domingo, maio 16, 2010

Duas opressões e uma lápide:: Vinicius Torres Freire

FOLHA DE S. PAULO

Terceira Via morre sem choro nem vela, nos dias em que as vergonhas do mercadismo sucedem o vexame estatista

A Terceira Via mal foi lembrada no falecimento do governo trabalhista de 13 anos no Reino Unido. Em meio a tantos colapsos, como o das finanças públicas europeias e o dos mercados financeiros eficientes e racionais, a ruína do trabalhismo e de seu verniz, a Terceira Via, parece desimportante.

Mas há algum interesse num epitáfio da dissolução da social democracia no mar de indiferença e pragmatismo que se tornou a política tradicional. Se é que restou outra.

A Terceira Via foi ao governo com a ascensão de Tony Blair, premiê britânico, em 1997. Pode-se dizer que vinha sendo teorizada desde o início dos 1990 pelo sociólogo Anthony Giddens. Era uma capitulação organizada da social democracia.

Nessa "Via", a redistribuição social de renda e riqueza deveria ser menos pautada pela ideia de solidariedade; deveria haver mais responsabilização individual (por exemplo, mais previdência privada). O Estado deveria se retirar ainda mais da economia. Enfim, a finança liberalizada, a competição dos "emergentes" e o custo crescente do Estado de bem-estar social europeu impunham, dizia-se, limites à universalização de direitos. Era preciso mais "produtividade" e "competitividade".

Mais cedo, houvera a rendição do Partido Democrata, sob Bill Clinton.

Mais tarde, a social democracia alemã foi pelo mesmo caminho. O socialista François Mitterrand, empossado em 1981 com pouco mais a propor do que estatização tola, recuara já em 1983. Claro, a França não seguiu a via britânica. Mas parou de produzir inovação social e intelectuais "humanistas".

As novidades políticas foram poucas desde então. O ambientalismo se expandiu, na versão egocêntrica-eurocêntrica ("vamos preservar nossos jardim e saúde") ou na primitivista (regressiva, anticapitalista ingênua), assim como as políticas identitárias (sexo, etnia, culturas, guetos etc.). Racismo e extremismo ressurgiram. O terrorismo justificou dentadas nas liberdades individuais.

Nunca houve tanta democracia no mundo? Verdade. Mas num momento em que eleitores e governos nacionais podem muito pouco.

A Europa "terceirizada", da Terceira Via, cresceu pouco como nunca desde a Segunda Guerra. Os EUA, desde Clinton, passaram a viver de bolhas e dívidas, montados na supremacia do dólar e na inventividade de sua finança. Mas a primeira década do século 21 foi a de menor crescimento desde a Segunda Guerra. Aumentou a desigualdade. Os salários reais ficaram estagnados.

A desmoralização do estatismo, de suas ineficiências e opressões, totalitária ou burocrática, foi sucedida pela laudação do mercadismo. Pela supremacia da finança, um oligopólio global capaz de produzir opressão, sob outra forma, ademais capturando o Estado para se sustentar. A Terceira Via foi um breve e medíocre rótulo para uma situação de fato, a transição para o esvaziamento da política. Ou seja, do pragmatismo eleitoreiro e economicista como forma quase única de política.

É irônico que esse fantasma da social democracia desapareça numa era em que ficaram mais que evidentes as falácias dos dois polos da política dos últimos cem anos, "Estado" e "mercado", dois meios de opressão. O que há adiante? Nada?

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