidor em 12 meses estava em 2,5%; em agosto, já havia subido para 3,6%. O fato de o FED ter continuado a subir os juros, mesmo após o desastre, mostrou que o Banco Central estava mais preocupado que o resto. Para piorar, a produtividade está caindo e isso significa mais inflação. A explicação que Alan Greenspan sempre deu para não subir juros — na época em que estavam bem baixos — é que a produtividade crescente permitia crescimento sem inflação. Pois bem, agora a inflação está subindo, pode subir ainda mais pelo efeito retardado dos furacões, e não há, neste momento, o aumento da produtividade para acomodar as pressões por reajustes de preços.
Alex Agostini, da Global Invest, lembra que a inflação está no mesmo nível que em 2000, quando os juros estavam em 6,5%. Portanto, todos os estudos estão levando ao mesmo resultado: mais risco inflacionário, mais juros nos Estados Unidos, mais aversão a risco; o que pode reduzir a entrada de capital em relação a países como o Brasil.
Não é um início de crise. Nem há razão para aquela euforia sobre a economia brasileira, como se ela estivesse definitivamente forte para enfrentar qualquer problema, interno ou externo; nem deixa de ser verdade que nossos indicadores agora são melhores do que em qualquer crise recente.
Nos últimos três dias, a bolsa caiu 8,3%. É uma queda importante, mas que não chega a zerar os ganhos do ano: ela ainda acumula 11,5% de crescimento. Porém, até o início da semana, a Bovespa apresentava 21,6% de alta em 2005. O dólar subiu, nestes três dias, 2,7% e o risco, que chegou a alcançar os 338 pontos na segunda-feira, fechou a quinta-feira em 384.
É apenas um movimento de mercado. O grande problema em momentos assim é quando há um comportamento de manada. Nos últimos meses, os grandes investidores, que fazem a tendência do mercado, compravam as mesmas ações e as mesmas moedas. Há três dias, os investidores vendem as mesmas ações e as mesmas moedas. O risco é quando o investidor pequeno começa a temer o movimento e entra na manada. Isso aumenta as perdas.
Por enquanto, é ficar de olho neste, como se diz na minha terra, "mundo velho sem porteira". Há vários fatos novos entrando nas análises e nas decisões de quem mexe com o valor dos ativos.
Entrevista:O Estado inteligente
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