domingo, setembro 23, 2007

DANIEL PISA

Escrevivências
Sempre que se fala em comparar livro e filme, os defensores do primeiro argumentam que sua vantagem é liberar a imaginação do leitor, pois os filmes já nos dão as imagens prontas. Isso é injusto com o cinema, mas não é o cinema que vou defender hoje. A literatura não permite apenas fantasiar o que nos é descrito; é bem mais que isso. Além de imaginação, ela infunde conhecimento e, para infundir imaginação e conhecimento, ela é antes de mais nada uma experiência em si mesma, uma experiência lingüística, fundamental para que se partilhe a sensação de testemunhar outro lugar e outro tempo. Amplia a consciência sensível, valendo-se primeiro do fato de que a leitura envolve regiões cerebrais diferentes, combinando sons, imagens, emoções e conceitos. Palavras e frases não são apenas visões codificadas. Se não têm o imediatismo informativo do cinema, fazem síntese 'sui generis' de narração e reflexão.

No livro O Chão da Palavra (Rocco), José Carlos Avellar trata desse tema, com vários exemplos de adaptações literárias feitas para o cinema, no Brasil e em outros países. Ele mostra que a boa adaptação não é uma tradução, muito menos uma transliteração, do que o livro narra, mas uma recriação desse microcosmo que passa por captar o estilo do autor, por se inspirar em suas características. O livro como ponto de partida, não de chegada. Acho que faltou distinguir com mais clareza os diversos graus em que se pode fazer isso e, mais importante, em alguns momentos Avellar cai em contradição ao afirmar que a literatura é 'linear' e o cinema 'sintético', pois sabe que a história de um conto que se lê em 20 minutos precisa de duas horas de filme. Mas é um alento que alguém destoe do hábito vigente de entender o cinema como literatura em imagens e a literatura como cinema em palavras.

Vinicius de Moraes adorava cinema, poesia e música. A linda caixa com sua biografia, escrita por Sergio Augusto (se bem que só vamos encontrar seu nome ao pé do frontispício, não na capa), e seu cancioneiro ('songbook', como se dizia em português), selecionado por Paulo Jobim (editora Jobim Music), vale também pelos documentos que reproduz, muitos deles inéditos, garimpados por Maria Lúcia Rangel. Entre eles, a carta em que explica por que não foi ao célebre show da Bossa Nova no Carnegie Hall em 1962: porque havia acabado de assinar manifesto contra os EUA na crise dos mísseis em Cuba.

Sergio Augusto faz um bem temperado perfil do artista, embora tivesse talento e informação para nos dar a biografia que ele ainda merece. Enquanto eu lia o texto, repensei a noção que tinha de Vinicius como alguém que poderia ter se tornado um poeta do nível de Drummond e Cabral. Admiro profundamente muitos poemas, em especial as baladas ('No entanto crispais sorrisos') escritas depois de ir para Oxford, 1938-46. Mas na década seguinte, depois do período como crítico de cinema, Vinicius mergulhou na MPB, com os resultados que todos conhecemos. Ele não deixou, enfim, de erguer uma obra: ele ergueu duas. Relacionadas entre si, mas cada uma no padrão alto de sua natureza.

A Bienal do Rio foi mais um evento literário de sucesso, com filas e filas de públicos variados. Mesmo que compostas por crianças em busca de autógrafos do menino maluquinho Ziraldo ou por adultos levados pela onda de romances sentimentais sobre a vida em Cabul ou Bagdá, elas significam a sobrevivência do livro e da palavra escrita, contra muitas previsões. Pena que ninguém aproveitou a multidão para convocar uma salva de palmas aos patrícios portugueses, que bravamente rejeitam a proposta de acordo ortográfico que mataria o trema, acentos diferenciais como em 'vôo' e consoantes mudas como em 'facto' - grafia portuguesa para 'fato', palavra que para eles significa 'terno'. As edições brasileiras dos livros do craque Mia Couto, como a obra-prima Terra Sonâmbula, precisam de glossário ao final para explicar o sentido de palavras estranhas a nós, muitas delas com som e sabor deliciosos. Mas não precisam de adaptação ortográfica.

É difícil definir o que é escrever bem. Mas não o que é escrever mal. Portanto, é mais fácil ensinar dicas sobre o que não fazer do que pretender ensinar a escrever. No Brasil, o costume é encontrar duas escolas sobre o que é um texto bem escrito: a que o considera 'levinho', fluente, fácil como os das crônicas; e a beletrista, que gosta de efeitos como inversões sintáticas e palavras rebuscadas. Para citar reedições simultâneas que a Martins Fontes acaba de lançar, a primeira favorece o estilo de Leréias, de Valdomiro Silveira, que escreve 'pr'esses moços' e 'despois', tentando mimetizar a fala caipira; e a segunda, Às Quintas, de Coelho Neto: 'Andará, por acaso, aí por essas ruas e praças, algum Anacharsis entre os inúmeros centenários gebos que chegam diariamente de todos os rincões do Brasil', etc., etc. Escrever bem não é chamar 'canto do galo' de 'sinfonia galiforme'.

