sexta-feira, setembro 07, 2007

ELIANE CANTANHÊDE

Aliás, é Sete de Setembro

BRASÍLIA - Na quarta-feira da semana passada, Lula abriu a rampa do Planalto para que as famílias dos mortos e desaparecidos chorassem suas dores e comemorassem o livro "Direito à Memória e à Verdade", sobre as torturas da ditadura. Não havia um só militar na cerimônia.
Ontem, Lula voltou a abrir a rampa, desta vez para que uma centena de oficiais do Exército, da Marinha e da Aeronáutica ouvissem um mea culpa do governo pela falta de investimentos e pelo descaso das últimas décadas, junto com a promessa de que, daqui para frente, tudo será diferente. Não havia um só ministro vítima da ditadura e que chorou na outra cerimônia. Nem Dilma, nem Tarso Genro, nem Franklin Martins (que não é mesmo chegado a cerimônias).
Se quer "unificar o país", Lula precisa unificar seu próprio governo. Os três ministros têm mágoas profundas de uma época terrível do país, mas os atuais comandos têm razão quando reclamam que os oficiais de hoje não participaram da repressão e muito provavelmente são contra a tortura.
O ministro Mangabeira Unger foi, esse sim, moderno, profissional, sem paixões, ao lançar o debate sobre o Plano Estratégico de Defesa Nacional. Seu discurso sobre desenvolvimento, tecnologia e soberania merece ser lido e compreendido pelos dois lados.
Toda a mídia está com o olhar focado no presidente do Senado, Renan Calheiros, que ainda prevê vitória no plenário, mas que, em qualquer hipótese, é um "cadáver insepulto" -como bem definiu ontem o grandalhão aí de cima, o Clóvis Rossi. Mas a questão militar não deve, ou não deveria, ficar atrás.
Lula tenta defender Renan, mas o PT vota contra ele. Lula quer governar com o PMDB, mas o partido só pensa nos cargos. E Lula fala em união, mas as partes militar e civil de seu governo não formam um todo. É melhor pensar nisso já para não ter que juntar cacos depois.

elianec@uol.com.br

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