quarta-feira, maio 26, 2010

O fator Minas Merval Pereira


O Globo - 26/05/2010

Minas Gerais mais uma vez está no centro da disputa política, e o que acontecer lá será fundamental para a eleição presidencial. O ex-governador Aécio Neves está chegando de Londres hoje e traz com ele muitas dúvidas e uma pequena chance de mudar de ideia para ser vice na chapa tucana. Do lado governista, indícios tênues de que a coalizão entre PT e PMDB pode não estar tão tranquila quanto aparenta.

O ex-prefeito Fernando Pimentel, escolhido em prévias partidárias o candidato do PT ao governo, parece estar se interessando pela campanha, o que colocaria em risco o apoio à candidatura de Hélio Costa pelo PMDB.

Uma decisão de Aécio em direção à vice de Serra teria um efeito que pode ser decisivo na eleição, mas será preciso convencê-lo disso.

E uma divisão na base governista em Minas pode provocar uma reviravolta na própria coalizão nacional com o PMDB, o que daria uma nova dimensão no programa de propaganda gratuita.

Vamos por partes: o governador Aécio Neves chega disposto a atualizar suas informações, e uma coisa é certa para os que conversaram com ele: a situação de hoje não é a mesma de 90 dias atrás, quando não havia força humana que pudesse fazêlo mudar de ideia.

Agora, há uma chance, embora pequena. O ex-governador não quer de jeito nenhum passar a ideia de que não se empenhou o suficiente para uma vitória nacional do PSDB.

A mudança, se ocorrer, terá sido porque ele se convenceu de que sua entrada em cena como vice pode ser decisiva na disputa, como hoje consideram alguns de seus principais conselheiros.

Ele ainda não se convenceu disso; vai ser preciso analisar pesquisas, certamente será um processo lento, e não é da índole dele decidir de chofre.

A entrada de Aécio na disputa direta traria alguns benefícios para o PSDB, e o principal deles, além de unir os dois maiores colégios eleitorais do país em torno da candidatura Serra, seria poder fazer duas campanhas ao mesmo tempo, pela dimensão política de ambos.

A campanha se multiplicaria, na visão predominante entre os tucanos. Além disso, essa definição pode ajudar a campanha de Antonio Anastasia ao governo de Minas, que ainda não decolou, embora já esteja próximo dos 20%, outra hipótese que ainda falta provar para convencer Aécio.

Até o momento, ele acha que sua presença em Minas na campanha para o Senado ajuda mais a do governador.

Seu primeiro movimento será na direção da campanha mineira, já neste fim de semana, enquanto deixa maturar a ideia de vir a ser vice.

Há ainda as contas que estão sendo feitas na direção nacional do PSDB, tendo em vista que a campanha polarizou de vez, e tudo indica que a disputa será acirrada em todas as regiões do país.

Diante desse quadro, é preciso colocar uma diferença grande nos dois estados, Minas e São Paulo, para compensar os lugares em que o PSDB vai perder com essa polarização.

Em Minas, embora a diferença esteja sendo reduzida, o PSDB está na frente depois de ter perdido as duas últimas eleições.

Os que defendem a presença de Aécio Neves na chapa tucana acreditam, que, se ele entrar, a diferença hoje, em torno de 300 mil votos pelas pesquisas, seria ampliada, podendo chegar a dois ou três milhões de votos, o que a história das eleições mostra que é perfeitamente factível.

Em 2002, Lula venceu em Minas com 2,8 milhões de votos de diferença, índice que caiu para cerca de um milhão de votos em 2006. Em 1994, Fernando Henrique venceu por cerca de três milhões de votos, diferença que caiu para dois milhões em 2006.

É preciso, porém, que Aécio se convença de que somente sendo vice poderá alavancar essa diferença para a chapa tucana.

A outra ponta da equação eleitoral mineira é a coalizão entre PT e PMDB, não inteiramente assimilada pelos petistas, que têm um partido muito forte no estado.

O ex-prefeito Fernando Pimentel, um dos coordenadores da campanha de Dilma Rousseff, parece estar nos últimos dias revendo sua posição sobre o partido dar apoio a Hélio Costa, dentro de um panorama mais amplo de resistência do PT nacional às exigências do PMDB.

Setores petistas já haviam feito chegar indiretamente à direção nacional do PMDB a ideia de que, se o partido insistisse em ter a cabeça de chapa em estados prioritários para o PT, como Minas, a coalizão poderia ser rompida, com o PSB indicando o vice da chapa oficial.

Essas bravatas, impulsionadas pelo resultado das últimas pesquisas, pareceram ao PMDB "coisa de amador", e assim estão sendo tratadas até o momento.

No limite, pode haver uma reviravolta no cenário mineiro com o retorno do ex-governador Aécio Neves.

Já houve momentos das negociações, quando Dilma Rousseff apoiou a chapa "Dilmasia" — Dilma e Anastasia —, em que Hélio Costa ameaçou bandear-se para a ala tucana, defendendo a chapa "Serrélio", numa referência ao apoio que poderia dar ao candidato tucano, José Serra.

Nada impede que uma negociação desse tipo seja feita, ou até mesmo que Hélio Costa, vendo seu desejo de ser candidato ao governo ser bombardeado pelo PT, prefira se candidatar novamente ao Senado numa coligação PMDB-PSDB, caso em que a candidatura de Aécio Neves a vice de Serra ganharia mais consistência.

Por enquanto, a maior possibilidade é a de que esses cenários não mudem tão drasticamente, e tudo indica que Aécio terá que atuar mesmo para emplacar seu candidato Antonio Anastasia contra a coligação PMDB-PT, com a candidata petista ressaltando a sua "mineiridade".

Mas em política em Minas tudo pode acontecer.

Na coluna de domingo, por um lapso identifiquei Henry Kissinger como exsecretário de Defesa dos Estados Unidos. Ele foi secretário de Estado.

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