Entrevista:O Estado inteligente
Touraine: Serra é continuidade Merval Pereira
O GLOBO -01/05/10
O sociólogo francês Alain Touraine, diretor de estudos da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris, foi professor do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e conhece o presidente Lula há bastante tempo, a ponto de ter atuado para que a transição de poder entre os dois se desse da maneira como ocorreu, que ele classifica de "generosa" por parte do tucano.
O sucesso do país, inclusive no campo internacional, Touraine atribui justamente a uma continuidade de projeto político, já que, numa análise mais aprofundada, ele está convencido, não é de hoje, de que os períodos de Fernando Henrique Cardoso e de Lula são parte de um mesmo projeto.
Aqui em Córdoba, onde participou da Conferência da Academia da Latinidade, Touraine me disse que o Brasil está encontrando uma maturidade como nação, com um mercado interno forte e elementos de economia avançada.
O consenso entre as forças políticas sobre a necessidade de combinar políticas realistas na economia e preocupação com a melhoria social tem prevalecido nestes últimos 15 anos, e a isso o professor francês atribui a continuidade dos avanços.
Mas Touraine acha que depois de um presidente com tanta força pessoal como Lula, "há uma certa necessidade de se retomar um processo político mais substancial".
Ele comenta que não conhece "essa senhora" (referindo-se à candidata Dilma Rousseff), "mas dizer apenas que é a candidata do Lula é uma definição vazia, é preciso preencher com uma ação política".
Pelo que tem acompanhado, Touraine acha que a figura pública de Dilma está sendo apagada pela de Lula, e não acha que essa seja uma crítica a Lula: "Ele é muito bom para ter um sucessor".
O professor francês ressalta que no Chile aconteceu a mesma coisa, Bachelet saiu com 80% de popularidade, e "o outro lado ganhou porque teve uma ação política mais substancial".
Na análise de Alain Touraine, o Brasil vem desenvolvendo um processo muito bem sucedido de ampliar seu espaço, de construir não mais um EstadoNação, "mas um Estado no mundo".
Depois de Lula ter dado ao povo a sensação de que estava realmente no poder, depois de um governo tão popular, há que se tratar de outros problemas, adverte Touraine, que defende que é preciso retomar o projeto exitoso de reorganização do país.
Ele admite que substituir um líder carismático como Lula "por um político do tipo sério como o Serra" pode ser um problema, se bem que ressalva que seu amigo Serra está menos sério do que nos primeiros anos de carreira política como economista.
Sobretudo Touraine acha que é importante retomar um projeto de institucionalização da democracia no país, e isso compreende reforçar a organização do Estado, que ele considera que foi relegada a segundo plano por Lula.
"Agora no segundo governo houve menos PT e mais Lula, e deu mais certo do que antes. Com Lula fora do governo, é um perigo o PT voltar a ter poder.
Seria melhor que ganhasse o Serra, que tem mais experiência, mais pulso forte", comenta Touraine.
O sociólogo francês continua preocupado com a reforma do Estado, que considera que avançou com Fernando Henrique e sofreu um retrocesso com o clientelismo e o empreguismo para "os companheiros" do PT.
Touraine acha que é hora de retomar as reformas estruturais de modernização do Estado brasileiro para atingir uma capacidade administrativa que ele vê no Estado chileno, para dar o exemplo regional.
Na visão de Touraine, o sentido de continuidade das políticas públicas tem marcado os últimos anos, mas os governantes não podem se satisfazer em apenas acelerar as reformas sociais que foram feitas.
O próximo governo teria que fazer reformas de estruturas nas grandes cidades, sobre o transporte, habitação, medidas que Touraine já cobrava do atual governo Lula, e Serra está mais capacitado para essa tarefa depois de ter sido governador de São Paulo.
O Brasil, após a fase que ele já chamou de "socialdemocrata moderada" e o êxito de Lula na sucessão de Fernando Henrique, está entrando na modernidade, o que permitirá uma continuidade de políticas em um ambiente institucional organizado.
Alain Touraine está convencido de que tanto Fernando Henrique quanto Lula usaram o conjunto de forças de centro-direita para organizar um sistema político que está funcionando muito bem.
