A geração de empregos com carteira assinada só começa a ser expressiva no Brasil quando o crescimento econômico passa de 3,5% ao ano (e a renda média dos brasileiros evolui pelo menos 2,5%). É o que mostram as estatísticas do IBGE e do Ministério do Trabalho desde que o país conseguiu domar a inflação. Um crescimento como o de 2005 (3,5%) pouco altera o quadro social.
No momento, não há condições para o Brasil crescer em ritmo acelerado (na faixa de 6% a 7% ao ano, por exemplo), mas muitos economistas acham bem possível o país sustentar uma expansão do seu Produto Interno Bruto (PIB) em torno de 4,5% pelos próximos cinco anos, o que faria a renda média dos brasileiros aumentar em cerca de 3,5% ao ano.
O crescimento do mercado formal de trabalho melhora as contas da previdência social, reforça a arrecadação de impostos e permite que muitos brasileiros marginalizados se tornem cidadãos de fato.
Para que o país sustente uma expansão anual de 4,5% no PIB, a dívida pública precisará diminuir e isso somente ocorrerá para valer quando as taxas de juros que o Tesouro Nacional paga por seus títulos recuarem para 8% em termos reais.
A dívida pública, descontados os créditos que União, estados, municípios e suas empresas têm a receber, corresponde a pouco mais de 51% do PIB. Por causa dos juros altos, a dívida este ano ficou parada nesse patamar, apesar de o setor público ter feito uma brutal poupança (o superávit primário) para pagar os encargos que incidem sobre o endividamento. A parcela da dívida em dólares diminuiu, porque o real se valorizou frente às demais moedas estrangeiras e porque o Tesouro resgatou uma parte desse endividamento — aproveitando a grande oferta de dólares no próprio mercado brasileiro.
Mas a dívida interna, em reais, aumentou. Para acumular esse superávit primário, o setor público sacrificou todo tipo de investimento. Em 2005, os investimentos da União não significarão mais do que 0,6% do PIB. No fim do governo Fernando Henrique Cardoso já estavam em queda, mas ainda representavam 2% do PIB.
Os especialistas dizem que o país precisa investir em infra-estrutura de 4% a 6% do PIB para viabilizar o crescimento da economia por um longo período. Daí a angústia para que os juros básicos caiam o quanto antes. Se os juros reais caírem para 8%, e como a dívida corresponde a 51,8% do PIB, um superávit primário de 4% do PIB é suficiente para estancar o endividamento.
Objetivos de política econômica geralmente são conflitantes. Domar a inflação, com contas externas positivas e crescimento acelerado, é uma situação ideal, mas na prática muito difícil de acontecer.
Agora que a inflação recuou para as metas pretendidas pelo governo e as contas externas brasileiras estão prá lá de positivas, não é nenhum absurdo que a política econômica busque um crescimento de 4,5%. Um crescimento dessa ordem nem pode ser classificado como acelerado.
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A mineração, que é uma das principais, senão a principal, atividades econômicas da África do Sul tem enfrentado sérios problemas porque as empresas e as comunidades em que estão inseridas ainda não estabeleceram novas regras de relacionamento compatíveis com a era pós apartheid . Muitas minas se situam dentro de áreas urbanas, envoltas por enormes rocinhas planas. Como são grandes empregadoras, as empresas de mineração atraem trabalhadores de todas as partes do país, que longe das famílias vivem em albergues para solteiros. Às vezes são de tribos ou etnias diferentes, adversárias, e os conflitos e a violência se tornam incontroláveis. Na África do Sul há onze idiomas oficiais (fora os dialetos)!
Nos tempos do apartheid as relações de trabalho eram próximas à escravidão. Mas com o fim desse regime de segregação odiosa, o quadro mudou para o paternalismo, e várias mineradoras de ouro fecharam porque seus custos ficaram incompatíveis com o padrão da indústria.
Vendo o negócio se deteriorar, a terceira mineradora de platina do mundo, a Lonmin, com cerca de 25 mil empregados, resolveu contratar especialistas para ajudá-la a sair desse impasse. E lá desembarcou então uma equipe da consultoria americana Landmark Education Business Development, formada por pessoas com experiência em todos os cantos do mundo, entre as quais a carioca Olga Loffredi, que responde pelos negócios na América Latina. A África do Sul é hoje chamada de país do arco-íris, por ser multirracial, de modo que a consultoria optou por uma equipe composta de diferentes nacionalidades. Desde o início do ano Olga viaja uma vez por mês para a África do Sul e está animada com os resultados obtidos. Diz que não fizeram ainda 1% do que é possível, e o índice de satisfação com a empresa saltou de 20% para 50%. Um contrato coletivo de trabalho foi assinado com três sindicatos por cinco anos, dando aos empregados participação confiável nos ganhos obtidos com os novos procedimentos na produção. Além disso, a empresa tomou iniciativas para melhorar o relacionamento com a comunidade local. Uma experiência que, na opinião de Olga, pode vir a ser aproveitada em grandes projetos na Amazônia, onde conflitos semelhantes aos da África do Sul costumam ocorrer.
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Nelson Rocha, economista e presidente da BB DTVM, a distribuidora do Banco do Brasil que administra fundos com mais de R$ 150 bilhões em carteira (é a gestora de recursos que mais cresceu no planeta nos últimos doze meses), acha que o mercado está maduro para que o Banco Central faça um experimento — não uma experiência — com os juros, derrubando-os de degrau. Só a partir disso é que se saberá como o câmbio vai se comportar de fato.