Entrevista:O Estado inteligente

sábado, outubro 08, 2005

CLÓVIS ROSSI Quem é bárbaro mesmo?

FSP
 MADRI - Soledad Gallego-Díaz, colunista do jornal espanhol "El País", recorre à filósofa francesa Simone Weil (1909-1943) para falar da crise provocada pelo assalto de imigrantes africanos às fronteiras espanholas junto ao Marrocos: "Quando um grupo social considera a si mesmo como portador da civilização, podemos estar seguros de que trairá essa crença comportando-se como bárbaro na primeira oportunidade".
Soledad ataca a decisão espanhola de devolver ao Marrocos os imigrantes capturados em solo espanhol. Equivale a deportá-los para o deserto, deixando-os sem comida e sem água, como apontava no mesmo "El País" Philippe Tamouneke, jovem congolês. A nacionalidade do jovem mostra que os imigrantes não são marroquinos, mas vêm de boa parte da África subsaariana e vão se aglomerando no Marrocos.
O assalto à "fortaleza Europa" estende-se à Itália e a Malta. O que tem uma lógica implacável: ou a esperança vai até o mundo subdesenvolvido ou uma fatia ponderável de seus habitantes vai até ela, onde ela estiver, mesmo correndo o risco de encontrar fome, sede, a morte ou uma nova forma de desesperança.
Vale de resto para os brasileiros que, em número crescente, buscam seus próprios supostos paraísos na própria Europa ou nos Estados Unidos, mais próximos.
São vistos como os novos bárbaros, mas convém, neste ponto, voltar a Simone Weil e lembrar que o Senado norte-americano acaba de aprovar emenda que veda a prática de torturas contra os detidos na chamada guerra contra o terror.
Civilizado, não é? Seria, não fosse o escândalo de o Senado se ver obrigado a vetar o que nem deveria ter sido empregado, até porque "o abuso contra prisioneiros (...) é anátema em relação a valores que este país honrou durante gerações", como diz nota de militares que respaldaram o veto.
Tudo somado, não é tão nítida assim a nova fronteira entre civilização e barbárie.

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