A continuidade dessa política, mesmo que com diferenças de estilo de agir, é o que garante o sucesso do país, e ele considera que o candidato tucano, José Serra, pode perfeitamente representar essa continuidade mesmo sendo de oposição.
Ele acha que, já desde o governo de Fernando Henrique, o Brasil viu ampliarse sua ação no mundo, colocando-se como um dos protagonistas da nova estrutura de poder internacional.
Ele vê o Brasil como uma exceção na América Latina, mas cita o Chile e a Colômbia como países da região que estão bem colocados no novo mundo globalizado, embora não tenham a dimensão política nem econômica do Brasil, que, por isso, surge como a grande potência regional. (Amanhã, o Brasil e o mundo)
Arquivo do blog
-
▼
2010
(1998)
-
▼
maio
(213)
- O plantão do Inspetor Brasílio JOÃO UBALDO RIBEIRO
- JOAQUÍN MORALES SOLÁ Historia de cinismos y persec...
- SUELY CALDAS -Um projeto para a Previdência
- DORA KRAMER Aos trancos e barrancos
- MERVAL PEREIRA Os caminhos do poder
- MÍRIAM LEITÃO Barrados na porta
- GAUDÊNCIO TORQUATO Reforma do Estado? Viva!
- A Santa Sé também erra José Márcio Camargo
- Decisão é na urna Míriam Leitão
- NELSON MOTTA Mundo animal
- Barbas de molho Dora Kramer
- MERVAL PEREIRA Vitória do Pragmatismo
- A tubulação Miriam Leitão
- Baixa a bola, Dunga! BARBARA GANCIA
- A burla continua Dora Kramer
- Mal-entendido ou má intenção? Merval Pereira
- A volta do Capitão Palocci Rogério L. F. Werneck
- DILMA, O OVO E A GALINHA Vinicius Torres Freire
- A joia da coroa Dora Kramer
- Azar do futuro Miriam Leitão
- Azar do futuro Miriam Leitão
- Serra e o mingau quente de Lula Vinicius Torres Fr...
- Distorções Merval Pereira
- Nosso homem em Teerã Demétrio Magnoli
- Feio quanto parece Thomas L. Friedman
- O insustentável Miriam Leitão
- JOSÉ NÊUMANNE O espectro do Estado policial paira ...
- O fator Minas Merval Pereira
- Veracidade ideológica Dora Kramer -
- Uma pauta para a década Rolf Kuntz
- Energia e as eleições Adriano Pires
- Lavoura anárquica Dora Kramer
- Polarização Merval Pereira
- MÍRIAM LEITÃO Tudo falhou
- Será o fim da 'dolce vita'? JOSÉ PASTORE
- O dia da liberdade RODRIGO CONSTANTINO
- Erro de cálculo Rubens Barbosa
- A esquerda não quer a reforma agrária Autor(es): K...
- Principio y fin de la fiesta kirchnerista Por Joaq...
- DANUZA LEÃO De cultura etc.
- OS TRÊS FARÓIS DO VOTO Gaudêncio Torquato
- Aécio por linhas tortas DORA KRAMER
- JOÃO UBALDO RIBEIRO Use corretamente o papel higiê...
- Os ventos do mundo Merval Pereira
- Crise sem dono Miriam Leitão
- O rei de Pasárgada Flávio Tavares
- Suely Caldas - A Previdência e os candidatos
- Miriam Leitão Um novo mercado
- MERVAL PEREIRA Divórcio
- FERNANDO DE BARROS E SILVA Nas asas de Lula
- DORA KRAMER Mal traçadas
- MAURO CHAVES COMO SE PROTEGER DA MÍDIA
- MÍRIAM LEITÃO Do euro ao ouro
- DORA KRAMER Ordem do presidente
- MERVAL PEREIRA Sujou a ficha
- NELSON MOTTA Lula Futebol Clube
- Somos mesmo Terceiro Mundo! JOÃO MELLÃO NETO
- Quem polui paga a conta Adriano Pires
- Equipe' econômica em jogo de embaixadas Roberto Ma...
