Entrevista:O Estado inteligente

segunda-feira, outubro 10, 2005

A mentira dos homens de palha Carlos Alberto Di Franco

O ESTADO DE S PAULO

 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse recentemente que o Brasil viveu os últimos 120 dias "subordinado a centenas e centenas de denúncias" e alertou que a população deve "ter cautela" para analisar os fatos. "Eu disse outro dia que as mentiras e verdades iam aparecer. O povo só precisa ter cautela, porque o denuncismo ficou solto por quatro, cinco meses. (...) O Brasil vive um momento em que as denúncias aparecem e não se concretizam. E não existe pedido de desculpa, reparação, retratação", sublinhou o presidente.

Em fina sintonia com as declarações de Lula, a Executiva Nacional do PT aprovou resolução na qual afirma que "jamais tomou conhecimento, jamais autorizou, jamais discutiu, jamais orientou o financiamento paralelo de campanhas". O contra-ataque foi uma reação do partido ao que o ex-secretário-geral Silvio Pereira disse ao jornal Folha de S.Paulo. Em entrevista àquele diário, o ex-dirigente, acusado pelo ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) de participar do esquema de caixa 2 petista, declarou que sua responsabilidade nesse caso "não é diferente da de nenhum outro dos 21 membros da Executiva Nacional". Segundo ele, todos os membros da Executiva sabiam da existência do caixa 2.

Como lembrou o jornalista Merval Pereira, colunista de O Globo, as mentiras seguidas de confissões públicas de acordos eleitorais azeitados a dinheiro; os pagamentos na boca do caixa do Banco Rural; o troca-troca de partidos estimulado a partir da Casa Civil, no que parecia uma estratégia política superior e se revelou, ao final, uma simples compra e venda de consciências; os dólares na cueca e nas malas; o pagamento recebido em contas no exterior pelo publicitário oficial do governo; tudo o que caracterizava o esquema de poder montado, de repente, virou conto da carochinha. Foi tudo armação da imprensa e da oposição.

Esbofeteia-se a verdade numa escala sem precedentes. Subestima-se a inteligência dos brasileiros. Em carta enviada à presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Lula já ensaiara o papel de paladino da luta contra a corrupção. "Todos os erros e desvios" devem ser "apurados e punidos, doa a quem doer", afirmou. Curiosamente, o presidente da República, em entrevista concedida a uma jornalista em Paris, considerou normal que as agremiações partidárias operassem com caixa 2, expediente condenado, com veemência, pelo ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos. Segundo ele, ao combater a lavagem de dinheiro, o ministério tenta desenvolver nas pessoas a consciência de que "dinheiro de caixa 2 não é dinheiro bom, não deve ser usado. (...) É preciso guardar o caixa 2 para os bandidos". O ministro declarou que já há inquérito na Polícia Federal (PF) para investigar o suposto esquema de evasão de divisas por integrantes do PT, "tanto que a relação das pessoas que sacaram dinheiro na agência de Brasília do Banco Rural foi desvendada pela PF". A polícia e o Departamento de Ativos investigam o PT em relação a recursos ilegais dentro e fora do País, disse ele. Quem, afinal, caro leitor, fala pelo governo: o presidente da República e a cúpula petista ou o ministro da Justiça?

Entre o governante e o jornalista deve existir um denominador comum: o amor à verdade e a paixão pela liberdade. No binômio ético, comprometedor e fascinante, se apóia o futuro da sociedade. Um país não é fruto do acaso. É o resultado de algumas premissas bem determinadas. O governante, com sua conduta pública e privada, educa ou deforma. O jornalista, com seu profissionalismo ético ou sua leviandade de ocasião, informa ou desinforma.

O homem tende para a verdade. Como dizia alguém, a nossa inteligência - que é como uma faísca da inteligência divina - se alimenta da verdade. E, quando esse alimento está corrompido pela mentira, experimentamos dentro de nós como que uma profunda repugnância, algo semelhante à rejeição de um corpo estranho. A falência da verdade é a principal causa da decadência de qualquer sociedade. E, em contrapartida, reerguer uma sociedade é reerguê-la primeiro eticamente, fazendo reinar nela o que há de mais essencial: o primado da verdade. Trata-se de missão essencial do governante e do jornalista.

Há em todos nós um instinto de autenticidade. A juventude, idealista e sincera, sabe confrontar o brilho do olhar limpo com a mirada opaca dos homens de palha. "O que acontecerá", escrevia Nietzsche, "quando cair a máscara?" Não ficará "mais do que um espantalho". A advertência do filósofo é de grande atualidade. Está dirigida a certos governantes que caminham de costas para a verdade.

Homens, instituições e falanges corporativas possuem o terrível poder de decapitar esperanças e de abortar projetos. Tristeza não tem fim. Felicidade, sim. A felicidade é como a pluma que o vento vai levando pelo ar; voa tão leve mas tem a vida breve. (...) A gente trabalha o ano inteiro para fazer a fantasia de Rei ou de Pirata ou de Jardineira, para tudo se acabar na quarta-feira. A nostálgica canção de Vinicius de Morais, símbolo maior da nossa poesia, não pode continuar forjando o futuro. É preciso superar a ética da omissão. A batalha da verdade e da liberdade se trava no cerne da sociedade civil: cobrando o fim da impunidade, apoiando o esforço de apuração da mídia, pressionando legitimamente as autoridades.

Paira no ar um fortíssimo cheiro de pizza. E os líderes cínicos, sem brilho nos olhos, estão rindo da sociedade brasileira. É preciso superar o esgar dos homens de palha e recuperar o sorriso generoso dos homens de bem. Eles existem. Felizmente.

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