domingo, setembro 30, 2007

Celso Ming

Afundando


Quando o mercado fechou na sexta-feira, o dólar valia R$ 1,834, a cotação mais baixa desde setembro de 2000.

Neste ano já recuou 14,1%. Apenas em setembro foi um tombo de 7,1%. O exportador já se aflige antecipadamente com o dólar a R$ 1,80. E, pior, isso pode acontecer mais cedo do que se esperava há apenas um mês, quando a crise corria solta lá fora e puxava o dólar para cima.

Até dia 13 de agosto, o Banco Central ainda operava como comprador cativo. De lá para cá, está apenas espiando o movimento porque tem duas razões para se manter de fora. A primeira: as reservas externas já são de bom tamanho. Estão a US$ 162,5 bilhões, pagam toda a dívida externa pública não financeira e ainda deixam uma sobra de US$ 91,3 bilhões. Comprar mais dólares num momento de desvalorização da moeda americana em relação a quase todos os ativos importantes e, ainda, sacrificando recursos, começa a ser visto como queima de patrimônio público.

A outra razão é mais importante. A inflação voltou a mostrar a cara. O IGP-M de setembro foi uma pancada: avanço de 1,3%. O Banco Central passou o recado pelo seu último Relatório de Inflação de que vai ser preciso agir para conter o avanço dos preços dos alimentos. Isso pode significar que os juros tenham de parar de cair. Para que isso não ocorra e o Copom continue a usar sua tesoura, é preciso que outros mecanismos inibidores de inflação sejam acionados ou deixados soltos. Aí entra o papel do câmbio a serviço do controle da inflação.

Um dólar mais barato tende não só a derrubar os preços das mercadorias importadas, como também a desestimular o ímpeto remarcador dos produtores nacionais. Para continuar a derrubar os juros ou para não voltar a aumentá-los, o Banco Central pode deixar que o dólar seja abandonado à sua própria sorte.

Exportadores e industriais temem que isso aconteça e já pressionam o Banco Central para que volte às compras. Tentam demonstrar que está em curso forte desindustrialização e que determinados setores estão à beira da quebra porque já não conseguem competir nem no mercado externo nem no interno.

São argumentos pouco convincentes, na medida em que o consumo cresce quase 10% e a indústria, 6,5% em 12 meses. O setor de veículos, por exemplo, vai colocando nas ruas 27% mais unidades do que em 2006. O emprego formal está crescendo e não há notícia de grandes quebras, como as lideranças da indústria vêm sustentando.

Alguns analistas reivindicam instituições de controle do fluxo de capitais de maneira a impedir que enormes entradas de recursos desabem sobre o câmbio e derrubem ainda mais o dólar.

Esse controle seria um tiro no pé. Só a entrada líquida de Investimentos Estrangeiros Diretos (IED) neste ano deverá ficar muito próxima (ou até ultrapassar) dos US$ 40 bilhões. Também acima dos US$ 40 bilhões deverá ser o saldo da balança comercial, onde são contabilizadas exportações e importações. Assim, em duas contas, o Brasil deve receber neste ano US$ 80 bilhões. Como ninguém pode pretender cortar investimentos estrangeiros ou exportações, fica difícil entender o que seria esse controle.

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