- Pensaram que a crise já era? CARLOS ALBERTO SARDEN...
- Planejar é preciso, mas com realidade Autor(es): A...
- Com a crise, corrida ao dólar Alberto Tamer
- Fichas ocultas Dora Kramer
- MERVAL PEREIRA Visão nuclear
- MÍRIAM LEITÃO Escape externo
- Demóstenes Torres - Pra lá de Teerã
- A pena vale a pena (O Estado de S. Paulo - Dora Kr...
- Europa, colírio e óculos escuros (Folha de S. Paul...
- Limites na campanha (O Globo - Merval Pereira)
- Olhar veterano (O Globo -Miriam Leitão)
- O escorpião e a CPMF (O Estado de S. Paulo Rolf Ku...
- O Brasil merece muito mais (Folha de S. Paulo PAUL...
- Os dilemas do crescimento (O Estado de S. Paulo JO...
- Iran, the Deal and the Council
- FERNANDO DE BARROS E SILVA O que é isso, companheira?
- A matriz energética brasileira José Goldemberg
- As lições da crise do euro:: Luiz Carlos Mendonça ...
- Perigo à vista: a situação fiscal continua a piorar
- CARLOS ALBERTO DI FRANCO Cobertura eleitoral
- MIRIAM LEITÃO - Dueto londrino
- Duas opressões e uma lápide:: Vinicius Torres Freire
- DANUZA LEÃO Mãe: ser ou não ser
- YOSHIAKI NAKANO Uma Nova Lei Fiscal
- JOÃO UBALDO RIBEIRO Se o Brasil precisar
- MERVAL PEREIRA Olhos nos olhos
- WILSON FIGUEIREDO Do enxoval à mortalha
- TOSTÃO Metáfora da vida
- SERGIO FAUSTO Nada trivial
- GAUDÊNCIO TORQUATO Um filme em preto e branco Gaud...
- DORA KRAMER Cuidado ao pisar
- Suely Caldas - Um corte sem efeito
- Demasiado pronto, entre la ruina y la gloria Por J...
- Postura brasileira ignora "repressão bruta" no Irã...
- 'Dilma mentiu: eu sou o autor do Luz para Todos
- Igreja desembarca do PT-Ruy Fabiano
- É velha a estratégia de pegar carona em imagem de ...
- Círculo do medo Miriam Leitão
- FERNANDO RODRIGUES A dose do remédio
- VILAS-BÔAS CORRÊA A biruta patusca do presidente Lula
- Gabriel Tarde César Maia
- O portador da má notícia
- Ilegal, e daí? Merval Pereira
- Reincidência deliberada Dora Kramer
- Mandela no liquidificador Fernando de Barros e Silva
- DORA KRAMER Atrito de interesses
- MÍRIAM LEITÃO Gastança federal
- MERVAL PEREIRA Reivindicando valores
- Medo de contágio pode explicar medida Vinicius Tor...
- Nelson Motta - Pequenos grandes erros
- MÍRIAM LEITÃO Ritmo acelerado
- MERVAL PEREIRA A luta continua
- DORA KRAMER Um tonel de água fria
- DEMÉTRIO MAGNOLI Ensinando o ódio
- Os dois teatros da campanha Vinicius Torres Freire
- É hora das Cartas ao Povo Rolf Kuntz
- JOSÉ NÊUMANNE 'Polícia é polícia, bandido é bandido'
- MÍRIAM LEITÃO Brumas europeias
- CELSO MING Erro nos juros
- MERVAL PEREIRA A pátria de chuteiras
- DORA KRAMER Caminho suave
- Timeo Danaos et dona ferentes* Alexandre Schwartsman
- Terceirizando a popularidade-Ruy Fabiano
- Há vagas para os amigos
- Depois da beira do abismo: e dai?:: Vinicius Torre...
- Presente de grego:: Yoshiaki Nakano
- FH diz que Lula indicou Dilma no 'dedaço
- MÍRIAM LEITÃO O superpacote
- ARNALDO JABOR São muitas as saúvas do Brasil