domingo, setembro 30, 2007

Miriam Leitão Usos e costumes

O portão 28 indicava que o vôo era para Vitória, mas o som avisava que o embarque para Vitória seria no portão 22. No 28 estavam dando embarque, com atraso, aos passageiros que iam para Brasília.
Passamos pelo portão e engarrafamos no finger. É a hora em que os passageiros filosofam. O assunto era o troca-troca de políticos e o toma-lá-dá-cá dos cargos pela aprovação da CPMF.

Os passageiros riem. Já nem se preocupam com os incômodos do aeroporto. Já nem se revoltam com os usos e costumes políticos do Brasil. Apenas registram.
Naquele dia, digno de registro o espetáculo do crescimento da bancada do PR, agora até com a adesão de Clodovil.

Anestesiados, falavam do Brasil como se fosse uma abstração, curiosidades que não lhes diziam respeito diretamente. Os políticos, figuras excêntricas e previsíveis. Nenhum dos 11% dos brasileiros que disseram confiar nos políticos estava presente naquela fila do avião.
Tudo parece um filme revisto.

E é. O PR que recebe caudalosas adesões é o mesmo PL que recebeu caudalosas adesões na legislatura do mensalão. É aquele partido de Valdemar da Costa Neto, que saiu das urnas de 2002 com 26 deputados e chegou a 47 no auge do escândalo. Agora viveu a mesma história: o PR elegeu 23 e já contava na semana passada 42. Em vez de Valdemar, quem aparece é o deputado Luciano Castro.

Aquele que diz que está indo para o céu com as nomeações que está esperando, como, por exemplo, com as Units, órgãos estaduais das estradas. Entre as que falta nomear, está a Unit mais gorda: a de São Paulo. Vai pavimentar seu caminho para o céu com a nomeação para o órgão federal, o Dnit. Dizem no governo que o nome está enrolado e que a base está reticente, entre outras razões, porque o escolhido tem o dom da ubiqüidade: tinha cargo em Brasília e em Mato Grosso e, durante quatro anos, registrou presença nos dois.

Na festa da filiação de Clodovil no PR, uma das estrelas foi o deputado Inocêncio Oliveira, que se definiu como um liberal-social.

Em questões sociais, de fato, ele é bem liberal. Foi condenado em duas instâncias por um flagrante de trabalho escravo em uma de suas fazendas.

A bancada dos que apóiam esse tipo de, digamos, “liberalismo social” só faz crescer, e recentemente vários senadores se dispuseram a ir ao Pará para dar apoio a fazendeiros de uma usina de açúcar e de álcool em apuros. Parlamentares foram ao ministro Carlos Lupi para protestar contra o flagrante. Antes disso, o senador Flexa Ribeiro, em pleno momento do flagrante, baixou na fazenda a bordo de um avião para defender os fazendeiros. Depois disso, os atos de solidariedade se multiplicaram.

A senadora Kátia Abreu sustenta que os fiscais são uns exagerados.
Tudo repetiu o padrão do apoio político recebido pela Usina Gameleira em Tocantins, quatro vezes flagrada pelos fiscais do grupo móvel contra o trabalho escravo.
A Gameleira teve a defesa do memorável Severino Cavalcanti.

Claro que a breve conversa com os passageiros foi só sobre os aspectos mais visíveis do cotidiano político do Brasil. Eu é que fiquei pensando e enveredei por esse outro caminho por achar que há uma relação entre todos esses maus usos e péssimos costumes dos políticos brasileiros.

Li o relatório dos fiscais que foram à Fazenda Pagrisa. Recomendo a leitura.
O que me impressionou foi a coerência do Brasil.

O país não muda. O remédio vendido na farmácia da fazenda a preços duas, três vezes maior do que o cobrado em Marabá, os descontos nos salários sem explicação, as ameaças a quem adoecesse, o banho tomado na mesma represa onde entrava um esgoto, a jornada excessiva, as promessas não cumpridas, tudo tão século XIX! Quanto ao grupo móvel do Ministério do Trabalho, melhor que fique imóvel, na prescrição de alguns políticos.

Todos os roteiros são velhos no Brasil. Em toda legislatura há o intenso trocatroca de partido, que começa no momento seguinte à contagem dos votos. Nossos inconstantes deputados e senadores às vezes mudam de idéia assim que são eleitos. Depois engrossam as ondas migratórias perto dos prazos fatais e das votações decisivas. O governo já não se preocupa com as outras etapas da votação da CPMF como se preocupava antes, noves fora o susto com o longo prazo.

É que os políticos já estão de mudança para partidos fiéis como o PR, ex-PL.
E lá, o deputado Luciano, que gosta de parcerias voluptuosas, já prometeu fidelidade total.

— A bancada tem 39 votos, e os 39 votaram com o governo — disse ele, dias antes de a bancada engordar para 42.

A causa da onda migratória dos deputados e senadores é justíssima. Estão imbuídos da missão de ampliar o conceito de provisório: se prorrogada, a CPMF, que nasceu provisória, chegará aos 17 anos.

Para políticos, permanentes defensores do provisório, nada mais coerente que não permaneçam nos partidos pelos quais os eleitores os escolheram.
Ora, os eleitores! Eles são passageiros! Afinal, a crise aérea acabou, acabou a crise política.

Renan venceu. O governo distribui cargos às mãoscheias, as posses são sempre festa no céu, principalmente se forem na Petrobras, os ministros convocam rede nacional para garantir que a carga tributária não cresceu, que devemos comer peixe e esperar o PAC nosso de cada dia. Tudo é passageiro, tudo é provisório: nada muda.
Saio hoje de férias. Débora Thomé, cujo talento leitores e leitoras já conhecem, assume a coluna pelas próximas semanas.

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