Todo grande escritor é um pensador das palavras; isto é, pensa com as palavras enquanto pensa as palavras. Leio na revista Língua Portuguesa sobre 'o idioma de Drummond', sobre como o poeta de Áporo tinha uma relação com a língua portuguesa que era 'a mesma do perito que disfarça a própria excelência', na feliz frase da autora do texto, Elis de Almeida Cardoso. Um quadro traz os neologismos de Drummond, palavras que ele inventou como 'boitempo', 'tristidão' ou 'glissiglissar', para colorir a língua, jamais para calá-la.

O grande Octavio Paz (1914-1998) escreveu que a literatura modernista se caracterizou por aproximar prosa e poesia. Lendo romancistas como James Joyce, Marcel Proust e Thomas Mann, isso fica claro: todos carregam a linguagem de significado explorando os recursos audiovisuais de palavras e frases. Mas não se pode esquecer que todos partiram da tradição, dos grandes prosadores do passado, jamais abandonando seu caráter descritivo e oral; Joyce se mediu com Homero, Proust com Balzac, Mann com Goethe. Além disso, aproximaram a ficção de outro gênero, do qual Paz era mestre: o ensaio. Joyce tem até passagens sobre conhecimento científico, Proust incorporou a crítica de arte de John Ruskin, Mann é um pensador da música. Todos têm muito a dizer sobre ética, estética e a relação entre ambas. Essa literatura que combina a intensidade poética com a sofisticação ensaística é o que desapareceu do cenário mais recente, apesar de Thomas Bernhard, Roberto Bolaño e poucos outros. Hoje os romancistas têm medo de ser 'intelectuais demais'.

O título desta coluna é uma homenagem ao poeta e tradutor José Lino Grünewald (1931-2000), autor de Escreviver, coletânea de poemas comentados pelo grande crítico Mario Faustino (1930-62). Os dois foram ligados ao movimento concretista, mas com ressalvas que o tempo só ampliou. Faustino, morto jovem num acidente de avião, era fã de Jorge de Lima, excluído dos 'eleitos' do concretismo. Grünewald, em conversa por telefone comigo em 1993, depois que publicamos duas resenhas muito semelhantes sobre um romance do tcheco Ivan Klíma (também nascido em 1931), Amor e Lixo, disse: 'É o oposto do que pensei a vida toda.' Ou seja: a vida toda ele pensou que a linguagem só teria salvação se rompesse radicalmente com a coloquialidade, com a fala corrente; mas escritores como Klíma - ou, melhor ainda, Philip Roth, Ian McEwan, Milton Hatoum, Mia Couto e Alessandro Baricco - provaram que retrabalhá-la é a melhor forma de revitalizá-la. A construção nasce da expressão e a restaura. A escrita é a vivência repensada.

POR QUE NÃO ME UFANO

Bonobos e chimpanzés bateram muita boca na semana que passou. Bonobos comemoraram os resultados do PNAD e de pesquisas sobre a redução da pobreza como se tudo fosse obra direta do governo Lula, e não da sociedade e muito menos de algumas medidas do governo anterior, como a queda da inflação, o aumento real do mínimo e a abertura comercial. Chimpanzés disseram que não há o que comemorar, porque estamos apenas voltando aos índices de renda e emprego de dez anos atrás, o Brasil ainda tem desenvolvimento mais lento que o da média dos países e existem obstáculos como a alta carga tributária e a infra-estrutura precária a superar com urgência.

O que ficou de fora das observações também importa. O número de estudantes no ensino médio, por exemplo, caiu 0,7%. Isso é grave, por se tratar do maior gargalo educacional do País - ainda que em algumas escolas se ensine o que Ali Kamel revelou, que a propriedade privada é feia e o maoísmo bonito... Outro dado significativo: a redução de pobreza no ano passado foi de 18,8% no Sudeste e de 10,2% no Nordeste. Ou seja: o maior avanço não foi nos lugares onde mais se distribui Bolsa-Família, e sim naqueles que têm economia dinâmica e população educada e geram empregos. Mas é uma grande melhora no espaço de um único ano. Digamos que é, sim, para comemorar - só durante o tempo de assoprar a vela.

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